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Método desenvolvido na Unesp mensura preferências de animais

Publicado em 14 julho 2016

Por Diego Freire, da Agência FAPESP

Cada animal, a despeito dos padrões de comportamento de sua espécie, tem uma personalidade própria e, consequentemente, preferências individuais. Com base nesse pressuposto, pesquisadores do Instituto de Biociências (IBB) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Botucatu (SP), desenvolveram um método que ajuda a determinar as preferências de animais e dos grupos aos quais pertencem, podendo ser aplicado na escolha de alimentos e ambientes e em outras situações em que o “gosto” individual do bicho pode ser contemplado em benefício do seu bem-estar.

Um artigo com o resultado da pesquisa Diferenciação entre escolha e preferência em peixes: uma abordagem para o bem-estar, realizada por Caroline Marques Maia com apoio da FAPESP, foi publicado na revista Scientific Reports, do grupo Nature.

“Dar aos animais não só aquilo de que eles precisam, mas também o que eles querem, é importante para garantir, além da sobrevivência, seu bem-estar. A questão é: como saber o que eles querem? Um animal pode escolher, em dado momento, um alimento em detrimento de outro, mas essa escolha circunstancial não representa, necessariamente, suas preferências, já que pode ter sido influenciada por uma série de fatores alheios ao gosto individual”, pondera Gilson Luiz Volpato, orientador do trabalho.

Atualmente, de acordo com o pesquisador, para promover certo conforto a animais em cativeiro têm sido utilizadas estratégias de enriquecimento ambiental – a criação de um ambiente dinâmico, complexo e interativo que proporcione desafios físicos e mentais similares aos da natureza. A aplicação dessas estratégias pode melhorar a qualidade de vida por proporcionar, entre outras coisas, a oportunidade de escolhas.

“O enriquecimento ambiental é uma fonte importante de estímulos para os animais se sentirem bem. Porém, os elementos escolhidos para dinamizar o ambiente costumam vir da cabeça do criador, sem considerar como os próprios animais gostariam que fossem os espaços que eles ocupam. No máximo, são feitos testes de múltipla escolha, em que são oferecidos vários itens aos animais e avaliadas quantas vezes cada animal optou por um deles”, conta.

Os pesquisadores desenvolveram, então, um índice que mede as preferências dos animais considerando o histórico de suas escolhas ao longo de um período de tempo, atribuindo valores diferentes às mais consistentes, de acordo com as circunstâncias de cada uma. Dessa forma, escolhas mais recentes são mais valorizadas do que as primeiras, por exemplo, devido a possíveis alterações nas preferências ao longo dos testes.

O método foi testado com 24 espécimes de tilápia-do-nilo (Oreochromis niloticus), espécie que se adapta facilmente a qualquer ambiente e que já havia demostrado fazer escolhas com base nas cores visualizadas. Cada uma delas foi observada ao longo de 10 dias em um aquário dividido em quatro espaços com cores diferentes. A cada dia foram feitas cerca de 120 observações de qual cor era escolhida, compondo-se o histórico das escolhas de preferência.

Após as avaliações, é feito um índice que identifica itens preferidos contrastados com aqueles desprezados, destacando-se a intensidade das preferências dos animais por cada item.

“Assumimos que as escolhas recentes deveriam valer mais do que aquelas em dias mais remotos, numa escala que reduz gradativamente o peso do valor do teste de escolha conforme ele fica mais antigo. Com isso, o método transforma dados confusos sobre as escolhas em linhas gráficas e valores evidentes que indicam quais são os itens preferidos e os não preferidos, além de o quanto os animais preferem ou não cada item”, explica Volpato.

Questão de gosto

Para os pesquisadores, o método pode aprimorar as estratégias de enriquecimento ambiental especialmente em ambientes de cativeiro.

“Zoológicos costumam utilizar enriquecimento ambiental, mas partindo do que seria interessante para os animais do ponto de vista do ser humano – claro, não sem considerar o histórico de vida do bicho e a ontogenia e filogenia da espécie. Com o método da escolha de preferência, é possível estabelecer um cronograma de cuidados que inclui, algumas vezes por dia, observações do que o animal tem preferido diante das opções que ele possui, avaliando-se a intensidade com que a resposta é dada”, diz Maia.

Os pesquisadores ponderam que há preferências relacionadas à espécie observada, mas que o trabalho com as tilápias-do-nilo destacou escolhas feitas com base no “gosto” de cada espécime, variando entre os indivíduos.

“A escolha da toca para certas espécies de peixe é algo muito forte e relacionado a toda a espécie. Já a cor predominante no ambiente foi demonstrada como uma opção individual, que pode estar relacionada à história do indivíduo ou mesmo a algumas características fisiológicas. No caso das cores, espécimes distintos não percebem a luz do mesmo jeito, porque a fisiologia do olho difere e influencia essa percepção. Além disso, há indivíduos que gostam mais de se arriscar enquanto outros são mais cautelosos; há aqueles mais proativos e outros menos... Esses são aspectos relacionados à personalidade e que levam a divergências na reação a determinados estímulos”, explica Volpato.

Para checar se as preferências indicadas pelo estudo determinam inequivocamente o que os animais querem, os pesquisadores realizaram novos testes – dessa vez, demonstrando que o índice de preferência corresponde também a quanto os animais se esforçam, fisicamente e psicologicamente, para obter suas escolhas preferenciais.

O artigo A history-based method to estimate animal preference, de Maia e Volpato, está disponível para acesso em www.nature.com/articles/srep28328.