Notícia

Jornal do Brasil

'Minha música é banal'

Publicado em 19 abril 2000

Por MAURÍCIO PALHARES - Agência JB
SÃO PAULO - O compositor Paulo Vanzolini está morto. Nunca mais uma música terá sua assinatura, promete o biólogo Paulo Vanzolini, de 76 anos, que na juventude compôs Ronda, um dos hinos da Paulicéia. O biólogo especializado em répteis, apesar de aposentado pela Universidade de São Paulo desde 1983, permanece inteiramente dedicado ao Museu de Zoologia da USP, que dirigiu por mais de 20 anos. O compositor receberá as devidas homenagens com o lançamento de suas músicas em CD. O projeto está sendo tocado pelo violonista Ítalo Peron e pela cantora Ana Bernardo, que conhece Vanzolini desde a infância por meio de seu pai, Arthur Bernardo, do grupo Demônios da Garoa, que acompanhou Adoniram Barbosa ao longo de sua carreira. Há três anos Ana convive com o compositor. Ela reuniu material suficiente para fazer uma biografia sobre ele, mas pretende deixar a publicação para o futuro. "Precisaríamos de alguém muito bom para escrever. Vanzolini é exigente. Ele devora livros e não suporta ler besteiras." Depois de árdua pesquisa, ela conseguiu levantar quase 60 músicas, o que não decepcionou Vanzolini, que acreditava ter escrito apenas a metade disso. "Foi difícil, porque tem muita música que ele esqueceu e só os amigos lembram", conta Ana. A cantora corre atrás de patrocínio para lançar as músicas. Falta também convidar alguns amigos do compositor para gravar, como Paulinho da Viola e Chico Buarque, que Vanzolini conheceu quando este tinha dois anos, na época em que seu amigo Sérgio Buarque de Holanda, o maior historiador que o país já teve, trocou a Biblioteca Nacional do Rio pelo Museu da Independência, vizinho ao Museu de Zoologia da USP. O projeto entusiasma o compositor, principalmente pela maneira como se dará a gravação. "Não haverá arranjador, nem maestro, nem produtor. Essa gente não sabe fazer música e estraga a dos outros", diz Vanzolini. Ana explica que as músicas serão gravadas ao gosto dos músicos, na maioria chorões paulistas, como Altamiro Carrilho, Valdir Azevedo, a banda Nosso Choro e o Grupo do Isaías. O curioso desse senhor, que é um dos mais importantes compositores da história da MPB, é que a música foi apenas uma curtição - parte da vida boêmia iniciada nos anos 50 com os colegas do curso de filosofia da USP, onde Vanzolini preparava-se para ser biólogo - e encerrada aos 60 anos. "Morreram quase todos os meus amigos de música. Não tenho mais vontade", diz o maestro. Era para esses amigos de boemia que Vanzolini cantarolava suas músicas a fim de vê-las tocadas num violão, já que seus conhecimentos musicais não chegam sequer ao assobio. "Toda minha música é banal, sambão de centro que qualquer um consegue acompanhar." A tarefa cabia na maioria das vezes a Luiz Carlos Paraná, dono do bar Jogral, onde Vanzolini levava suas músicas para cantar com os amigos de roda e onde viu surgir as carreiras de Jorge Ben Jor e Martinho da Vila. No Jogral nasceu, como tantas outras, Volta por cima, seu primeiro sucesso, que permaneceu no topo das paradas de sucesso em 1961. Foi também a primeira a dar retorno financeiro ao compositor, que se negava a ganhar a vida com arte. "Quando Volta por cima fez sucesso, avisei minha mulher que dinheiro de música não ia entrar em casa. Porque, de repente, falta, e iam me cobrar o porquê. Eu sempre ganhei a vida como biólogo e não precisava daquilo." A situação permanece até hoje. Vanzolini queixa-se de que suas músicas deram mais para quem as gravou do que para ele. O pouco que ganhou com direitos autorais foi aplicado na biblioteca do Museu de Zoologia. "Tem muita coisa rara aqui, livros de mais de US$ 1,5 mil que eu trouxe. Tenho tudo que preciso para trabalhar." Se Volta por cima deu dinheiro, a consagração veio com Ronda, provavelmente a maior crônica musical sobre São Paulo. Como quase tudo que Vanzolini fazia, a música nasceu para ficar entre ele e seus amigos de bar. Porém, num dia de 1953, uma amiga de caipira de Vanzolini, Inesita Barroso, foi ao Rio gravar A moda da pinga. Quando chegou ao estúdio, ficou sabendo que os discos tinham dois lados e, portanto, duas músicas. Precisava de outra e, na emergência, gravou Ronda, que conhecia da roda de violão do Jogral. "Ela escolheu Ronda porque eu estava no Rio e podia liberar a música na hora. Acho que Inesita nem gostava da música", conta Vanzolini. A moda da pinga virou sucesso e a segunda música do disco foi esquecida. "Ficou no bar." E