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Métrica financeira compromete apoio à startup nos EUA, diz especialista

Publicado em 24 junho 2016

As grandes empresas de tecnologia norte-americanas têm se tornado cada vez mais dependentes de startups para desenvolver novas soluções tecnológicas que possam resultar em produtos, processos e serviços inovadores. O apoio de fundos de capital de risco (venture capital) a startups em fase inicial nos Estados Unidos, contudo, vem diminuindo na maioria das áreas tecnológicas. Esse desequilíbrio entre a dependência cada vez maior das grandes empresas de tecnologia norte-americanas por startups para inovar e a redução do apoio dos fundos de capital de risco a uma fase crucial para essas firmas nascentes de base tecnológica – em que precisam demonstrar a viabilidade das tecnologias que desenvolvem para obter investimento – tem gerado uma lacuna no sistema de inovação norte-americano.

A avaliação foi feita por William Bonvillian, diretor do escritório em Washington do Massachusetts Institute of Technology (MIT), dos Estados Unidos, durante palestra no “Workshop Creating Local Prosperity through World-class Science Based Business Development”, realizado no dia 16 de junho na FAPESP, promovido pela Fundação e pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

“As grandes empresas norte-americanas têm se dedicado a fazer desenvolvimento incremental [voltado à melhoria de um produto, processo ou serviço existente]. Para desenvolver tecnologias que possam resultar em inovações radicais [como um produto, processo ou serviço totalmente novo] a maioria delas tem comprado cada vez mais startups”, disse Bonvillian.

De acordo com dados da Information Technology & Innovation Foundation (ITIF), dos Estados Unidos, apresentados por Bonvillian, o investimento em pesquisa básica e aplicada de longo prazo e alto risco por empresas norte-americanas com negócios baseados em pesquisa e desenvolvimento (P&D) caiu de cerca de 30% no período de 1985 a 2000 para 26% no período de 2010 a 2013.

Uma das razões apontadas pelo pesquisador para a redução dos investimentos das grandes empresas norte-americanas em pesquisa que pode resultar em inovações é o modelo de avaliação de desempenho adotado pelo sistema financeiro. Essa métrica não leva em conta a capacidade de inovação – o potencial de abertura de novos mercados, por exemplo –, mas a rentabilidade a curto prazo.

Essa métrica financeira tem induzido as empresas norte-americanas de capital aberto a se concentrar em suas principais competências – como a de produzir com eficiência e menor custo – e evitar ao máximo que riscos possam comprometer a rentabilidade para os acionistas a curto prazo.

“Isso tem levado a uma redução nos investimentos em pesquisa básica e aplicada nas grandes empresas”, avaliou Bonvillian, que, antes de assumir a direção do escritório do MIT em Washington, foi consultor do Senado dos Estados Unidos durante 17 anos para políticas de ciência, tecnologia e inovação.

Adicionalmente, segundo o especialista, tem diminuído o apoio financeiro à inicialização de startups nos Estados Unidos por fundos de capital de risco na maioria das áreas tecnológicas – exceto para as de desenvolvimento de software e tecnologia da informação (TI).

Os investimentos de fundos de capital de risco em startups na área de energia, por exemplo, que saltaram de US$ 1 bilhão para US$ 5 bilhões entre 2004 e 2008, caíram para US$ 1 bilhão em 2008, exemplificou Bonvillian.

“Os fundos de capital de risco, em geral, preferem investir em startups que desenvolvem softwares ou atuam no setor de TI, por exemplo, porque apresentam menor risco e alto retorno do investimento”, disse.

“Já as startups de áreas não relacionadas à software e TI, como as do setor de energia, apresentam maior risco e menor retorno de investimentos. Por isso, acabam sendo preteridas pelos fundos de capital de risco”, avaliou.

Um estudo publicado no início de junho, realizado pela consultoria Clean Energy Trust em parceria com o Conselho de Relações Exteriores e as empresas TBJ Investiments e a General Electric (GE), dos Estados Unidos, apontou que, do total de US$ 25 bilhões que fundos de capital de risco investiram em startups norte-americanas voltadas a desenvolver tecnologias para produção de energia limpa entre 2006 e 2011, foi obtido um retorno equivalente a menos da metade do capital investido.

Esse baixo retorno de investimento fez com que o financiamento para startups nessa área nos Estados Unidos “secasse”.

Consequentemente, vem diminuindo o número de startups voltadas a desenvolver tecnologias para o setor de energia e outros chamados de maduros, como o de mineração e o automotivo, que representam cerca de dois terços do Produto Interno Bruto (PIB) norte-americano e são mais resistentes à inovação, apontou Bonvillian.

“Os investimentos em pesquisa e desenvolvimento nos setores maduros são baixos. O setor de energia, por exemplo, investe pouco mais de 1% de sua receita anual para essa finalidade”, afirmou.

“Vamos precisar de novas startups para desenvolver tecnologias para o setor de energia”, avaliou.

Pomares de inovação

A fim de preencher essa lacuna do baixo estímulo às startups não relacionadas à TI, tem surgido programas nos EUA como o SunShot, exemplificou Bonvillian.

Lançado em 2007 pelo Departamento de Energia (DOE, na sigla em inglês) norte-americano, o objetivo do programa é tornar a energia solar produzida no país mais competitiva até 2020.

Para atingir essa meta, o programa vem apoiando 61 startups desde que foi criado.

“O problema do programa SunShot é que ele é voltado apenas à energia solar e o objetivo principal é diminuir o custo de geração. Isso não está ajudando efetivamente a estimular a criação de startups”, avaliou Bonvillian.

Um estudo publicado em 2014 por um comitê, chamado American Manufacturing Partnership (AMP), criado em 2011 pelo presidente Barack Obama para definir políticas voltadas ao desenvolvimento do setor industrial dos Estados Unidos e manter vantagens competitivas em tecnologias emergentes, reconheceu que há uma lacuna no sistema de inovação no país no financiamento para escalonar startups e tentou encontrar novos mecanismos de apoio financeiro, contou o pesquisador.

O estudo, entretanto, apontou que agora não é um bom momento para o país criar novos programas caros e não conseguiu identificar uma alternativa viável.

“Serão necessários novos modelos de política de inovação para corrigir esse problema e usar ativos existentes em laboratórios, universidades e instituições de pesquisa nos Estados Unidos para apoiar startups”, estimou Bonvillian.

O atual reitor do MIT, Rafael Reif, por exemplo, propôs a criação em Boston, onde a universidade está sediada, de “pomares de inovação” – locais onde empreendedores podem ter um espaço físico e receber orientação e financiamento de instituições públicas e privadas para transformar ideias de tecnologias em produtos viáveis no prazo de cinco anos e se tornarem atrativos para fundos de capital de risco.

Algumas startups apoiadas pelo programa já estão no mercado e foram cortejadas por fundos de investimentos, disse Bonvillian.

“Programas como esse podem ajudar a acelerar a inovação no país”, avaliou. 

Agência FAPESP