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Além d'Arena

Memórias: a Internet e as políticas públicas

Publicado em 13 setembro 2020

Por Luis Nassif

A chegada de microinformática escancarou um novo universo de temas a serem explorador.

Já contei aqui sobre os sistemas medindo custo comparativo de carros a álcool e a gasolina, a tabela do Jornal do Carro e, finalmente, as simulações do Sistema Financeiro da Habitação.

Quando saí da Secretaria de Redação da Folha, me deram a incumbência de coordenar o DataFolha. Até então, era uma pequena estrutura de pesquisas eleitorais trocados pela Mara Kotscho, esposa de Ricardo. Queriam transformar em um departamento de pesquisa mais amplo.

Montei um planejamento, no qual se aproveitaria o poder de processamento dos micros para toda sorte de levantamento estatístico, desde levantamento de preços em supermercados até estatísticas esportivas, de posse de tempo de bola, tempo de bola no ataque e coisas do gênero.

O DataFolha ficava sob a guarda de Pedro Pincirolli, diretor da Folha e dono de um caráter exemplar. No primeiro dia, joguei dezenas de ideias no papel e sugeri a compra de dois microcomputadores para tocar os trabalhos do novo departamento.

Pedro me ligou apreensivo. Sugeriu que antes de encaminhar a Frias qualquer projeto que implicasse em despesas, que falasse antes com ele. De fato, embora a gestão financeira da empresa fosse precária, Frias se importava com todos os itens de despesa.

Fiquei pouco tempo no Departamento. Indiquei um conhecido de Poços para gerente e um primo especializado em Database – o avô dos modernos bancos de dados – e me voltei novamente para o Dinheiro Vivo e para minhas aparições na Abril Vídeo. Não tive nenhuma participação no grande sucesso do DataFolha que foram as pesquisas eleitorais.

Na verdade, planejei apenas isso. Nas primeiras eleições, indiretas, na saida da ditadura, Paulo Maluf aparecia como invencível.

Montei então uma pesquisa com a seguinte metodologia:

Um repórter político experiente perguntar a todos os deputados, um a um, em quem votariam: de em Maluf, Tancredo ou Mário Andreazza, o candidato dos militares. Depois, o repórter daria uma nota ao entrevistado: se confiável ou não confiável. Em cima disso montamos vários cenários. Em um deles, Maluf receberia todos os votos de quem votou nele, mais os votos não confiáveis nos dois outros candidatos. E assim com os demais.

Frias sempre teve uma proximidade grande com Maluf. No sábado, quando fui fechar a matéria, Otavinho me telefonou perguntando se eu tinha certeza do resultado. Disse que sim. Então sugerir que eu assinasse a matéria. Claro, assinei. No pior cenário para Tancredo, ele vencia as eleições.

No domingo estava na redação quando recebi telefone de Frias, pai, dizendo que Calim Eid, o braço direito de Maluf, admitira que os dados refletiam a realidade.

A Internet e a gestão pública

Quando a Internet ganhou dimensão, abriu-se um campo enorme para experiências de planejamento público. Passei, então, a bolar diversos projetos.

Um deles foi com o Instituto Uniemp, ligado à Unicamp, de informatização do Tribunal de Contas do Estado. Na época, prefeitos tocadores de obras eram enaltecidos. Mas, em muitos casos, arrebentavam com as contas dos municípios e deixavam uma herança pesada para os sucessores.

Propus para Roque Citadini, então presidente do TCE, um projeto para colocar todos os balanços das prefeituras em um banco de dados e, a partir deles, definir uma metodologia de premiação das administrações fiscalmente mais responsáveis.

Citadini topou. Levantou uma verba que foi inteiramente repassada para a Uniemp, que já dispunha de um departamento de tecnologia.

O projeto caminhou mas com alguns problemas. A ideia central era definir uma forma de apresentação voltada para o cidadão comum. Mas como a orientação vinha dos técnicos do TCE, a interface servia apenas para especialistas. Além disso, quase nenhuma prefeitura tinha acesso à Internet. Os dados chegavam por disquetes, com bastante atraso.

Mesmo assim, os resultados saíram.

