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Mil dias de vida: USP acompanha saúde de mães e bebês no Acre

Publicado em 17 agosto 2018

Os primeiros mil dias de vida de uma criança compreendem o intervalo que vai desde a concepção até os 24 meses do bebê (270 dias da gestação + 365 dias do primeiro ano de vida + 365 dias do segundo). Pesquisas indicam esse período como uma “janela de oportunidades” para uma série de intervenções importantes que podem melhorar o perfil de saúde da criança na adolescência e na vida adulta.

É a partir dessa ideia que pesquisadores da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP realizam o Estudo MINA-Brasil – Saúde e Nutrição Materno-INfantil no Acre desde 2015, na cidade acreana de Cruzeiro do Sul. Este acompanhamento de longo prazo (coorte) de gestantes e seus filhos tem o objetivo de avaliar aspectos da saúde e da nutrição, desde a concepção dos bebês até os dois primeiros anos de vida (mil dias). Atualmente, conta com a participação de cerca de 900 crianças e suas mães.

Em abril de 2018, um grupo de pesquisadoras coordenado pela professora Marly Augusto Cardoso, do Departamento de Nutrição da FSP, foi até Cruzeiro do Sul e se reuniu com a equipe local para dar andamento a mais uma etapa do projeto: uma nova avaliação das mães e seus filhos, agora na faixa dos 24 meses de idade.

A iniciativa integra o Projeto Temático Estudo MINA – materno-infantil no Acre: coorte de nascimentos da Amazônia Ocidental Brasileira, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Por que avaliar os primeiros mil dias de vida de uma criança?

Há indícios de que exposições adversas tanto na vida intra-uterina como após o nascimento possam afetar a saúde tanto da mãe como do bebê ao longo do ciclo da vida e também nas gerações futuras. Isso se dá por meio das chamadas alterações epigenéticas (variações hereditárias que afetam a expressão gênica sem alterar a sequência dos pares de base do DNA). A promoção da nutrição adequada e do crescimento saudável no intervalo crucial desses mil dias parece resultar em efeitos benéficos sobre a saúde das pessoas no decorrer da vida.

Alguns resultados

O projeto poderá auxiliar na reorientação de políticas públicas voltadas para a saúde materno-infantil, a partir da identificação das vulnerabilidades e necessidades da população. Entre os resultados preliminares, estão:

  • Alta prevalência (40%) de anemia entre as parturientes. Uma das causas é a malária gestacional. Cruzeiro do Sul é, atualmente, uma das cidades com maior número de casos da doença no Brasil. Leia neste link reportagem especial do Jornal da USP sobre o tema.

Prevenção da anemia (clique para ler)

O uso de sulfato ferroso durante a gravidez e um número de consultas satisfatório no pré-natal poderiam prevenir a ocorrência de anemia gestacional

  • Baixo aleitamento materno exclusivo (média de um mês). A Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda alimentação exclusiva com leite materno até os seis meses de vida. Nos resultados preliminares do estudo MINA-Brasil, a prevalência de aleitamento materno exclusivo no primeiro mês de vida foi de 43.7%, com mediana de duração de 30 dias. Além da introdução de fórmulas infantis, o uso de chupeta foi também associado à menor duração do aleitamento materno exclusivo. Esses resultados estão na dissertação de mestrado de Paola Mosquera

Sobre fórmulas infantis (clique para ler)

Entre as causas está a introdução precoce de outros alimentos, principalmente fórmulas infantis. Por mais evoluídas que sejam do ponto de vista tecnológico, elas não conseguem reproduzir uma série de compostos naturalmente presentes no leite materno.

Câncer de mama (clique para ler)

O aleitamento materno é uma estratégia de saúde muito importante que deve ser reforçada para potencializar a inteligência e a saúde da criança. Além de ser benéfica para a saúde da mulher: mães que amamentam têm menor risco para desenvolver câncer de mama no futuro

  • Um outro benefício do Estudo MINA-Brasil é a formação de pesquisadores em Cruzeiro do Sul que podem dar continuidade às pesquisas, além da capacitação de recursos humanos que atuam localmente
  • A professora Marly Cardoso destaca um caso onde a presença dos pesquisadores foi fundamental para o diagnóstico correto de uma criança. A pesquisadora da Fiocruz Simone Ladeia esteve em campo no projeto MINA-BRASIL e fez encaminhamento de uma criança com suspeita de autismo durante a coleta de dados. Esse rastreamento precoce foi fundamental para propiciar o acompanhamento adequado da criança e oferecer suporte aos pais para o desenvolvimento infantil. Atualmente, graças à intervenção do pesquisadores do MINA-BRASIL, a criança recebe tratamento e leva uma vida praticamente normal.

https://youtu.be/ixBPJS_lBxg

Próximas etapas

Os pesquisadores estão na expectativa de conseguir um financiamento em parceria com o National Institutes of Health (NIH) – os Institutos Nacionais de Saúde, dos Estados Unidos – e pesquisadores americanos, para fazer o acompanhamento dos bebês aos 4 e 5 anos de idade. O objetivo é analisar os riscos para doenças cardiovasculares nessa fase da vida e o aumento excessivo de peso, e comparar esse padrão de desenvolvimento com outras coortes internacionais.


Artigo

Professora Marly Augusto Cardoso, coordenadora do projeto MINA

Alimentação no início da vida: janela para o futuro

Análises das curvas de crescimento da Organização Mundial da Saúde (OMS) confirmam a importância dos dois primeiros anos de vida como uma “janela de oportunidades” para promoção da saúde e do capital humano de uma população.

Leia o artigo, na íntegra, neste link