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Meninas têm notas menores que a dos meninos no Enem

Publicado em 22 novembro 2020

Meninas tiveram pior desempenho nas avaliações de ciências da natureza e biodiversidade do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) do que os meninos nos últimos dez anos. É o que mostra o estudo do Observatório da Educação das USCS (Universidade Municipal de São Caetano), financiado pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), que investiga como os alunos se saíram nessas provas de 2009 até 2019 – o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) tem também avaliações de linguagens e códigos, ciências humanas, matemática e redação.

O levantamento foi feito com base nas médias dos alunos, separados por sexo e renda familiar. Em apenas duas situações as meninas tiveram desempenho melhor do que o dos meninos, ambas em Rio Grande da Serra, em 2009 e 2011 – veja comparativo na arte acima. As notas, porém, em sua maioria, se equivalem.

No comparativo levando em consideração a renda da família, a diferença é grande. Em 2018, por exemplo, alunos de famílias que ganham até R$ 954 tiveram média de 10,4 na região, enquanto que faixa intermediária, com renda familiar de R$ 3.816,01 a R$ 4.770 a nota subiu para 13,1. Os mais ricos e com acesso às melhores escolas, por consequência, têm as melhores notas. Estudantes de famílias com renda de R$ 11.448,01 até R$ 14.310 alcançaram média de 17,1, ou seja, 6,7 pontos a mais em relação aos mais pobres – veja o comparativo na arte acima.

Conforme o pesquisador e professor de mestrado em educação da USCS, Paulo Sérgio Garcia, os dados analisados mostram, de maneira geral, que o desempenho dos jovens do Grande ABC nas provas de ciências da natureza e biodiversidade são desanimadores. O especialista destacou que as médias de 2009 e algumas de 2010 atingiram 40% de acertos. Já nos últimos anos, o desempenho, em muitos casos, não chegou a 30%.

O professor lamenta o fato de que as notas possam estar limitando a entrada dos jovens de baixa renda em universidades, já que o resultado do exame pode ser utilizado no Sisu (Sistema de Seleção Unificado). “As boas vagas podem ficar aos mais favorecidos, como as vagas de universidades e faculdade públicas. O desempenho dos alunos é diferente para cada município, mas temos a renda familiar influenciando os resultados, já que os dados nos mostram que quanto maior a renda dos pais, melhor os resultados dos estudantes”, comentou.

Garcia defende que, com a análise, é preciso que as instituições de ensino intensifiquem suas metodologias de aprendizado e motivem os alunos a se dedicarem mais ao conhecimento científico. “O levantamento nos mostra que precisamos fortalecer o ensino de ciência em geral. É o desafio que precisamos superar daqui para frente”, destacou o professor.

Docente de comunicação, liderança, educação e redação acadêmica, Vivian Rio Stella avalia que a causa desses dados ruins pode estar relacionada ao fato de que as escolas privadas tendem a direcionar as ações educacionais para a aprovação no Enem, promovendo simulados e tratando os temas abordados com mais frequência. “Por isso os alunos já estão mais inseridos neste contexto de prestar vestibulares. Os alunos da rede pública têm os conteúdos e as habilidades do Enem como foco de ensino também, mas fala-se menos sobre a prova em si na escola” explicou a professora.

Corretora de redações do Enem por mais de 15 anos, Stella explica que nem todos os alunos de baixa renda têm interesse ou tempo hábil para se preparar, muitos porque precisam trabalhar ou por não ver ao seu redor número expressivo de pessoas que tenham sido aprovadas em vestibulares e tido bom desempenho no Enem. “Mas isso não significa que professores e alunos da rede pública não estejam com a prova em seus radares, mas não há tanto foco quanto na rede particular. Os materiais publicitários das escolas particulares enfatizam o número de aprovados no Enem, destacam a nota dos alunos, já a rede pública não se vale disso”, pontuou a professora.

Estudo mostra que 49% dos inscritos já pensaram em desistir da prova

O estudo Juventudes e a Pandemia do Coronavírus, feito pelo Conjuve (Conselho Nacional da Juventude) com mais de 33 mil participantes, revelou que 49% dos jovens inscritos para fazer o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) já pensaram em desistir da prova.

Professora de comunicação, liderança, educação e redação acadêmica, Vivian Rio Stella avalia que não existe um motivo apenas para o desânimo dos estudantes, mas acredita que a continuidade das aulas on-line em razão da pandemia e a insegurança do momento têm peso importante na decisão.

“Aprendizado tem um forte fator emocional. Esses alunos que vão prestar o Enem estão no último ano do ensino médio, ano simbólico de mudança de fase da vida, de talvez não conviver mais todos os dias com os amigos. Seria o ano de aproveitar ao máximo o momento na escola com os colegas e professores e eles não tiveram isso”, salientou a especialista.

A professora destacou que a pandemia expôs o quanto é preciso repensar o ensino para promover real aprendizagem. Para Stella, o modelo de educação híbrida será uma tendência, mas ainda será preciso ajustar formas de atuar tanto no presencial quanto no on-line. “Temos de repensar, inclusive, o que vale a pena ser feito para que o presencial tenha sentido, e como conduzir o on-line de forma realmente inovadora”, comenta.

Dentre as dicas para motivar os alunos, Stella destaca playlists colaborativas e grupos de estudo sobre temas de interesse. “Ouvir podcasts, ver vídeos de professores no YouTube, seguir perfis de dicas para o Enem nas redes, gravar áudios com suas percepções sobre o que assistiu no Netflix, conversar com os amigos pela internet sobre os temas em evidência na mídia, ouvir opiniões de familiares, enfim. Tudo isso pode contribuir também na preparação para a prova, além de fazer simulados disponíveis na internet, de aproveitar as aulas de seus professores, criar um cronograma de estudo para ser mais produtivo”, elencou a profissional.

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