Notícia

Comércio da Franca

Miriquilhos, olhos d'alma.

Publicado em 02 novembro 2003

Até para berrar seus defeitos, a palavraria lembra proteção de nega velha que ralha com menino a quem quer bem, pois que viu crescer, cuidou dos sofreres, sofre junto, o que se há de fazer? Isso é que nem forno modulado, na temperatura certa para o bolo crescer, sem encroar, sem queimar. Não me mudo por causa dele, fico em casa, usando chinelo velho, camiseta molinha e sedosa de tanto lavar, puída de gasto. Exibo logo as minhas manias, hábitos, as feiúras todas que sou e sou. Estamos de rabo preso juntos, sorte dele é minha, azar meu é dele. Não nada a temer, nem um nem outro, disso. Não é nenhuma visita, abre a geladeira e me acusa se deixei de comprar a água com gás que sei que não consegue passar sem. Não sei dizer como era eu antes do advento d'isso, teria que reescrever outa minha história. Posso dizer a ela não venha, não quero hoje. E, de repente, ouvir a campainha tocar, sendo ele, não ligando um pinguinho para a cara feia que faço (no disfarce da satisfação por ele ter entendido direitinho que eu precisava demais dele, hoje, mais do que em qualquer outro dia, cara feia, principalmente, e tudo). A cada hora do dia, feito "cuco maluco" lembro qualquer coisa dele, de bom e de mau, de besta e de importante, quem sou ele, quem é eu? O que é isso? A sua vida está no flutuar de ar nas pernas e ele insiste que eu o desvire, eu que me vire, me faço seu chão, revirando, já que ele não me desiste, e a ele nada em mim resiste. Atravessei desertos, regiões polares, sobrevivi a vulcões, extintos considerados, ativos todavia, tornados, tempestades, trovoadas, raios solares e debaixo das chuvas mais toros, tudo para que ele aconteça, assim, ao meu lado, como se nada d'isso tivesse nunca havido, como se tudo isso jamais haveria de acontecer. Se sou praia ele é mar, se sou mar ele é sertão? Quem há de virar quem? Falando hoje dele, d'isso, fico mais bonita, mais amável, mais de bem comigo, com a vida, forte como o quê, pronta para o que der e vier. Aos meus olhos ou aos dos dele? É assunto de "em-si-mesmo-si" ou "em-si-nósoutros-nós"? Isso é o oitavo sentido da vida de qualquer gente. De longe, o mais sentido e o que faz mais sentido. Isso é sal, pimenta, coentro, cebola e gengibre, na medida e quantidade para cada gosto dos sentidos, sentido por cada qual. Esse "ele" é substantivo concreto? Pensas que "ele" é nome próprio, nome qualquer de coisa, animal, gente, planta? Pensas que "isso" é substantivo abstrato'? Um conceito, uma ação, uma qualidade de qual- quer desses seres desse mundão velho de Deus? Não digo, digas tu para ti. (O que é que me é a "substãça" dele, a "sustãça" d'isso? Ora direis, isso é lá coisa de adivinha coração?). * Miriquilho - olho d'água, nascente que rebenta o solo. In O léxico de Guimarães Rosa, de Nilce Sant'Anna Martins, Ed. Fapesp, Edusp, 2001.