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Brasil Energia

Mitigação de emissões ainda tímida

Publicado em 26 setembro 2020

Tecnologias de CCUS despontam em projetos da Petrobras, Shell, Equinor e Total para diminuir a intensidade de CO2 de suas operações

Um relatório da Agência Internacional de Energia (IEA), publicado em setembro, conclui que é preciso acelerar o processo tecnológico de descarbonização do setor energético para eliminar completamente as emissões de CO2 ligadas à energia até 2070. A urgência, alerta a agência, deve-se ao fato de o rápido crescimento da demanda por energia dificultar cada vez mais o atingimento desta meta.

Mas, afinal, em quais inovações tecnológicas as majors estão apostando para descarbonizar seus ativos? A Brasil Energia buscou quatro grandes empresas – Petrobras, Shell, Equinor e Total – para responder esta pergunta.

Uma das soluções já empregadas pela Petrobras no pré-sal é a injeção alternada de água e gás (WAG). O projeto, considerado o maior do mundo para captura de carbono no offshore, tem dupla função: a separação e reinjeção de CO2 previne o lançamento do carbono na atmosfera e aumenta o fator de recuperação dos reservatórios.

Ao todo, a companhia brasileira já injetou 15 milhões de toneladas de CO2 nos campos de Tupi e Búzios, no pré-sal da Bacia de Santos. Sua ambição é atingir 40 milhões de toneladas de CO2 injetados até 2025.

Outro projeto estudado pela Petrobras, em parceria com a Siemens, é a turbina de CO2 supercrítico, para aproveitamento de CO2 em ciclo fechado para geração de energia elétrica. Esta tecnologia, que prevê a reutilização dos gases exaustos das turbinas para aumentar a eficiência energética do sistema, poderá ser aplicada no upstream e no downstream.

“Você começa a gerar mais energia, ou tirar mais energia, do mesmo volume de gás usado para geração hoje. Com isso, a gente reduz, e muito, as emissões, e ainda aumenta a eficiência energética da planta termelétrica, que poderá ser menor”, afirmou o gerente executivo do Cenpes/Petrobras, Juliano Dantas, à Brasil Energia.

A Shell, por sua vez, já possui uma tecnologia de CCUS comercialmente em operação: a Shell Cansolv, que também pode ser utilizada para o tratamento de dióxido de enxofre (SO2). A solução funciona como uma lavagem e captura desses gases no processo produtivo, com o objetivo de remover o máximo de contaminantes.

A Shell Cansolv pode ser usada, inclusive, em indústrias mais pesadas, como a de produtos químicos, aço e cimento – segmentos onde as emissões de gases de efeito estufa são consideradas mais difíceis de prevenir e reduzir.

Outras soluções de remoção de CO2 são estudadas pela Shell no Brasil. A companhia anglo-holandesa possui, em parceria com a Fapesp, o Centro de Pesquisa em Inovação em Gás Natural (RCGI), sediado na Universidade de São Paulo (USP), cujo foco está no abatimento de carbono, abrangendo toda a cadeia de valor da CCUS.

As tecnologias de CCUS também estão sendo estudadas pela Equinor, umas das empresas que estão na dianteira do processo de transição energética. A norueguesa captura e reinjeta CO2 do campo de Sleipner, no Mar do Norte, desde 1996. A previsão, segundo Ruben Schulkes, gerente de Pesquisas da Equinor Brasil, é que novos desenvolvimentos desta tecnologia sejam aplicados em outros campos, quando adequado.

Mas não apenas em captura e armazenamento de carbono concentram-se os esforços das petroleiras para descarbonizar suas operações. O processo passa, também, pelo emprego de novos combustíveis em outras atividades.

É o caso da Total, que atua em dois projetos no segmento marítimo: os barcos de apoio (PSVs) híbridos, que funcionam por meio da geração a diesel e baterias; e um novo sistema de transbordo de petróleo (offloading) realizado a partir de uma embarcação do tipo CTV (Cargo Transfer Vessel), que evita a necessidade e as emisões atreladas a uma jornada completa de navio-tanque na logística de exportação de petróleo bruto.

Ambos os projetos estão em fase de testes no campo de Lapa, no pré-sal da Bacia de Santos. Cabe destacar, também, a atuação da Petrobras no desenvolvimento de combustíveis de baixo carbono, como o diesel renovável e o bioQAV, que ainda precisam do aval da ANP para serem comercializados.

Existem, ainda, duas iniciativas conjuntas estudadas pelas majors no âmbito da descarbonização: o projeto Northern Lights, para armazenagem de CO2 na plataforma continental norueguesa, lançado pela Equinor, Shell e Total, e os compromissos assumidos pela Equinor e Total para a descarbonização de suas atividades marítimas.

Essas são algumas das tecnologias de CCUS e de descarbonização estudadas e implantadas por essas companhias. O caminho que elas deverão percorrer é árduo, requer capital intensivo em tecnologia, mas necessário para reorientar a matriz energética mundial em direção às metas de emissão zero.