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Mercado Ético

Mercado e sociedade civil

Publicado em 09 março 2010

Por Fábio de Castro

Agência FAPESP

No campo da sociologia econômica - vertente sociológica que estuda como a produção e o consumo das populações humanas dependem de processos sociais em sua estrutura e sua dinâmica -, as atenções estão voltadas para a pesquisa brasileira.

O principal boletim científico da área, o Economic Sociology - The European Electronic Newsletter, acaba de publicar, em sua edição de março, um dossiê sobre a sociologia econômica produzida no Brasil.

Abordando temas como sistemas agroalimentares, sociologia das finanças, responsabilidade socioambiental corporativa, papel das cidades e inovação e desenvolvimento, o dossiê inclui artigos de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).

De acordo com Ricardo Abramovay, professor titular da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP, autor de um dos artigos, o Brasil começa a se tornar uma referência internacional na área de sociologia econômica.

"Uma das explicações para isso é que houve uma tomada de consciência, por parte da comunidade de sociólogos, a respeito da importância da internacionalização do conhecimento em sociologia", disse Abramovay à Agência FAPESP.

Segundo ele, a pesquisa em sociologia não tem uma tradição de internacionalização, ao contrário de ciências como a economia, por exemplo, em que são mais comuns as publicações em inglês em revistas de alta qualidade. "As diferentes vertentes da sociologia tendem a fazer abordagens mais regionalizadas", disse.

Além de um grande avanço na intensificação de sua internacionalização, de acordo com Abramovay, há outra razão para que a produção na área de sociologia econômica esteja no centro das atenções: a própria realidade do país. "O Brasil é extremamente interessante pelo que vem acontecendo no país em relação a aspectos socioambientais", disse.

O pesquisador explica que a sociologia econômica, de maneira geral, vem ganhando cada vez mais relevância, por trazer novas perspectivas de avaliação das estruturas sociais da vida econômica, em especial no que diz respeito ao funcionamento do mercado.

"Para a sociologia econômica, não se pode explicar o funcionamento do mercado apenas considerando o setor privado e o Estado. Há um ator fundamental que precisa ser levado em conta: a sociedade civil", apontou.

Na visão canônica da economia, o mercado resulta da interação entre unidades e indivíduos isolados entre si, que interagem quase que exclusivamente por mecanismos regulados pelo preço, segundo Abramovay.

"Já na visão da sociologia econômica, o mercado consiste em estruturas sociais e as interações entre os indivíduos obedecem às posições que eles ocupam nessas estruturas", explicou.

Segundo Abramovay, trata-se de uma simplificação exagerada da visão canônica acreditar que uma empresa, ao comprar seus insumos e vender seus produtos, está preocupada apenas em conseguir os melhores preços.

"A empresa tem compromissos com seus fornecedores e clientes e esses compromisos têm por base uma preocupação muito mais fundamental do que o preço e a lucratividade: a sobrevivência. Esse fato é exacerbado em um mundo instável, no qual o aparecimento e desaparecimento de empresas se dá de forma muito rápida", disse.

Uma das preocupações do dossiê, segundo Abramovay, é a participação decisiva, na constituição do mercado, de entidades como Organizações Não-Governamentais (ONGs) e movimentos sociais.

"Esses seres estranhos, que não fazem parte do mercado na visão convencional, mostram-se cada vez mais centrais. Uma das consequências disso é que as empresas começam a obedecer parâmetros socioambientais que não são provenientes do mecanismo de preço, mas de pressões sociais", afirmou.

Comportamento empresarial e clima

Abramovay coordena o Projeto Temático "Impactos socioeconômicos das mudanças climáticas no Brasil: dados quantitativos para orientação de políticas públicas", apoiado pela FAPESP.

O projeto, vinculado ao Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG), forneceu a base para o artigo Movimentos sociais e Ongs na construção dos novos mecanismos do mercado, publicado no dossiê, do qual Abramovay é coautor.

Os outros autores são Maurício Voivodic e Fátima Cristina Cardoso -ambos pesquisadores do Núcleo de Economia Socioambiental (Nesa) da USP - e Michael Conroy, da Universidade do Texas em Austin (Estados Unidos), que participou do projeto como professor visitante, com auxílio da FAPESP.

"O artigo faz parte de uma das vertentes do Temático, que consiste em fazer um levantamento das iniciativas de responsabilidade socioambiental corporativa existentes. Nesse contexto, não estamos estudando o que as empresas estão fazendo, mas sim a maneira como as diversas organizações sociais conseguem interferir nas decisões do empresariado", explicou Abramovay.

O estudo tem o objetivo de realizar um levantamento dessas iniciativas em toda a América Latina. "É importante compreender os comportamentos corporativos para saber como as empresas irão atuar em relação a temas como pecuária, biocombustíveis, soja, extração de madeira e produção de papel e celulose - todos tópicos cruciais em relação às mudanças climáticas globais", destacou.

No dossiê, John Wilkinson, da UFRRJ, contribuiu com o artigo Estudos econômicos e agroalimentares no Brasil. Roberto Grün, da UFSCar, publicou Por uma sociologia das finanças brasileira. Glauco Arbix, do Departamento de Sociologia da USP, escreveu Agenda de inovação e desenvolvimento e Cidades meridionais: locomotivas ou vagões do desenvolvimento nacional é o título do artigo de Álvaro Comin e Maria Carolina Vasconcelos Oliveira - ambos pesquisadores do Cebrap.

O boletim ainda apresenta textos de Antonio Mutti, da Universidade de Pavia (Italia) , Kenneth Zimmerman, da Comissão de Utilidade Pública de Oregon (Estados Unidos), e Neil Fligstein, da Universidade da Califórnia em Berkeley (Estados Unidos) sobre a crise financeira mundial.

(Agência FAPESP)