Notícia

Blog Noblat

Mentiras, ciência e videoteipes

Publicado em 25 agosto 2005

Por Mariluce Moura
Mentir bem, caros leitores, é uma competência aprendida, não um talento inato. É claro que já desconfiávamos disso há muito tempo, mas agora temos novas evidências científicas, aliás produzidas aqui mesmo nesta Terra Brasilis, que comprovam nossa suspeita. E, para gáudio ou decepção, quem sabe?, das mulheres, trata-se de competência marcadamente masculina no Brasil, posto que aqui as mulheres mentem muito pior do que os homens, diferença que não se observa nos Estados Unidos, por exemplo. Isso significa  que, entre nós, nos gestos, nas expressões faciais, e naquilo que os especialistas chamam de paralinguagem  — quer dizer, tudo que não é o conteúdo mesmo da fala, portanto, o tom da voz, as pausas, etc. —, as mulheres quando mentem dão muito mais bandeira de que o estão fazendo do que os homens. Mas a melhor novidade vinda do front científico nacional sobre mentiras e mentirosos é, sem dúvida, a conclusão, utilíssima neste momento, de que um treinamento sistemático pode ampliar muito a capacidade de um observador para perceber, pelos chamados sinais não-verbais, que seu respeitável próximo está dissimulando ou, mais simplesmente, mentindo.
Uma pesquisadora carioca de 34 anos, chamada Mônica Portella, chegou a essas conclusões e várias outras correlatas a partir da pesquisa para sua tese de doutorado em psicologia social, defendida no ano passado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Seu trabalho ainda inédito, Sinais não verbais da dissimulação: inatos ou adquiridos? é embasado teórica e metodologicamente nas idéias e experiências do norte-americano Paul Ekman, o nome internacionalmente mais respeitado nesse campo. Mônica, atualmente, faz um pós-doutoramento com David Matsumoto, o parceiro de Ekman que, logo depois da aposentadoria do velho mestre (que entretanto permanece ativo), o substituiu no laboratório sobre emoção que ele criara na San Francisco State University, na Califórnia. E a tarefa da jovem pesquisadora não é nada modesta: ela trabalhará na pesquisa sobre diferenças entre brasileiros e norte-americanos nos sinais não-verbais da dissimulação e na capacitação para detectar tais sinais. Enfim, a moça já fez muito e promete mais.
No entanto, antes de dar alguns detalhes sumamente interessantes sobre as observações de Mônica a respeito de como se comporta um mentiroso que não seja um gênio completo da dissimulação, vou me permitir um pequeno desvio para contar como e por que cheguei até ela.
Tudo começou há uns dois meses. Eu observava na telinha um alto dirigente de um partido nascido, em tese, no campo da esquerda,  enquanto ele ia respondendo aos jornalistas que se revezavam nas perguntas sobre as falcatruas e negociatas em que esse partido, visceralmente comprometido com a ética, segundo seu próprio discurso histórico, se enfiara, sem diferença essencial alguma com a mais fisiológica e corrompida das agremiações partidárias que já aportara nesta república brasileira. E de tudo que eu ouvia, extraía uma única certeza: "ele está mentindo com absoluta desfaçatez". Justamente isso era o que me assombrava: como, em vez de se mostrar constrangido, envergonhado e um tanto destruído pelas indecorosas negociatas expostas aos olhos da nação, pelas falcatruas que de repente pareciam estar em toda parte, no coração do governo, na máquina administrativa inteira, no sistema político e em suas articulações com o setor privado, ele podia mentir com tamanha tranqüilidade? E eu que o imaginara, antes da entrevista (santa ingenuidade!), arrasado, infeliz, procurando uma saída para escapar dos jornalistas e de olho cruel da televisão! Quase sentira pena antecipadamente. E não era nada disso.
Veio daí a vontade de saber se a ciência teria algo de novo a dizer sobre mentiras e mentirosos. Seria talvez uma maneira particular de exorcizar a torturante angústia alimentada por aquelas imagens de miséria ética despejadas sobre nós dia pós dia, noite após noite, pelas tristes personagens da cena política-midiática que nos cercam.
Devo confessar que antes de chegar no discurso científico mais apaziguador, fiz uma pequena parada na filosofia para me inspirar. Encontrei casualmente o sisudo filósofo Imanuel Kant. Como bem se pode imaginar, ele não admite quaisquer  circunstâncias atenuantes para a mentira. E se o inferno por acaso tivesse lugar em seu sistema de pensamento — não tem —, certamente seria para arder em seu fogo eterno que ele despacharia todos os mentirosos. Para esse alemão conservador, celibatário, que, sem ter saído de sua minúscula aldeia, produziu no século 18 uma assombrosa revolução na filosofia, era "um sagrado mandamento da razão, que ordena incondicionalmente e não admite limitação , por qualquer espécie de conveniência (...) ser verídico (honesto) em todas as declarações". Essa é apenas uma das afirmações categóricas contra a mentira que ele faz no pequeno texto Sobre um Suposto Direito de Mentir por Amor à Humanidade (Textos Seletos. Petrópolis, Vozes, 1974), onde assegura que a mentira, mesmo aquela supostamente motivada por bondade,  prejudica sempre uma outra pessoa, porque, ainda que não atinja alguém determinado, prejudicará a humanidade em geral, "ao inutilizar a fonte do direito". 
