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Correio Popular (Campinas, SP) online

Microvespas de laboratório: inovação contra pragas

Publicado em 23 março 2012

Por Glaucia Santinello

Microvespas produzidas nos laboratórios da empresa BUG Agentes Biológicos, com sede em Piracicaba e unidades em Charqueada, Limeira e Engenheiro Coelho, conseguem um índice de até 90% de eliminação de pragas no campo. Em apenas dois anos, a empresa atingiu 500 mil hectares de cana-de-açúcar para o controle da broca-da-cana usando os ovos desta vespinha — a Trichogramma Galloi. A principal vantagem desse agente é o de matar a praga antes dela causar prejuízos à cultura e reduzir altas infestações dela em apenas um ano. A criação dessa alternativa natural de combate às pragas que ameaçam as plantações teve o reconhecimento da publicação norte-americana Fast Company, que credenciou a empresa como a mais inovadora do Brasil. Em todo o mundo, a BUG conquistou a 33ª posição no ranking que listou as empresas mais inovadoras do planeta de 2012. No País, o primeiro lugar conquistado pela empresa superou as grandes EBX, Embraer e Petrobras.

A liderança no ranking brasileiro surpreendeu os profissionais e pesquisadores da empresa. "Muito mais do que o orgulho de sermos a primeira empresa nacional na lista da Fast Company, esta indicação é um marco para o setor de controle biológico natural. É o reconhecimento definitivo da importância desse braço de apoio da agricultura mundial", afirma Heraldo Negri de Oliveira, biólogo e sócio fundador da BUG. A empresa defende institucionalmente uma mudança na cultura de controle biológico, muito focada ainda no uso de agentes químicos.

Atualmente, o mercado brasileiro do setor movimenta US$ 8,5 bilhões ao ano, sendo que a maior parte desse montante é dominada pelos agrotóxicos. O controle biológico não abocanha nem 1% desse bolo. "Diferente de países da Europa e dos Estados Unidos, o controle biológico no Brasil está iniciando. O setor ainda é incipiente e é um trabalho, principalmente, de mudança de cultura do produtor brasileiro, muito acostumado aos agentes químicos. No entanto, aos poucos, os produtores estão vislumbrando vantagens no uso alternativo em suas lavouras", aposta Marcelo Poletti, agrônomo, sócio e diretor de pesquisa e desenvolvimento da BUG.

Com esta perspectiva, segundo a explicação do pesquisador e sócio da empresa Alexandre de Sene Pinto, o produto comercializado pela BUG é capaz de substituir integralmente os agrotóxicos para as pragas onde um programa de controle foi desenvolvido. As vespas produzidas pela empresa, por exemplo, já substituem totalmente o agrotóxico em uma usina de 35 mil hectares. A usina faz parte de uma gama de clientes da empresa, que já conta com "pesos pesados" da agricultura nacional, principalmente indústrias ligadas ao setor sucroalcooleiro, como Raízen, Zilor e São Martinho.

"Aos poucos, começamos a sentir uma mudança no mercado e a nossa expansão em todo o território nacional comprova isso. Também exportamos para vários países da União Europeia, onde a opção pelo controle biológico, em cultivos protegidos, já está consolidada há mais de 50 anos", analisa Poletti.

Além dos ganhos ambientais e da redução da exposição de produtos químicos do trabalhador, o uso do controle biológico pode reduzir os custos em até 30% em relação aos agrotóxicos. As vespas também, normalmente, só precisam ser aplicadas uma vez, no início do plantio, enquanto agentes químicos são borrifados até seis vezes durante a safra. "Com isso, os produtores precisam investir menos recursos em agrotóxicos, cuja composição química pode ser muito danosa à saúde da população", complementa Diogo Carvalho, agrônomo e diretor comercial da empresa.

A dúvida comum sobre esse tipo de controle é se não haveria nele um perigo biológico. Os pesquisadores garantem que não. E o argumento convence. De acordo com Poletti, a Trichogramma, que sempre existiu na natureza, parasita apenas os ovos dessas pragas. "Dessa forma, ela só poderia se reproduzir descontroladamente se a praga também se tornasse abundante. Acontece que a própria Trichogramma evita isso e ela vai sumindo à medida também que a praga vai sumindo."

As vespas

Segundo Oliveira, apesar da Trichogramma Galloi ser estudada há muito tempo, a tecnologia de utilização é nova para a cultura da cana-de-açúcar. Em 2010, a BUG se tornou a primeira empresa a registrar um inseto (a Trichogramma), com liberações do Ministério da Agricultura, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Na prática, isso significa dizer que esse tipo de vespinha já era conhecida e estudada no ambiente acadêmico. A grande inovação da BUG foi conseguir produzi-la em escala comercial.

A Trichogramma é uma vespa tão pequena que um grama vendido pela empresa contém 37 mil ovos fertilizados com pequenas vespinhas. Ela é cultivada na lavoura e, quando nasce, é solta. É no campo que vai parasitar outros ovos, de mariposas e borboletas, que são as principais pragas — quando em fase de lagarta — das grandes culturas brasileiras.

De acordo com Poletti, as microvespas são vendidas em cartelas. Cada cartela que vendem — uma embalagem especial e patenteada — tem 24 tabletes. Cada tablete, cerca de 2,5 mil vespinhas e toda a cartela tem entre 50 a 150 mil Trichogramma, dependendo da finalidade. Para aplicar, o agricultor caminha pela plantação e solta um tablete a cada 20 metros. A cartela cobre um hectare e custa entre R$ 15,00 e R$ 18,00 para cana. "Para outras culturas, o custo é menor", explicou Poletti. A capacidade de produção é de oito quilos de ovos por dia.

Perspectiva é de incentivo a mais pesquisas no País

Para Heraldo Negri de Oliveira, biólogo e sócio fundador da BUG, com a conscientização ecológica, desastres ambientais cada vez mais frequentes, aumento do número de casos de intoxicação causada por agrotóxicos e com a conscientização da contaminação dos alimentos, a tendência mais pontual é a do crescimento do controle biológico por ser uma das únicas tecnologias desenvolvidas para substituir os inseticidas.

Para Oliveira, o financiamento de pesquisas deverá registrar aumento nos próximos meses. "A comunidade científica ganha, não só pelo aumento nos investimentos do setor, mas principalmente pela divulgação daquilo que há anos muitos idealistas trabalham por se consolidar, já que essa é uma opção de controle de pragas das menos agressivas ao ambiente, à economia e à sociedade, sendo a base da sustentabilidade das culturas em todo o mundo." Além da comercialização das vespinhas — que respondem por metade do faturamento da BUG —, a empresa também vende os ácaros predadores que combatem as pragas em pequenas culturas como as de morango, tomate e pimentão.

Saiba Mais

A BUG foi fundada por estudantes de pós-graduação da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo (USP) e por um ex-funcionário da mesma universidade, em 2001. A empresa teve apoio importante da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), com a aprovação de um projeto de inovação tecnológica que impulsionou a empresa. Depois desse, mais três foram aprovados. Atualmente, a empresa passou a ter o Fundo Criatec do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) como sócio e, mais recentemente, a empresa e a Promip realizaram uma fusão.