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UNICAMP - Universidade Estadual de Campinas

Meta brasileira para redução de gases de efeito estufa é positiva, dizem especialistas

Publicado em 17 novembro 2009

O compromisso voluntário assumido pelo Brasil de reduzir entre 36% e 39% as emissões de gases causadores do efeito estufa até 2020 é positivo e deve servir de exemplo tanto para as nações emergentes quanto para os Estados Unidos e China, estes dois reticentes em relação ao estabelecimento desse tipo de meta. A análise, em tom convergente, é dos professores da Unicamp Carlos Alfredo Joly, coordenador do Programa Biota/Fapesp, e Hilton Silveira Pinto, diretor associado do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri). De acordo com eles, os índices propostos são exequíveis, desde que sejam adotadas medidas voltadas ao controle do desmatamento e adequação do manejo agrícola, para ficar em dois exemplos.

Para Joly, a proposta brasileira deve ser entendida sob dois aspectos. O primeiro diz respeito ao fato de o país ter finalmente estabelecido uma meta para a redução das emissões, o que é classificado por ele como "altamente positivo". Conforme o cientista, "era imprescindível nos comprometermos, para que essa atitude servisse de exemplo a outros países em desenvolvimento". Entretanto, o docente da Unicamp afirma que é preciso fazer uma leitura correta daquilo que foi prometido pelo Brasil. "Ao contrário de outros países, que assumiram o compromisso de reduzir as emissões aos padrões de alguns anos atrás, o Brasil está definindo uma meta com base no futuro. Ou seja, na prática o que está sendo proposto é a desaceleração das emissões até 2020", explica.

Para se ter ideia do que isso significa, Joly lembra que a meta de redução de emissão de gases de efeito estufa assumida recentemente pelo governo de São Paulo foi de 20% em relação a 2005. "Isso exigirá um esforço proporcionalmente maior do Estado do que da União em relação aos seus objetivos. No que toca ao compromisso geral do país, ele pode ser cumprido apenas com o controle do desmatamento", acrescenta o coordenador do Programa Biota-Fapesp. Na avaliação do professor Hilton, que tem desenvolvido estudos relacionados ao tema na área da agricultura, a posição do país é acertada, e deve induzir outras nações a também restringir as emissões. "Como vem ocorrendo nos últimos anos, vamos mais uma vez dar o exemplo a China e Estados Unidos", afirma, referindo-se aos dois maiores poluidores do planeta, que juntos respondem por metade da poluição global.

No caso específico da agricultura, conforme o docente, estudos conduzidos em conjunto pela Embrapa Informática Agropecuária e Cepagri indicam a viabilidade da redução de algo próximo a 35% das emissões de gases de efeito estufa geradas pelo setor. Isso equivaleria a deixar de lançar na atmosfera 166 milhões de toneladas de dióxido de carbono (CO2). "Atualmente, a agricultura responde por 25% do total de emissões feitas pelo Brasil. Sendo assim, a atividade deve ser considerada estratégica quando o assunto é controle da poluição", analisa. Na opinião do especialista, no âmbito da agricultura a meta pode ser atingida apenas adotando medidas adequadas de manejo. Uma delas é a recuperação das pastagens.

Outra, prossegue o diretor associado do Cepagri, é a substituição do plantio convencional pelo direto, que é aquele que dispensa ao máximo o uso de máquinas e equipamentos para o preparo antecipado do solo. "A única dificuldade que eu vejo para cumprirmos essa meta é a obtenção de recursos para financiar as ações necessárias. Entretanto, penso que isso também pode ser contornado. Pelos nossos cálculos, seriam necessários investimentos da ordem de R$ 7 bilhões ao ano. Como o financiamento agrícola no Brasil gira em torno de R$ 28 bilhões anuais, não creio que esse valor seja tão difícil assim de ser levantado", analisa.

O compromisso de redução de 36% a 39% dos gases causadores do efeito estufa será levado pelo Brasil à Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, marcada para dezembro próximo, em Copenhague, na Dinamarca. Segundo os ministros Carlos Minc (Meio Ambiente) e Dilma Rousseff (Casa Civil), os percentuais representarão de 975 a 1.062 milhões de toneladas a menos de CO2 na atmosfera. A principal ação do governo nessa linha será o combate ao desmatamento na Amazônia - diminuição de 80% até 2020. Tal medida teria um peso de 21% no valor total. "As ações anunciadas são voluntárias e passíveis de verificação e mensuração", afirmou a ministra Dilma, por ocasião do anúncio.