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Menor tamanduá do mundo é encontrado em novo habitat no Brasil

Publicado em 01 março 2016

Solitário, notívago e calado, o tamanduaí é um bolinho de pelo alaranjado que, enrolado como costuma ficar, cabe nas mãos.

Também conhecido como tamanduá-anão, ele vive no dossel das árvores e é a menor entre as quatro espécies de tamanduá. O corpo de um indivíduo adulto tem cerca de 40 centímetros, sendo que quase metade disso é cauda, e ele não chega a pesar 400 gramas.

O tamanho diminuto e os hábitos eremitas contribuem para que seja a espécie menos estudada da superordem Xenarthra, que inclui ainda tatus e preguiças, mas a descoberta de uma pequena população do animal em um habitat inesperado pode ajudar os cientistas a obterem mais dados sobre ele.

Sua distribuição original abrange as florestas tropicais da América Central e do Sul, porém a baixa temperatura corporal (em torno de 33ºC) e pouca capacidade termoregulatória limitam sua ocorrência a altitudes abaixo dos 1.500 metros do nível do mar.

No Brasil, sabia-se que essa espécie podia ser encontrada na Amazônia e na Mata Atlântica nordestina mas, recentemente, um grupo de pesquisadores encontrou uma pequena população de tamanduaís vivendo em manguezais do Delta do Parnaíba.

“É um achado muito importante já que só se tinha informação desse animal vivendo em áreas de mata mais fechadas”, conta a bióloga Mariana Catapani.

Localizado entre o Piauí e o Maranhão, o Delta do Parnaíba é o terceiro maior delta do mundo e o único do continente a desaguar diretamente no oceano. De geografia complexa, ele é um mosaico de ecossistemas entrecortado por baías e estuários e ramificado em um arquipélago de cerca de 70 pequenas ilhas separadas por canais fluviais labirínticos.

Ecossistema de transição entre cerrado, caatinga, restingas e mangues, é considerado um dos mais produtivos do planeta por conta de sua biodiversidade.

Seu ambiente quente e úmido oferece condições ideias para a reprodução de diversas espécies e biólogos acreditam que ele possa servir de banco genético para a recuperação de áreas degradadas.

Estima-se que 25% dos manguezais brasileiros tenham sido destruídos no começo do século 20 e os que ainda restam, como o do Delta do Parnaíba, estão sob constante ameaça por conta da caça predatória e do desmatamento.

Por isso, a descoberta causou empolgação e preocupação com esses bichos tão frágeis. Foi um guia turístico que encontrou os tamanduaís e avisou os pesquisadores. Hoje ele integra o único grupo de pesquisa dedicado à espécie no mundo, coordenado por Flávia Miranda, pesquisadora da área de zoologia da Universidade Federal de Minas Gerais.

Conhecido como Projeto Tamanduá, o Instituto de Pesquisa e Conservação de Tamanduás no Brasil reúne nove pesquisadores da USP, UFMG e do Museu Paraense Emílio Goeldi. São seis biólogos, dois veterinários e um técnico empenhados no estudo e conservação dos bichos no país.

Financiado por agências de fomento como Capes, Fapesp e Fapemig, o projeto tem sede na UFMG e recentemente montou uma base em Ilha Grande, no Piauí.

Não se sabe se o tamanduaí é uma espécie ameaçada. Os estudos sobre sua população são tão incipientes que os pesquisadores não têm uma estimativa de quantos indivíduos existem no Brasil. “Supomos que a população da Amazônia seja maior que a da Mata Atlântica, que já sofreu mais depredação. No Parnaíba, encontramos tamanduaís em Ilha Grande e na Ilha das Canárias”, diz Miranda. Até agora, foram encontrados cerca de dez animais no Parnaíba.

Os pesquisadores acreditam que as populações de tamanduaí da Mata Atlântica e da Amazônia tenham sido separadas durante o Pleistoceno (entre 2.588 milhões e 11.5 mil anos atrás), quando as florestas da Amazônia se retraíram, dando origem à caatinga. A população do Delta do Parnaíba seria a ligação entre os grupos desses dois grandes biomas.

“Nossa expectativa é poder contar a história evolutiva dessa espécie. Saber como e por que eles se separaram, quais as diferenças entre essas populações. A partir da avaliação genética dos indivíduos que coletamos no Parnaíba já podemos dizer, por exemplo, que são mais próximos dos tamanduaís do nordeste do que dos da Amazônia. De algum modo, esses grupos têm mantido um fluxo genético entre eles, ainda que baixo”, explica Miranda.

Os próximos passos do projeto são estudar os hábitos reprodutivos e alimentares do tamanduaí e averiguar se há incidência da espécie em outras ilhas do arquipélago. “Em um ano, queremos ter um inventário dos hábitos dessa população para conseguirmos protegê-la”, finaliza Miranda.

Por: Juliana Cunha

Fonte: Folha de São Paulo