Algum tempo antes, eu havia recebido as chaves da prefeitura de Araçatuba da prefeita, uma senhora amabilíssima. Nem me lembro bem as razoes da homenagem. Quando saíram os resultados do TCE, a prefeita fechara o mandato com 50% de déficit, uma campeã.

De qualquer modo, a semente foi plantada. Tempos depois, Citadini montou um seminário em São Paulo, para o qual convidou presidentes de todos os Tribunais de Conta Estaduais, para mostrar as possibilidades abertas pelas novas tecnologias.

A informatização municipal

Outra tentativa foi com a prefeitura de São João da Boa Vista. Já havia sistemas ERP para empresas, não para o setor público.

Consegui juntar a Fapesp, o INDG, de Vicente Falconi, SAP e IBM em um projeto visando informatizar a prefeitura. A Fapesp abriu uma dotação que foi inteiramente para o INDG. E a SAP e IBM toparam participar como projeto piloto para, depois, levar para outros municípios.

Pronto o piloto, a ideia seria obter um financiamento do BNDES para implantá-lo. A ideia morreu quando o então prefeito quis aproveitar a repercussão do projeto para construir um centro administrativo. Além disso, já se aproximara de fabricantes de microcomputadores querendo entrar no financiamento do BNDES. Acabei deixando o projeto de lado percebendo que se desvirtuara.

Por aqueles tempos fui procurado por Verônica Serra, interessada em apresentar uns argentinos que ela estava representando no país, e que tinham uma proposta de cidades inteligentes. Tempos depois, os argentinos conseguiram vender um site de banco digital, o Patagon, para o Santander por US$ 700 milhões, ao mesmo tempo em que conseguiam preservar no Banespa, adquirido por eles, as contas do setor públicos.

Graças a esse trabalho, nos tempos em que seu pai, José Serra, era Ministro do Planejamento, Verônica logrou ficar com uma fatia de 10% do recém criado Mercado Livre.

Havia um enorme campo para inovação da área pública, mas com inúmeros problemas de disputas de poder e de verbas interno. E isso vim a perceber com o tempo.

Um dos projetos que montei foi o Brasil Exportação.

A inspiração veio da experiência da pequena cidade de Birigui, que, para enfrentar a crise do Real, montara um programa, com apoio da Prefeitura, para torná-la um polo exportador para a América Latina. Escrevi uma coluna na época sobre “Os 300 de Birigui”, emulando a resistência dos 200 de Esparta, contra os hunos da recessão trazida pelo Plano Real.

Uma das saídas seria estimular as exportações, com um câmbio adverso.

Com o presidente Paulo César Ximenes, o Banco do Brasil ingressara em um belíssimo programa de qualidade. A balança comercial brasileira afundava, O governo criara a Apex (Agência de Promoção das Exportações), no âmbito da Camex (Câmara de Comércio Exterior). Havia uma nova geração de tradings pequenas prospectando o mercado externo. Os gerentes do BB, que cobriam o país inteiro, poderiam ser os grandes agentes de sensibilização dos pequenos empresários.

A ideia seria montar um portal que teria uma Sala do Banco do Brasil, uma sala do BNDES, outra da Apex, na qual os pequenos empresários e traders poderiam ter todas as informações sobre como exportar, inclusive acesso a financiamentos e a mercados. Na ponta, o filtro seria feito pelos gerentes do BB.

Ximenes topou e fui ao diretor da Apex apresentar o projeto. A agência ainda estava em formação e o cargo foi entregue a um diplomata de pouco pique. Deixei o trabalho com ele e passou semanas sem notícias. Voltei algum tempo depois para conversar, e ele me apresentou uma ideia que acabara de ter: era meu projeto.

Tempos depois, Sérgio Amaral assume o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior e me convida para um almoço. Nele, falou de seus projetos e, no final, apresentou sua “menina dos olhos”. E descreveu com riqueza de detalhes o MEU projeto. Completou com uma frase surpreendente:

– E você não sabe a coincidência, Nassif. Fomos registrar o nome do site e descobrimos que já havia um registro em seu nome.

Outro caso emblemático foi a ideia de montar uma base dados para estimular a inovação em pequenas e microempresas.

