Notícia

Jornal do Brasil

Mídia, política e mundo cão

Publicado em 17 abril 1998

Por MUNIZ SODRÉ
Diz-se que famosa star televisiva pretende televisionar, em horário nobre, o parto de seu filho. Se a notícia não é verdadeira, é certamente verossímil e não tem, em princípio, nada de mais, já que há décadas a mídia manipula, para fins diversos, imagens do nascimento de bebês. O parto publicitário, de um bebê-star seria apenas mais um episódio da série crescente de encenações espetaculares da vida privada de gente conhecida e anônima. Mas algo aí levanta uma questão. Faz pouco tempo, alguns leitores queixavam-se, na Seção de Cartas do JB, do descaso jornalístico em relação a assuntos de real interesse público. Um deles, a propósito do anúncio governamental de aumento salarial dos professores universitários, reclamava contra a forma da notícia, dada com destaque, mas sem qualquer investigação de sua veracidade. Na realidade, a notícia continha um engodo, que jamais chegou a ser bem explicado aos leitores: não se tratava exatamente de "aumento" - esta palavra, no discurso corrente, implica linearidade e garantia trabalhista -, e sim de bolsas, que contemplariam apenas casos especiais. Por meio dessa burla (já rejeitada por algumas universidades), o governo visava aparentemente melhorar sua imagem pública no que diz respeito a um setor cada vez mais injustiçado. Sem nenhuma apuração, prévia ou posterior, jornais limitam-se a reproduzir o pressrelease oficial (exatamente como se fazia no regime militar), que obteve o fim desejado, isto é, um efeito propagandístico. Este é apenas um exemplo, mas bastante ilustrativo, de como as coisas se passam quanto ao divórcio entre as pautas da mídia e a verdade pública relativa a setores representativos da população economicamente ativa. Divórcio é palavra adequada para a atual separação entre o funcionamento do Estado e dos seus intelectuais coletivos na sociedade civil (a mídia é um deles) e à vida ativa do país. São vários, e circulares, os sintomas: O Executivo governa por medidas provisórias (logo, autocraticamente no que se refere à divisão liberal dos poderes), o Legislativa legisla em causa própria, a mídia publica segundo as pautas do mercado - realidade absoluta para o Executivo. Habituamo-nos de tal modo a esse círculo vicioso que terminamos engolindo a sua pretensa naturalidade social. Deixamos de pôr-nos a par das verdadeiras causas dos déficits fiscais, da abertura das comportas do Tesouro para o jogo da reeleição, do que escondem os anseios privatistas em torno da educação etc. Na verdade, ficamos aos temores de que as atuais tecnodemocracias sul-americanas possam estar se convertendo em ditaduras brancas, isto é, apenas lavadas (assim como se lava dinheiro) dos aspectos anacronicamente sanguinolentos das velhas ditaduras. Há, sim, novas formas: democráticas em gestação, mas também formas novas de ditadura. A censura deixa de ser conjuntural, pertence agora à estrutura. Ou seja, há todo um sistema discursivo montado para tentar nos convencer de que cada cidadão é doravante um Doutor Pangloss no melhor dos mundos, ao mesmo tempo em que se esvaziam as forças reais da democracia representativa, onde se supõe que parlamento legisle, judiciário seja autônomo, Executivo obedeça às leis e imprensa sirva de correia de transmissão (crítica, publicista) entre povo e Estado. Numa realidade socialmente produzida segundo a lei exclusiva do mercado, o mundo converte-se em espetáculo, que é a forma acabada da mercadoria. Em vez de apuração e análise - exigências do jornalismo clássico -, o show nosso de cada dia. Como esse estado de coisas progride em atmosfera de indiferença generalizada e de ausência de limites ético-políticos, estamos assistindo ao que a própria imprensa já denominou de escalada do mundo cão: o recrudescimento do grotesco televisivo, o rebaixamento de qualidade da música popular (que tanto orgulho deu à geração que se opunha às ditaduras), a reprodução mecânica de boletins oficiais e o transbordamento de assuntos inessenciais no jornalismo diário, a excessiva valorização do entretenimento, enfim tudo isso a que o velho Marcuse chamou de "dessublimação repressiva". Não nos enganemos, toda essa tralha palavrosa e imagística tem sua função, que é a imposição da moral rebarbativa do mercado e o ocultamento do fato de que o Estado gira hoje em torno de si mesmo, sustentado por contribuintes aparentemente sequiosos apenas de consumo e riso. Quando o emprego desaparece, quando some a proteção ao trabalho sob o rótulo de "fim da Era Vargas", quando a classe política não representa mais coisa nenhuma, quando o regime assume a forma soft de uma ditadura branca, resta aos desavisados o consolo do riso. Na falta de identidade política, a política de exibição dos dentes, por isso se lê tanta biografia com restituições felizes do passado (o presente é cada, vez mais insuportável), por isso tudo termina em pizza e deboche. Trocar o espírito público (verdadeiramente político) pelo publicitário (melífluo e midiático) é entrar na zona de indiferença pela realidade histórica das coisas. Inessencialidade, superfluidade são nomes adequados à regra geral do jogo. Tudo parece querer afastar da consciência a percepção correta da nova realidade que afeta o emprego, a saúde, a educação e a esperança de mais-vida dos bebês excluídos. Com o mesmo sorriso beatífico que dispensará ao nascimento do bebê-star, o vidiota marchará para a reconfirmação nas urnas do poder que lhe parece tão remoto e ao qual é, no fundo, indiferente. Isto não nos impede, felizmente, de perceber o espraiamento de um forte mal-estar nacional, algo semelhante, para ficarmos nos exemplos caros à mídia, ao da amedrontada personagem principal de O Bebê de Rosemary. Professor da UFRJ e escritor