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Negócios da Terra

Melhoria da sustentabilidade do agronegócio do café

Publicado em 07 abril 2015

Foi publicado na edição de fevereiro/2015 da revista Agronomy Journal, da American Society of Agronomy, uma das mais renomadas revistas da área de Agronomia do mundo, o artigo ‘Irrigation and Intercropping with Macadamia Increase Initial Arabica Coffee Yield and Profitability’. O texto é assinado por Marcos José Pedoná e Rogério P. Soratto.

O texto é parte da tese de doutorado defendida na Faculdade de Ciências Agronômicas (FCA) da Unesp de Botucatu por Pedoná, pesquisador científico da APTA – Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA), vinculada à Secretaria de Agricultura e Abastecimento, Polo Regional Centro-Oeste, em Bauru, SP.

Orientado por Soratto, docente da FCA, o trabalho, parcialmente financiado pela Fapesp, testou a eficiência do uso da consorciação de culturas e da irrigação na obtenção de aumento de produtividade e na melhoria da sustentabilidade do agronegócio café no Estado de São Paulo. A pesquisa foi iniciada em maio de 2005, com o preparo das áreas e implantação de diversos sistemas de cultivo (café solteiro, macadâmia solteira e consórcio café x macadâmia), todos com ou sem irrigação por gotejamento.

Por se tratar de culturas perenes, muitos anos são necessários para que sejam produzidos resultados confiáveis. Assim, após coletar dados de desenvolvimento, produção e rentabilidade desses sistemas durante 8 anos, foi possível publicar resultados que podem orientar os cafeicultores na busca pela melhoria da sustentabilidade em sua atividade. “No artigo publicado na Agronomy Journal, foram apresentados os resultados dos tratamentos de café solteiro e consórcio de café com macadâmia, com ou sem o uso de irrigação”, explica Soratto.

Os resultados mostraram que, em condições de sequeiro, a consorciação com nogueiras-macadâmia aumentou em 10% a produtividade de grãos do café arábica, quando comparada com o cultivo solteiro. Além disso, o uso da irrigação por gotejamento promoveu maior crescimento e aumentou em 60% a produtividade de grãos do café arábica, independentemente do sistema de cultivo (solteiro ou consorciado).

O artigo mostra ainda que o crescimento e a produtividade da nogueira-macadâmia consorciada com café arábica também foram significativamente incrementados pelo uso da irrigação; e que as produções das primeiras cinco safras não foram suficientes para pagar os investimentos no cultivo de café solteiro em condição de sequeiro, porém, tanto a irrigação quanto a consorciação reduziram o período de retorno do investimento.

“O cultivo de café arábica, consorciado com macadâmia, irrigado por gotejamento, apresentou o menor período de retorno do investimento e a maior lucratividade (76% superior à do café solteiro irrigado), após as primeiras cinco safras, sendo alternativa interessante para a sustentabilidade da cafeicultura no Estado de São Paulo, Brasil”, diz Soratto.

Sobre cultivo e comercialização do café

O cultivo e comercialização de café envolvem aproximadamente 500 milhões de pessoas no mundo. O Brasil, maior produtor mundial, tem grande responsabilidade no abastecimento desse mercado, pois é também o maior exportador do grão, com 1,22 milhões de toneladas. O Estado de São Paulo já foi o maior produtor nacional, contudo, as produtividades alcançadas (média de 1470 kg ha-1 de acordo com a CONAB 2013), já não conferem rentabilidade satisfatória, o que levou à diminuição paulatina do cultivo de café no estado de São Paulo, nas últimas décadas. Esse fenômeno se repete, também, em outras tradicionais regiões cafeeiras do Brasil.

A planta de café arábica (Coffea arabica L.) é um arbusto perene que originalmente desenvolveu-se em condições de sub-bosque e, temperaturas elevadas e déficits hídricos, prejudicam o seu desempenho vegetativo e reprodutivo. Altas temperaturas provocam abortamento de flores e frutos e, déficits hídricos provocam a morte dos tubos polínicos, causando abortamento de flores, produção de grãos de peneira baixa ou de grãos chochos, afetando diretamente a produtividade da cultura.

Além disso, alterações climáticas, como o anunciado aquecimento global, causam preocupações e, regiões produtoras poderão se tornar inaptas ao cultivo do cafeeiro, com a elevação das temperaturas. Nesse contexto, a cafeicultura poderá sofrer sérias reconfigurações geográficas, acarretando prejuízos econômicos e sociais em todas as regiões produtoras.

Estudos anteriores mostraram que o uso da arborização pode mitigar os efeitos prejudiciais de temperaturas elevadas, podendo aumentar a produtividade da cultura do café. Além disso, a espécie utilizada na arborização pode proporcionar agregação de uma fonte de renda extra aos cafeicultores e melhor aproveitamento da mão de obra durante o ano, reduzindo os riscos intrínsecos à cafeicultura e beneficiando sobremaneira a agricultura familiar, como é o caso da nogueira-macadâmia (Macadamia integrifolia Maiden & Betche) que produz uma amêndoa com alto valor de mercado.

Sobre a publicação

A revista destacou na página online e na capa do último número fotos do experimento. “Isto é um destaque e um reconhecimento para a pesquisa, pois apenas um dos mais de 40 artigos publicado no atual número de tão importante publicação científica teve a oportunidade de ser destaque na sua capa e página online”, comenta o docente da FCA.

Os resultados que foram publicados no artigo da Agronomy Journal, que abordou com mais ênfase os aspectos fitotécnicos da cultura do café arábica, são apenas parte da pesquisa, defendida em julho de 2013 no Programa de Pós-graduação em Agronomia-Agricultura da FCA.

O doutorado envolveu dois experimentos no campo, que incluíram também consorciação de café arábica com diversas cultivares de macadâmia e um estudo econômico mais detalhado, que teve a colaboração de Maura Esperancini, professora da FCA. “Foram calculados índices de eficiência de uso da área, bem como indicadores de avaliação da viabilidade econômica dos tratamentos considerando três diferentes cenários de preços do café”, comenta Soratto.