Inspirei-me em um artigo de Yoshiaki Nakano. Na época se falava muito em inovação na fronteira do conhecimento. Nakano lembrou que qualquer ganho incremental em setores de grande abrangência – de pequenas e micro empresas – teriam um efeito relevante sobre a economia. Um dos exemplos era a cadeia do frango, com pequenos criadores, montada pela Sadia.

Na época, o IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) de São Paulo montou um projeto muito interessante, o SOS Tecnologia. Se alguma pequena empresa enfrentasse dificuldades no processo industrial, o carro do SOS ia ate la e resolvia o problema.

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Entrevistei o responsável. Indaguei se os problemas apresentados eram comuns a cada setor., Disse que sim. E o que fazia com a solução? Ficava restrita à empresa que solicitou ajuda.

Imaginei então um sistema de banco de dados engenhoso.

Há a base de dados da Plataforma Lattes. Seria desenvolvido um interpretador de textos com acesso à base Lattes. Cada empresário que enfrentasse um problema colocaria a questão no sistema de buscas e o sistema interpretaria qual área de pesquisa poderia atender à demanda. Providenciaria o contato com o grupo de pesquisa e, no final, cada usuário daria uma nota para o atendimento, de maneira a se ter um ranking das melhores soluções.

Chamamos o Instituto Uniemp para participar e minha então esposa identificou especialistas na Universidade Federal de São Carlos.

O projeto foi apresentado para a Finep e rejeitado por um consultor, professor da Unicamp, que alegou que já havia bancos de dados suficientes na área acadêmica.

Tempos depois, quando assumiu o governo Lula, o CGGE, do Ministério de Ciência e Tecnologia estava fadado ao desaparecimento. Escrevi um artigo defendendo a sua manutenção como essencial para o arruamento do setor público.

Um dia Luiz Gushiken me convida a visita-lo. Disse que colocara o artigo na mesa de Lula, para fazê-lo entender que o departamento poderia ser bastante útil. A visita seria para me agradecer e, ao mesmo tempo, mostrar dois grandes trabalhos do centro. Um deles era justamente o projeto que havia apresentado em parceria com a ex.

Anos depois, em uma viagem de volta de Brasilia, sentou-se ao meu lado um burocrata público, que me esclareceu o que havia ocorrido. O projeto foi rejeitado e depois reapresentado por um outro grupo, que conseguiu uma verba dezenas de vezes maior do que a necessária para colocar o projeto em pé. Mesmo assim, o projeto nunca deslanchou.

Tempos depois, houve um evento na FIESP para promoção das exportações. Lá, a Apex apresentaria projetos aprovados. Um deles era justamente o Brasil Exportação, com outro nome, apresentado por um empresário de Belo Horizonte que, na condição de consultor da Apex, havia rejeitado o meu projeto. E, depois, se apossado dele.

A experiência derradeira, na área federal, foi com Márcio Thomas Bastos. Indicado Ministro da Justiça, como eu já tinha escrito várias vezes sobre gestão e informatização da área pública, ele me chamou a Brasilia para ouvir sugestões sobre como informatizar a justiça.

O diagnóstico era simples. Havia belíssimas experiências de informatização em Santa Catarina, Rio Grande do Sul, alguns países do centro-oeste. E o Ministério sendo acossado diariamente por representantes da Microsoft, Oracle e outros oferecendo aquelas soluções.

Expliquei para ele que a ciência do sistema não estava no software, mas no conhecimento dos técnicos de cada Tribunal. O caminho seria, então, primeiro levantar todas as experiências bem-sucedidas e juntar as melhores soluções em cada parte do processo.

Depois, convidar os técnicos selecionados a irem a Brasilia e montar um projeto de desenvolvimento do grande sistema nacional em software livre. Esse software ficaria em nuvem e o Ministério trabalharia políticas para induzir todos os tribunais a adotar o sistema.

A ideia foi aceita e chegamos a fazer um levantamento das melhores experiências para ele.

A reunião seguinte seria com os diretores de informática do STJ (Superior Tribunal de Justiça). O diretor era um dos antigos coronéis da SEI (Secretaria Especial de Informática) amplamente amarrado com a Microsoft. O projeto não prosperou.

Anos depois, a informatização do Judiciário começou com o STF aproveitando a experiência individual de um juiz, que resolvera, por conta própria, informatizar a sua Vara.

