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Blog do Pablo

MicroRNAs têm potencial para acelerar processo de cicatrização da pele em diabéticos

Publicado em 30 julho 2019

Por Redação | Jornal da USP

Uso de microRNAs que regulam sistema de reparação tecidual servirá de base para criar novas terapias em pacientes com feridas crônicas, como os diabéticos.

MicroRNAs são pequenas moléculas que regulam os genes responsáveis por diversas funções executadas pelas células do corpo humano, como a cicatrização de feridas. Os microRNAs envolvidos no sistema de reparação tecidual da mucosa oral, mais rápida que a de outras partes do organismo, foram identificados em pesquisa da professora Alyne Simões Gonçalves, da Faculdade de Odontologia (FO) da USP. O estudo, realizado em parceria com a University of Illinois at Chicago (UIC), nos Estados Unidos, comprovou em testes com animais o potencial dos microRNAs para acelerar o fechamento de feridas. Os resultados servirão de base para criar novas terapias de cicatrização de pele.

O sistema de reparação tecidual é bastante estudado, por ser essencial para a manutenção da vida, além de ser complexo e dinâmico. Quando há um comprometimento das fases desse seguimento, problemas funcionais e estéticos podem ocorrer no paciente, assim como infecções locais e sistêmicas. Quando a cicatrização de feridas de pele é comparado com a reparação de lesões de mucosa oral, observa-se que, embora ambos passem pelas mesmas fases, a mucosa oral apresenta uma melhoria superior, no entanto, a base molecular para justificar essa vantagem ainda é pouco conhecida.

NA UIC, a professora Luisa A. DiPietro coordena uma linha de pesquisa que compara o procedimento de cicatrização da mucosa oral e da pele, para compreender melhor as diferenças entre os dois processos e propor novas estratégias terapêuticas para acelerar o fechamento de feridas, evitando ou minimizando o risco do aparecimento, por exemplo, de feridas crônicas. A linha de pesquisa chamou a atenção da professora Alyne, do Departamento de Biomateriais e Biologia Oral da FO, que realizou projeto de pós-doutorado na UIC por um ano, pesquisando microRNAs reguladores do sistema de reparação tecidual e o potencial terapêutico de alguns microRNAs.

Reparação de Tecidos

Somente no início do século XXI, os microRNAs foram apontados com papéis regulatórios de diversos processos celulares, como proliferação, diferenciação e apoptose (uma forma de morte celular programada), sendo, portanto, importantes para o método de reparação tecidual. Na primeira parte do estudo, as pesquisadoras exploraram as diferenças no perfil de expressão dos microRNAs na reparação tecidual de incisões realizadas na pele e na mucosa oral de camundongos.

Durante cinco dias, a professora Alyne acompanhou clinicamente as feridas. Após esse período, os tecidos foram retirados para analisar as expressões dos microRNAs. “A ideia era investigar a relação entre a expressão de microRNAs com a reparação mais rápida e eficaz da mucosa oral”, explica. Nessa fase, centenas de microRNAs foram mapeados, sendo que o miR-10a, miR-10b, miR-21 e miR-31 apresentaram diferenças importantes entre a mucosa oral e a pele. “Queríamos descobrir quais microRNAs teriam o melhor potencial terapêutico para acelerar o fechamento das feridas, para aplicarmos na segunda fase do projeto.”

Com base nas descobertas iniciais, era preciso iniciar um novo teste. Na segunda parte do trabalho, cada grupo de camundongos foi submetido a um tipo de tratamento com microRNAs selecionados ou com seus inibidores (miR-21, miR-31, inibidor de miR-10b ou seus respectivos controles). As lesões foram acompanhadas por dez dias pela professora Alyne.

Cicatrização Rápida

“Esse procedimento foi feito porque durante a primeira análise percebeu-se que a expressão de MiR10b apresentava-se inicialmente elevada na pele e depois diminuía durante o processo de reparação tecidual, mas permanecia sempre baixa na mucosa oral”, explica a professora, “enquanto que o miR-21 e o miR-31 tinham suas expressões aumentadas durante a reparação, tanto para a pele, como para a mucosa oral”. A intervenção das pesquisadoras agiu como um estímulo ao meio de cicatrização.

Após o acompanhamento, foi possível concluir que todos os tratamentos propostos reduziram o tempo de reparação das lesões realizadas no dorso dos animais. “A importância de trabalhar com isso é criar novas opções de terapia para acelerar o fechamento de feridas”, afirma Alyne. “Ferida crônica, por exemplo, é um problema sério, principalmente em pacientes com comprometimento sistêmico, como os pacientes diabéticos, e ainda não temos um tratamento eficaz”, afirma. Parte dos resultados já foram publicados em artigo da revista científica Scientific Reports, do grupo Nature, no dia 9 de maio.

O próximo passo da pesquisa será estudar esses tratamentos em lesões realizadas em animais com algum comprometimento no processo de reparação tecidual. “É preciso continuar estudando, associar terapias e buscar cada vez mais um melhor desempenho no fechamento de feridas, diminuindo a chance de haver complicações decorrentes dessas lesões, assim como, melhorar a qualidade de vida dos pacientes”, conclui a professora. O projeto de pós-doutorado de Alyne teve bolsa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).