lá permaneceu por bom tempo. Algumas regravações foram feitas por Nora Ney e pelo cantor Noite Ilustrada. Mas só em 1977, na voz da cantora Márcia, Ronda transformou-se no hino da fossa, 32 anos após ser composta. A mulher transtornada da música e sua peregrinação pelos bares do Centro foi vista por Vanzolini numa de suas inúmeras noites na Rua Aurora, tradicional reduto boêmio na época. Segundo ele, bastou imaginar os pensamentos da moça e colocá-los em primeira pessoa. Ronda só não é hino de São Paulo porque Caetano Veloso compôs, em 1969, Sampa, a qual, segundo o próprio Vanzolini, é plágio de Ronda. Aliás, mais do que isso. "Uma música é considerada plágio quando tem oito compassos de outra. Sampa tem 14 compassos de Ronda. É uma citação", diz o biólogo. As melodias em questão acompanham os versos "Cenas de sangue num bar da Avenida São João", de Ronda, e "Que só quando cruzo a Ipiranga e a Avenida São João", de Sampa. O biólogo diz não se importar, até porque não gosta de Ronda. "É muito piegas. Tem gente que me diz que Ronda é o hino de São Paulo. Mas que belo hino! É a história de uma prostituta que vai matar o amante. Música de sacanagem vira hino?" VERDADEIRA COBRA CRIADA DA MPB TÁRIK DE SOUZA Ao lado de Adoniram Barbosa, Germano Mathias, Geraldo Filme e a geração posterior (Eduardo Gudin, Toquinho, Carlinhos Vergueiro), Paulo Vanzolini contesta com sua obra curta e certeira a fama paulistana de cemitério do samba, pespegada em célebre frase pelo carioca Vinícius de Moraes. Zoólogo formado em Harvard, seu doutorado na matéria musical foi descolado na boemia estudantil, no rádio e na TV, onde chegou a produzir um programa da cantora Aracy de Almeida. Antes de se transformar em hino da cidade, seu samba canção Ronda foi gravado em 1953 por um ícone do universo caipira, a cantora Inezita Barroso. A música só estourou depois de 1967, relançada no LP Onze sambas e uma capoeira, homenagem ao compositor feita por seu amigo, o publicitário Marcus Pereira. O disco de que participava Chico Buarque (Praça Clóvis, Samba erudito) trazia uma síntese deste sambista diletante incapaz de tocar qualquer instrumento, que estabeleceu o bar Jogral (do compositor Luiz Carlos Paraná) no final dos 60, como bunker para seu estilo tradicionalista. De tal forma Ronda tornou-se símbolo paulista que ao retratar a cidade em Sampa, Caetano Veloso fez uma citação do samba canção, o que irritou o homenageado ao invés de envaidecê-lo. De suas outras composições de letra & música sempre muito bem costuradas sem perder de vista a fluência e a simplicidade (Cravo branco, Capoeira do Arnaldo, Leilão, Chorava no meio da rua, Na boca da noite, parceria com Toquinho), o maior sucesso foi Volta por cima, que no melhor estilo dos grandes criadores ampliou o alcance de uma expressão de uso corrente ("Levanta, sacode a poeira/ e dá a volta por cima") e emblematizou o sambista mineiro Noite Ilustrada, em 1962. Por ter feito poucos e bons, em matéria de samba o zoólogo Vanzolini é cobra criada do Butantã da MPB. VANZOLINI E O CROCODILO Vanzolini sempre viu a música como passatempo e só não parou de compor antes porque a boemia jamais atrapalhou seu trabalho como biólogo. "Nunca cheguei a este museu depois das 7h30". A escolha do ofício aconteceu aos 10 anos. O pai de Vanzolini vivia preocupado com o filho, que não se interessava por nada. Prometeu-lhe, então, uma bicicleta se ele entrasse no ginásio. O menino passou e, em seu primeiro passeio, percorreu os cinco quilômetros que separavam sua casa do Instituto Butantã, maior serpentário da América Latina. Quando viu as cobras, decidiu que seria biólogo. Aos 14 anos, conseguiu um estágio na divisão de biologia da Fapesp e nunca mais deixou a pesquisa. Nos últimos cinco anos, percorreu mais de 10 mil quilômetros em rios da Amazônia e do norte do Mato Grosso à procura de novas espécies de lagartos. Encontrou dezenas, mas não faz barulho por isso. "Tem muita espécie de lagarto desconhecido na Mata Atlântica." Na Amazônia, quase foi devorado por um crocodilo de mais de quatro metros, que virou a canoa em que ele e sua equipe estavam. "Ele arrancou um pedaço do casco, que tinha mais de dois dedos de largura", conta. Para ilustrar a experiência, o biólogo mostra um crânio de crocodilo com quase meio metro de comprimento. "Desses só existem na Amazônia." A expedição valeu elogios do então governador do Amazonas Gilberto Mestrinho. "Ele disse que eu era o maior antropólogo do país. Vê-se o quanto ele entendia de ciência." (M.P.)