O Brasil é conhecido mundialmente pela diversidade cultural, mas um estudo recente conduzido por pesquisadores do Genoma USP (Centro de Estudos do Genoma Humano e Células-Tronco), publicado na revista Genomic Psychiatry, reforça que essa diversidade vai muito além da cultura: ela está inscrita no DNA da população e pode ser um dos fatores que explicam o crescimento da longevidade no país. A equipe contou com a participação de uma das maiores autoridades no tema, a Dra. Mayana Zatz. Segundo a pesquisa, o Brasil possui hoje a maior diversidade genética do mundo, resultado de séculos de miscigenação entre povos indígenas, europeus, africanos e asiáticos.
De forma pragmática, os cientistas explicam que populações altamente miscigenadas tendem a apresentar menor concentração de genes associados a doenças hereditárias específicas, comuns em grupos geneticamente mais homogêneos. Em outras palavras, a diversidade genética funciona como um “amortecedor biológico”, reduzindo a probabilidade de determinadas enfermidades se manifestarem com maior intensidade ao longo da vida.
O estudo destaca ainda a chamada vantagem heterozigótica, fenômeno pelo qual indivíduos com maior diversidade genética apresentam sistemas imunológicos mais flexíveis e adaptáveis. Isso se traduz em maior resistência a infecções, melhor resposta inflamatória e maior capacidade de lidar com estresses ambientais — fatores decisivos para o envelhecimento saudável.
Até agora, a maior parte dos dados sobre longevidade vinha de populações geneticamente homogêneas, o que, para os cientistas da USP, criou um “ponto cego” estatístico. Ao focar apenas em ascendências europeias, a ciência pode ter ignorado variantes que só surgem no universo genético brasileiro, que mistura indígenas, europeus, asiáticos e os cerca de 4 milhões de africanos que aqui desembarcaram durante o período colonial.
“Essa lacuna é especialmente limitante na pesquisa sobre longevidade, onde supercentenários miscigenados podem abrigar variantes protetoras únicas invisíveis em populações geneticamente mais homogêneas”, explica Mateus Vidigal de Castro, pesquisador do Genoma USP e primeiro autor do estudo.
Os pesquisadores analisaram centenários e supercentenários brasileiros — pessoas com mais de 100, 105 e até 110 anos — e encontraram sinais claros de resiliência biológica. Mesmo em idades extremas, muitos desses indivíduos mantêm sistemas imunológicos funcionais, mecanismos celulares de reparo preservados e menor incidência de doenças como câncer, demência e problemas cardiovasculares, em comparação com a média da população.
Outro dado que chama atenção é que o Brasil se destaca inclusive entre os homens longevos, um grupo historicamente menos representado entre supercentenários no mundo. Três dos dez homens mais longevos do planeta são brasileiros, segundo registros internacionais citados no estudo — um feito relevante em um país que, até poucas décadas atrás, não figurava nos mapas globais da longevidade extrema.
Esse cenário ajuda a relativizar a ideia de que viver mais e melhor é privilégio de regiões específicas, como as chamadas Zonas Azuis, conhecidas por populações pequenas e relativamente homogêneas. O caso brasileiro mostra que a longevidade também pode emergir da mistura, da adaptação e da diversidade, combinadas a fatores sociais como vínculos familiares fortes e convivência intergeracional.
Em um mundo que envelhece rapidamente, as descobertas do estudo reforçam que diversidade não está restrita apenas ao seu valor cultural ou social, mas é também ativo biológico e estratégico. Aceitar e compreender essa vantagem pode ajudar a orientar políticas públicas no Brasil, estratégias de saúde preventiva e um novo olhar sobre o envelhecimento, não como problema, mas como oportunidade de viver mais e com mais qualidade.