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Micronutrientes trazem ganhos econômicos e ambientais à cultura de cana-de-açúcar

Publicado em 11 novembro 2009

Por Carolina de Barros Aires

O programa brasileiro para o desenvolvimento do etanol de cana-de-açúcar vem desde o início dos anos 1970 e revelou-se muito bem-sucedido nestas últimas quatro décadas, após superar as dificuldades dos anos 1980. O programa, enfatizado pelo Pró-álcool, criou uma alternativa real de biocombustível aos combustíveis fósseis, derivados do petróleo. A crescente demanda mundial por açúcar, por sua vez, adicionou a necessidade de exploração cada vez mais intensa das áreas de cultivo e sua ampliação a regiões do país, como o cerrado, no Centro-Oeste, e a Amazônia, por exemplo, cujos solos são pouco favoráveis a esse tipo de cultura.

Embora a produtividade agrícola da cana-de-açúcar tenha apresentado aumentos expressivos no País nos últimos anos, a média de 80 t ha-1 ainda é baixa e poderá ser melhorada. Um dos fatores que especialistas e pesquisadores atribuem a essa produtividade ainda relativamente pequena relaciona-se a essa expansão da cultura em áreas com solos pouco favoráveis, principalmente no Estado de São Paulo. Assim como os sítios pouco favoráveis, a exploração cada vez mais intensiva do solo, mesmo em regiões mais propícias ao cultivo da cana-de-açúcar, tem gerado problemas nas culturas, ligados principalmente à retirada de micronutrientes da terra, sem a necessária reposição desses elementos fundamentais à produtividade e, no caso de uso alimentar (açúcar), de componentes essenciais à saúde humana.

Esses solos requerem o aperfeiçoamento do manejo para a obtenção de resultados economicamente mais favoráveis. Para isso, além da correção da acidez do solo com a calagem, adubação com NPK e rotação de culturas com leguminosas como a soja, amendoim ou a utilização de adubos verdes, é fundamental a aplicação de micronutrientes, entre eles boro, cobre, manganês, molibdênio e zinco.

De acordo com os pesquisadores do renomado Instituto Agronômico de Campinas (IAC - www.iac.sp.gov.br), Estêvão V. Mellis e José A. Quaggio, "Com a intensificação da produção, mesmo em áreas tradicionais, com solos mais férteis, as reservas de micronutrientes do solo estão sendo exauridas principalmente devido à generalização da prática do uso de fertilizantes químicos concentrados, sem reposição dos micronutrientes que são removidos com as colheitas. Além disso, a cana-de-açúcar apresenta freqüentemente o fenômeno da "fome oculta" em relação aos micronutrientes, ou seja, a deficiência existe, limitando economicamente a produtividade, mas a planta não mostra sintomas visíveis".

Esses pesquisadores, do Centro de Solos e Recursos Ambientais do IAC, são também os coordenadores do projeto "Micronutrientes em Cana-de-Açúcar". O projeto conta com apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Além dos pesquisadores do IAC, participam também do projeto treze unidades produtoras de açúcar e álcool do Estado de São Paulo.

O objetivo da pesquisa é o de avaliar a resposta da cultura da cana-de-açúcar à adubação com micronutrientes (boro, cobre, manganês, molibdênio e zinco) em solos do Estado de São Paulo, especialmente naqueles de baixa fertilidade. Para isso, foi adotada, em relação às pesquisas anteriores, nova estratégia de experimentação baseada em doses mais elevadas (suficientes para três a quatro anos). Assim, entre 2006 e 2008 foi instalada uma rede de quinze ensaios em diferentes ambientes de produção de cana, das mais importantes regiões canavieiras do Estado de São Paulo. Os tratamentos foram constituídos por doses de micronutrientes que, com exceção do boro, foram aplicados no sulco de plantio da cana.

De acordo com os pesquisadores, independentemente do tipo de solo e variedade empregada, a cana-planta apresentou ganhos expressivos de produtividade com a aplicação de micronutrientes, principalmente para zinco, molibdênio e manganês. O zinco foi o micronutriente que proporcionou os maiores ganhos de produtividade . média de 17 % de aumento, em relação às parcelas que não receberam aplicação de micronutrientes. Para o molibdênio e o manganês, os ganhos médios de produtividade foram de 14 % e 12 % respectivamente.

Assim, a utilização de micronutrientes, especialmente o zinco, na cultura de cana-de-açúcar pode trazer expressivos ganhos econômicos e até mesmo ambientais ao país. Com essa aplicação, como comprova a pesquisa do IAC, cresce a produtividade do solo, tornando o balanço energético da cultura ainda melhor e evitando a necessidade de sua expansão para áreas do cerrado e da Amazônia. Com isso, pode-se mitigar enormemente a principal crítica dos países desenvolvidos e ambientalistas à produção de etanol de cana-de-açúcar: a de que essa cultura desmata e/ou substitui outras culturas importantes para a produção de alimentos.

 

Carolina de Barros Aires é engenheira química da Votorantim Metais, formada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pós-graduada em Qualidade, Segurança e Meio Ambiente pela Universidade Otto von Guericke, em Magdeburg, Alemanha