A ideia é compreender por que algumas pessoas ultrapassam os 100 anos em boas condições, enquanto outras desenvolvem doenças como Alzheimer
Estudo da USP associa diversidade genética brasileira à longevidade e melhor qualidade de vida na velhice.Pesquisa acompanha 160 idosos com 95+ anos, incluindo 20 supercentenários, para analisar genética e saúde.Genes ligados à longevidade refletem miscigenação; Brasil lidera em longevidade com exemplos de famílias centenárias.
A diversidade genética característica da população brasileira pode estar associada a uma maior longevidade e melhor qualidade de vida na velhice. Essa é a principal conclusão de um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e publicado nesta terça-feira (6) no periódico científico Genomic Psychiatry.
A pesquisa é resultado de um trabalho desenvolvido pelo Centro de Estudos do Genoma Humano e Células-Tronco da USP, no âmbito do projeto Genoma USP. O estudo teve início durante a pandemia de covid-19, quando os cientistas analisaram três pessoas com mais de 110 anos que foram infectadas pelo vírus Sars-CoV-2 e se recuperaram da doença. “Era algo muito extraordinário na época, e ainda é, alguém nessa faixa etária se recuperar de uma doença tão grave”, afirma Mateus Vidigal, pesquisador do Genoma USP e primeiro autor do artigo.
Com o avanço da pesquisa, o escopo foi ampliado e a covid-19 deixou de ser o critério de inclusão. Atualmente, o levantamento reúne dados de 160 idosos com idade igual ou superior a 95 anos, dos quais 20 são considerados supercentenários, pessoas com mais de 110 anos.
Os participantes passam inicialmente por entrevistas clínicas detalhadas e por coleta de sangue, que permite uma avaliação mais precisa de seu perfil de saúde. Ao longo do tempo, esses idosos continuam sendo acompanhados pelos pesquisadores, com avaliações periódicas, geralmente anuais. Segundo o grupo, muitos dos que permanecem vivos não apresentam declínio significativo no estado de saúde.
O principal foco da investigação está nas análises genéticas. “Nós queremos ver a genética por trás da longevidade e da qualidade de vida, porque há muitos centenários que estão muito bem de saúde. Então queremos entender como uma pessoa passa dos 100 anos, muitas vezes, ativa e lúcida, enquanto outras com a mesma idade estão acamadas, com Alzheimer ou outras doenças”, explica Vidigal.
A ideia é compreender por que algumas pessoas ultrapassam os 100 anos em boas condições, enquanto outras desenvolvem doenças como Alzheimer ou se tornam dependentes.
O genoma de todos os participantes já foi sequenciado. Resultados preliminares indicam que alguns genes associados à longevidade, descritos anteriormente em populações europeias, também estão presentes entre os superidosos brasileiros. No entanto, os pesquisadores identificaram características genéticas específicas que podem estar relacionadas à intensa miscigenação da população do país.
“O Brasil tem se destacado nos rankings globais de longevidade, superando países que historicamente são bem longevos, como o Japão. No ano passado, o homem e a mulher mais longevos do mundo eram brasileiros. Isso chama atenção e, muito possivelmente, tem influência da miscigenação”, afirma Vidigal.
Atualmente, o homem mais velho do mundo é o cearense João Marinho Neto, de 113 anos, reconhecido pelo Guinness World Records em novembro de 2024. Natural de Maranguape, na região metropolitana de Fortaleza, ele nasceu em 5 de outubro de 1912.
De acordo com o estudo, a variabilidade genética resultante da mistura entre europeus, africanos, povos indígenas e, em menor proporção, asiáticos pode contribuir não apenas para viver mais, mas também para envelhecer com melhor qualidade de vida. Esse padrão também se reflete em alguns grupos familiares acompanhados pelo Genoma USP.
Um dos casos citados pelos pesquisadores é o de uma família brasileira em que uma mulher de 110 anos tem três sobrinhas com idades de 106, 104 e 100 anos. Para Vidigal, exemplos como esse reforçam o peso do fator genético, sobretudo quando os familiares viveram em contextos ambientais distintos. “Houve influências ambientais diferentes, mas todas ultrapassaram os 100 anos, o que fortalece a hipótese genética”, afirma.
O objetivo central do Genoma USP é identificar com precisão quais genes estão associados à longevidade e à boa saúde dos superidosos analisados. A expectativa é que, no futuro, esses achados possam subsidiar o desenvolvimento de estratégias para modular esses mecanismos genéticos, inclusive por meio de medicamentos, permitindo que mais pessoas se beneficiem de uma vida mais longa e saudável.
Camila Bezerra
Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É repórter do GGN desde 2022.