Uma publicação que circula nas redes sociais afirma, de forma enganosa, que a vacina contra a dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan teria sido aplicada em caráter experimental e que a população brasileira teria sido usada como “cobaia”.
A informação é falsa, segundo o Ministério da Saúde, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e especialistas envolvidos nos estudos do imunizante.
O conteúdo viral, publicado em uma rede social e com grande alcance, associa a aplicação da vacina Butantan-DV a um suposto experimento governamental.
O vídeo compartilhado sugere que o imunizante teria sido distribuído sem a devida comprovação científica e que teria colocado milhares de pessoas em risco.
Vacina passou por todas as fases clínicas
As autoridades de saúde e pesquisadores afirmam que a vacina contra a dengue do Instituto Butantan seguiu todas as etapas exigidas internacionalmente para o desenvolvimento de imunizantes, incluindo fases 1, 2 e 3 de estudos clínicos.
Segundo a Anvisa, o produto não foi aprovado de forma experimental, mas sim após avaliação completa de segurança, eficácia e qualidade, em conformidade com padrões regulatórios globais. O registro do imunizante segue ativo no país.
Os estudos envolveram mais de 11 mil participantes e foram conduzidos de acordo com protocolos científicos reconhecidos internacionalmente, como o modelo randomizado, duplo-cego e controlado por placebo — considerado o padrão-ouro para testes de vacinas.
Resultados e monitoramento
Os resultados da fase 3, publicados na revista científica Nature Medicine , indicaram eficácia geral de cerca de 65% contra a dengue e de mais de 80% contra casos graves ou com sinais de alarme. Durante o acompanhamento dos voluntários, não foram registrados eventos adversos graves relacionados ao imunizante nas etapas iniciais de estudo.
A vacina, desenvolvida pelo Instituto Butantan, é considerada a primeira contra a dengue aplicada em dose única no mundo e a primeira totalmente produzida no Brasil.
Suspensão preventiva e farmacovigilância
O Ministério da Saúde informou que a suspensão temporária da aplicação em alguns locais ocorreu por precaução, após o registro de 42 casos com sinais de alerta, incluindo sintomas como dores abdominais intensas, vômitos persistentes e sangramentos. Entre esses casos, três foram classificados como graves, com dois óbitos registrados.
A medida foi tomada em conjunto com a Anvisa e faz parte dos protocolos de farmacovigilância, que monitoram continuamente eventos adversos após a introdução de novos imunizantes no sistema público de saúde.
Segundo o Ministério, esses eventos representam uma fração mínima do total de doses aplicadas e ainda não há confirmação de relação causal entre os casos e a vacina.
Especialistas rebatem desinformação
Pesquisadores envolvidos no desenvolvimento do imunizante também negam que a vacina tenha caráter experimental ou que a população tenha sido usada como “cobaia”.
De acordo com um dos especialistas que participou dos estudos clínicos, o imunizante só é disponibilizado após aprovação regulatória completa. Ele explica que, mesmo após o registro, o monitoramento continua como parte do processo normal de segurança em larga escala, conhecido como fase 4.
Nesse estágio, possíveis efeitos raros podem ser identificados, o que não significa que o produto seja experimental, mas sim que segue protocolos permanentes de vigilância sanitária.
As autoridades reforçam que a vacina permanece autorizada no Brasil e que a decisão de suspensão temporária da aplicação é preventiva, enquanto investigações sobre os casos relatados continuam em andamento.