Há um século, nascia em Brotas de Macaúbas (BA) o intelectual que dividiu a economia urbana em dois circuitos e inspirou gerações de pesquisadores no Brasil e no mundo.
No último domingo (3 de maio), completam-se 100 anos do nascimento de Milton Santos – geógrafo baiano, negro, exilado pela ditadura militar e autor de uma obra que redefiniu a forma de compreender o espaço geográfico, articulando economia, política e sociedade. Falecido em 2001, aos 75 anos, suas ideias continuam referência para análises socioeconômicas no Brasil e no mundo .
A teoria dos dois circuitos da economia urbana
Uma das contribuições mais influentes de Milton Santos é a divisão da economia urbana em dois circuitos:
A professora Livia Cangiano (pós-doutoranda na USP e professora colaboradora na UEMA) aplica essa teoria em seus estudos sobre desigualdades em São Luís (MA) :
“É muito difícil para as pessoas da periferia deixarem o espaço onde vivem e se deslocarem até o centro para consumir. As populações que vivem na periferia abrem seus próprios comércios, quitandas, mercadinhos, pequenas lojas.”
Exemplo prático: No circuito inferior, a pessoa que não consegue comprar a dúzia do ovo consegue comprar um ovo apenas. “As formas de comércio são menos endurecidas do que em uma grande rede supermercadista”, explica Livia.
O projeto de pesquisa do qual Livia faz parte aplica as ideias de Milton a dinâmicas urbanas em Gana (África), Londres e Paris.
O espaço como produto de decisões políticas
Milton Santos nunca tratou o espaço como mero cenário. Para ele, a distribuição desigual de infraestrutura (saneamento, transporte, acesso à internet) não é acidental, mas fruto de escolhas que privilegiam determinados grupos e territórios .
“Milton traz essa compreensão de uma geografia historicamente produzida pelos grandes aparatos do Estado. À medida que o capitalismo avança, processos de industrialização e urbanização no Brasil vão produzir desigualdades e destruição das economias locais”, explica a geógrafa Catia Antonia da Silva (professora da UERJ) .
Por uma outra globalização
No livro homônimo, Milton descreve um sistema vendido como promessa de integração e progresso, mas que, na prática, aprofunda desigualdades mundiais. Grandes obras de infraestrutura (portos, corredores logísticos) conectam mercados, mas também reorganizam territórios, pressionam comunidades e ampliam a concentração de riqueza .
“Nunca na história da humanidade houve condições técnicas e científicas tão adequadas a construir o mundo da dignidade humana, apenas essas condições foram expropriadas por um punhado de empresas que decidiram construir um mundo perverso”, escreveu Santos .
Meio técnico-científico-informacional
Conceito que descreve como tecnologia, ciência e infraestrutura passaram a moldar o território. Regiões altamente conectadas convivem com áreas onde faltam serviços básicos. Enquanto alguns espaços são preparados para o mercado global, outros permanecem à margem .
Racismo e superação
Milton Santos era negro e enfrentou o racismo estrutural dentro da academia. Em entrevista ao programa Roda Viva, em 1997, ele declarou :
“Eu creio que é difícil ser negro e é difícil ser intelectual no Brasil. Essas duas coisas, juntas, dão o que dão, não é? É difícil ser negro porque, fora das situações de evidência, o cotidiano é muito pesado para os negros. É difícil ser intelectual porque não faz parte da cultura nacional ouvir tranquilamente uma palavra crítica.”
A professora Catia Antonia da Silva (UERJ), também geógrafa negra, conta como Milton foi fundamental para sua formação :
“Eu sou uma mulher negra de 60 anos. Entrei na UFRJ na década de 80, onde a maior parte dos meus colegas na universidade não eram negros. Então, o Milton foi muito importante para a minha formação, não só do ponto de vista cognitivo e técnico, mas também na dimensão humana.”
“Ele dizia que o fato de ser um professor universitário não o impediu de viver experiências de racismo. Falava que os negros precisavam ter um esforço muito maior para o seu trabalho ter legitimidade. Mas ele nunca utilizou qualquer vitimização para se tornar um intelectual.”
Catia ressalta que a obra de Milton não tem a negritude como tema central, mas produziu uma teoria social crítica das desigualdades que ajuda a analisar as questões raciais – e ele nunca ignorou o tema quando era necessário se posicionar .
Futuros possíveis: resistência e reinvenção
Apesar dos diagnósticos críticos, Milton Santos também apontou caminhos de transformação. Ele defendia que as mesmas redes e tecnologias que ampliam desigualdades podem ser apropriadas por populações locais para criar alternativas econômicas e sociais .
“Ele propõe uma leitura sobre o território brasileiro, trazendo ferramentas para que a gente pense concretamente nas desigualdades, que não fique apenas no plano teórico, mas que nos induza a ir a campo, a conversar com essas pessoas, a entender o cotidiano delas no espaço”, diz Livia Cangiano .
“Além disso, ele faz uma proposta muito generosa para pensar o espaço, que é pensar o quanto a periferia urbana brasileira como um todo é capaz de produzir outras racionalidades de existência.”