A Central Digital de Desenvolvimento

O trabalho derradeiro foi a Central Digital de Desenvolvimento.

Com a abertura da economia, o país começou a interessar mais a investimento externo. Mas havia grande dificuldade em conseguir informações. As empresas chegavam, montavam filas na Secretaria de Ciência e Tecnologia e na FIESP, eram obrigadas a contratar estudos de 500 mil dólares para entender as condições do Estado.

Surgiu a ideia de um portal que juntasse todas as informações. Procuramos o Sebrae de São Paulo que topou participar do projeto. Foi feito uma enorme base de dados, com informações do Seade (que só trabalhava em planilhas), CAGED e -outros bancos de dados públicos.

Trazia informações de todos os estados e municípios do país e também da América Latina.

O candidato a investidor tinha 20 campos de pesquisa para selecionar, tamanho de cidade, numero de trabalhadores na categoria desejada, distância de aeroportos, numero de leitos hospitalares, políticas de incentivo fiscal da prefeitura etc.

No entanto mudou a direção do Sebrae e entrou um político tucano que passou a direcionar as verbas para suas bases eleitorais. O governador Mário Covas soube da experiencia, me chamou no Palácio e falou do interesse do governo em apoiar. Veio através da Imprensa Oficial.

O último ato de Covas foi apresentar o projeto para um seminário para o qual foram convidados todos os prefeitos do estado.

Foi montada então uma pequena empresa, com uma equipe trilíngue que acabou organizando uma base de dados com os principais centros de negócios mundiais, Associações industriais, comerciais em vários países. Acabou sendo considerado um dos projetos modelo da Microsoft, mas com baixíssimo aproveitamento.

Certa vez fui ate Alckmin para alertá-lo sobre o desperdício. Falei, governador sabe que São Paulo tem um jatinho aqui que pode levar o estado para qualquer parte do mundo?

Expliquei o projeto, sua abrangência. E falei do baixo aproveitamento de seus recursos. Ele perguntou o que poderia fazer.

– Governador hoje em dia tem canais especializados em economia em qualquer TV a cabo. Faça uma campanha nos principais países do mundo.

– Mas quanto vai custar?

– Governador, o estado de São Paulo é um dos maiores clientes das maiores empresas do mundo. Chame a Ford, a GM, a IBM, a Microsoft aqui e peça para eles montarem campanhas em cada país.

Ele anotou no seu caderninho. E não se falou mais nisso.

Tempos depois, o projeto morreu de morte inglória. O chefe da Casa Civil, Arnaldo Madeira, precisava de recursos para a campanha eleitoral. Assim, chamou o presidente da Imprensa Oficial, e ordenou que transferisse toda a verba do projeto para um estudo tocado por sua esposa na Fundação Seade. O estudo consistia em uma pessoa que diariamente lia os jornais e recortava as notícias sobre investimento em São Paulo.

Tempos depois, membros do governo de São Paulo vieram atrás, querendo reconstruir o sistema. Tornou-se a São Paulo Investimentos.

Também na área privada tentei algumas incursões.

Uma delas foi aproveitando o início da chamada computação em nuvem, ainda muito incipiente.

Uma das ideias que surgiu foi a adaptação de sistemas de ERP para atender a pequenas empresas, com a mediação de escritórios de contabilidade. O sistema exigiria do cliente apenas imputar os dados. Os dados contábeis iriam para o contador. Os dados de estoque e financeiros seriam trabalhados de maneira que a Agência Dinheiro Vivo pudesse dar consultoria financeira, inclusive gerindo o sistema de contas.

O projeto avançou em uma parceria com a Telefonica e chegou a ser desenvolvido pela Scopus, a empresa de tecnologia do grupo Bradesco. Foi suspenso quando sobreveio o crack das empresas de tecnologia, no início dos anos 2.000.

Outra tentativa foi de implantar um sistema ERP em nuvem com empresas do setor de máquinas e equipamentos. A Abimaq topou participar. Mas o parceiro escolhido, uma empresa de software de Santa Catarina, não se empenhou no projeto.

Em suma, excesso de ideias e baixa capacidade de implementação da minha parte.

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