Algum ser humano real conseguiria pautar sua conduta por esse caráter absoluto da veracidade? Os investigadores posteriores da psique humana, embasados numa atitude mais pragmática e numa racionalidade mais científica, digamos, trataram de passar bem ao largo do idealista preceito kantiano. Até porque, pelo menos desde o terremoto produzido nos domínios da razão e da consciência pelo suíço Sigmund Freud, um século depois da revolução filosófica kantiana, eles já sabiam que é simplesmente inerente à prática humana, mesmo quando existe a mais pura intenção de não mentir, cometer equívocos, enganos, produzir falsas memórias, lapsos, etc. E passado algum tempo, pesquisadores já estavam procurando entender as circunstâncias em que ocorrem as dissimulações e as mentiras, já tratavam de medir sua freqüência na vida cotidiana, procuravam pelos sinais e sintomas que identificariam a mentira no momento mesmo em que era proferida e por aí vai.
Isso tudo constituía uma história conhecida. E a minha pergunta ante a crise nacional do momento era: alguém no Brasil efetivamente pesquisa nesses veios científicos  atuais da mentira? O professor Cesar Ades, do Instituto de Psicologia da USP, que não tem a menor dúvida de que a mentira está na base da sociedade humana, se referiu à tese de doutorado de Márcia Meliado, defendida há coisa de 15 dias, sobre "Falsas memórias em jovens e idosos". É aquela situação em que a pessoa acha que se lembra de algo e esse algo na verdade não está realmente em seu passado, é uma criação. Mas não é uma mentira deliberada, ainda que, no caso de testemunhas em processos jurídicos, isso crie problemas seríssimos, como ele bem observou.
César Ades remeteu o problema a sua colega Ema Otta, que tem lindas pesquisas sobre o sorriso. E foi ela quem deu notícia da tese de Mônica Portella, na UFRJ. Resumindo muito, o que Mônica fez, na parte empírica de sua pesquisa, foi o seguinte: primeiro, produziu uma série de videoteipes com relatos falsos e relatos verdadeiros a respeito de dois diferentes fatos publicados na imprensa sobre o Rio de Janeiro. Quem fez os relatos foram 20 pessoas com idades de 22 a 70 anos, homens e mulheres, parte com visão normal e parte com deficiência visual. A razão da presença dos deficientes visuais era confirmar se de fato a aprendizagem da dissimulação depende da observação  - isso levaria os cegos a não saberem dissimular direito.
Os vídeos foram então submetidos a um corpo de "juízes" composto por 76 pessoas, com idades de 17 a 54 anos, homens e mulheres, todos estudantes de psicologia. Eles viram os vídeos numa primeira vez sem nenhum treinamento prévio para dizer quem mentia e quem falava a verdade. E viram de novo depois de um treinamento sobre reconhecimento de sinais de mentira. Em linhas gerais, sem o tratamento estatístico que aparece na pesquisa e que aqui seria complicado reproduzir, esses são alguns resultados: os deficientes visuais mentem muito mal, e os homens sabem mentir melhor que as mulheres, o que provavelmente, segundo Mônica, tem relação com a regra cultural "homem não chora"que ainda vigora entre nós, enquanto as mulheres latinas estão liberadas para expressar suas emoções. "Os homens desde criancinhas são estimulados a disfarçar suas emoções", lembra ela. Isso lhes daria um domínio muito maior de controle das expressões quando mentem.
E já que falamos de expressões, para finalizar, vamos dar alguns exemplos de sinais não-verbais da mentira observados por Mônica. No âmbito dos gestos emblemáticos, ou seja, aqueles que têm significado consensual dentro de determinada cultura, como balançar a cabeça em sinal de afirmação ou negação, pode-se observar que alguém que está dissimulando ou mentindo, ao fazer verbalmente uma afirmação, muitíssimo discretamente pode balançar a cabeça no sentido oposto, o da negação.
No quadro dos gestos ilustradores, aqueles que enfatizam o discurso, o que se observa é que eles diminuem muito quando alguém está mentindo ou aparecem com atraso. por exemplo: alguém diz que está enraivecido, nervoso ou indignado e dá um tapa na mesa para demonstrá-lo, mas faz isso com atraso quando está mentindo.
No campo da paralinguagem, observam-se pausas mais longas  e/ou mais freqüentes, mas o realmente bom mentiroso, Mônica diz, preenche as pausas com uma fala que não diz nada. Também há muitas hesitações antes das respostas e muitas respostas monossilábicas. Nem sempre uma subida do tom de voz é sinal de mentira, mas na mentira o tom tende, sim, a ser mais agudo.
Um artista da mentira pode, é claro, reduzir a quase zero os sinais que emite de que não está sendo veraz. Mas Mônica está convencida de que é impossível a alguém inibir simultaneamente todos esses sinais. Como, por outro lado, depois de um treinamento intensivo, os "juízes" da pesquisa em questão conseguiram um índice de acerto de 85% sobre os homens de visão normal que nos videoteipes estavam mentindo (justamente da categoria com mais competência para mentir), talvez fosse o caso de convocar a pesquisadora carioca para treinar os membros das CPIs instaladas em Brasília quando e se eles desejarem mesmo pegar os mentirosos de plantão.

Mariluce Moura é jornalista e diretora de redação da revista Pesquisa Fapesp