Notícia

Correio Popular

Metade brasileiro

Publicado em 25 junho 2003

A ascendência brasileira do escritor alemão Thomas Mann (1875-1955) virou objeto de tese. Considerada uma visão inédita sobre o escritor, Thomas Mann, o Artista Mestiço, de Richard Miskolci, professor da Universidade do Estado de São Paulo (Unesp) no campus de Araraquara, será lançado hoje, em São Paulo. O livro, resultado da tese de doutorado em sociologia defendida por Miskolci na Universidade de São Paulo (USP), parte da idéia de que a origem brasileira de Mann (a mãe dele, Julia Mann, nasceu em Paraty, RJ) determinou a criação de seus personagens artistas, que compartilham com o autor a origem mestiça. É preciso, antes de tudo, entender como eram vistos os artistas e os mestiços na Alemanha do final do século 19. De acordo com Miskolci, na época de Mann ser artista era considerado desvio de comportamento. Some-se a isso, a origem estrangeira de Mann, tida como um estigma. Não por acaso, o escritor era classificado como "mischling", ou mestiço. O termo, narra o autor do livro, é ofensivo e racista e exerceu grande influência na Alemanha no final do século 19 até o período nazista. É preciso completar que o nazismo prezou grandemente o conceito de "pureza racial". Mas há um outro dado importante na pesquisa de Miskolci. O livro destaca que a obra de Mann não é necessariamente produto da mera transposição de seu caso pessoal para a literatura. Miskolci defende a idéia de que Mann "encontrou no discurso médico da época o modelo para sua autocompreensão como escritor". Assim, a literatura que lhe deu base falava das implicações negativas de ser mestiço e de ser artista. "Portanto, a biografia de Mann não explica sua obra, mas se articula com ela através da leitura que ele fazia dos livros de psiquiatria da virada do século 19 para o 20". Segundo Miskolci, a influência da literatura de Mann está nos livros que ele leu. Nos ensaios, garante, os psiquiatras são citados literalmente. A partir desses conceitos, Miskolci analisa na primeira parte do livro - ele está dividido em três - as obras sobre as quais Mann trabalha com personagens artistas e mestiços. É o caso dos romances Os Buddenbrok (1901), Tonio Kröger (1903), A Morte em Veneza (1913) e Doutor Fausto (1947). Em Tonio Kröger surgem o estigma do estrangeiro no nome (Tonio, um tipo latino), na paixão que ele desenvolve por um garoto loiro de olhos azuis (apesar de o próprio Mann ter olhos azuis) e no fato de ser homossexual. Tonio era um artista ligado à literatura, mas descrito desta forma por Mann: "A literatura não é profissão alguma, e sim uma maldição". Em A Morte em Veneza, o protagonista é músico e, igualmente, homossexual. No final trágico, como prevê o título, o músico se deixa consumir por uma estranha epidemia na cidade italiana. Mas, o conceito surge de forma mais significativa em Doutor Fausto, no qual Mann associa a arte do personagem principal Adrian Leverkühn - apesar de ser "alemão puro" - a uma doença sexualmente adquirida, a sífilis, no contato com uma estrangeira. Esta, tem como símbolo no romance a hetaera esmeralda, uma borboleta descoberta na Amazônia brasileira - ao mesmo tempo símbolo da beleza e da morte que vem através de seu veneno. A capa do livro, a propósito, tem o verde-bandeira como fundo e uma borboleta - o título aparece em amarelo-ouro. "É o símbolo da ambigüidade da arte", define Miskolci. Mas, obviamente, a vida pessoal também influenciou a literatura, garante Miskolci. Mann, mesmo sendo homossexual, tenta aceitação social ao se tornar artista burguês. Casa-se numa união de conveniência - "poucos casamentos daquela época eram consentidos" -, tem filhos e se realiza como escritor. Vende livros, faz sucesso e ganha o Nobel de Literatura. "Mas tudo nele e em sua literatura é ambíguo". Afinal, ele escrevia sobre personagens homossexuais numa época em que a sexualidade era vista de forma negativa. "Ele tentou ser artista burguês, mas a vida dele mostra um processo de desaburguesamento". Apesar de nunca esconder a homossexualidade (a própria mulher sabia), os livros que narravam histórias de desacertos em relação aos homens pelos quais se apaixonou, atendia a um público homossexual, de um lado, e era visto como alguém que tratava abertamente e seriamente de um tema tão delicado, de outro. "É preciso lembrar que gays eram considerados anormais no contexto da época. E nem precisa ir tão longe, pois até pouco tempo atrás o homossexualismo era tido como doença para a Organização Mundial da Saúde". De acordo com Miskolci, a condição de mestiço incomodava Mann. Apesar de gostar da mãe e ser extremamente ligado à ela, Mann nasceu em Lübeck, uma cidade próxima da Dinamarca onde todo mundo é extremamente loiro. Ele, mesmo com olhos azuis, diferenciava-se de toda a população. "Em algum momento ele chegou a se questionar se era mesmo alemão". No final da vida, ele se encarregou de romper com a Alemanha. Foi embora para os Estados Unidos e nunca mais retornou ao país natal. Mas ser artista, segundo as teorias da época, era hereditário, como era sua homossexualidade. "O gene da mãe, acreditava, o teria levado à arte e à homossexualidade". Mas, completa Miskolci, se Mann fosse moralista, seus livros estariam hoje relegados ao esquecimento. A crítica alemã e as biografias sempre trataram Mann como mestiço, filho de brasileira - "o Brasil naquela época não significa nada para o mundo e, provavelmente ainda não signifique" - em termos anedóticos. Ela era tida como mulher bonita e sensual, até hoje, marca da mulher brasileira no exterior". A propósito, Miskolci escreveu um artigo sobre Julia Mann para a revista Cadernos de Pagu, editada na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) que está completando dez anos hoje. O artigo chama-se Uma Brasileira - A Outra História de Julia Mann. Thomas Mann, o Artista Mestiço - De Richard Miskolci; Annablume Editora/Fapesp, 163 págs. Hoje, a partir das 19h, na rua Padre Carvalho, 275, Pinheiros, São Paulo, fone (11) 3812-6764.