Notícia

Jornal de Jundiaí

Memória e Sociedade

Publicado em 15 julho 2017

Por Eduardo Carlos Pereira

Se uma professora foi especial na vida das pessoas e no reconhecimento da importância do idoso essa mulher foi Ecléa Bosi. Esta semana a notícia de sua morte pegou a todos de surpresa, ela que falava da memória dos idosos, não poderia ser vulnerável ao fim. Ecléa é lembrança para sempre. Quem poderia falar de “velhos” como ela fez, não poderia nem envelhecer nem morrer, ser perene é o que se esperava no imaginário nosso. Emocionou os acadêmicos com sua tese “Memória e Sociedade: Lembrança de Velhos”, editada em 1979. Esse trabalho foi referência para eu poder fazer a documentação da minha pesquisa no bairro da Colônia, naquele ano de 1979.

Colaborou para que eu pudesse fazer pesquisas em arquitetura de maneira inovadora, com procedimentos até então não conhecidos: consistiu em anotar de maneira sistemática, o depoimento das pessoas envolvidas. Entre as conclusões, ficou a que permitiu a elaboração de um procedimento que pode ser usado em conjuntos de construções, desde que estejam enquadrados em 3 condições: que as construções tenham sido simultâneas, que haja documentos sobre sua implantação, e que se possa obter, através do relato das pessoas, o registro de sua memória.

Isso fiz em pesquisa patrocinada pela FAPESP em 1979 para o levantamento da “Colônia”. Suas casas, seu importante planejamento precursor do Planejamento Urbano moderno, sua importância histórica para o Estado de São Paulo, para a história do urbanismo e da história da casa. Com êxito e reconhecimento, foi amplamente divulgado na edição de “Cem anos da imigração italiana em Jundiaí”, 1986.

Ecléa em entrevista de março de 2017: “Eu acho que a sociedade ainda não compreendeu a importância do idoso, viu? Nós na psicologia social estudamos o preconceito, e não há um preconceito mais cruel do que aquele que incide sobre uma característica biológica da pessoa”.

A universidade do Idoso, que dirigia na USP reúne professores, pedreiros, artesões, operários numa mistura revolucionária, que, além de devolver para o idoso seu papel de protagonista da história, recoloca na academia sua importante contribuição para registrar a história social brasileira.

Esses fatos, que tanto interesse tem, me levaram a um questionamento quanto a uma declaração recente sobre um empreendimento de cerca de 500 unidades na Vila Aparecida. Edifícios estão chegando, a aprovação justificada pela necessidade social não considerou o lugar histórico em que está inserido. Quando se fala na Vila Aparecida, a maior parte está nesse lugar de memória histórica que é a Colônia e que não pode se tornar estoque de terreno para solucionar problemas de habitação.

EDUARDO CARLOS PEREIRA é arquiteto e urbanista, autor do livro “Núcleos Coloniais e Construções Rurais”. Membro do ICOMOS - Conselho Internacional de Monumentos e Sítios