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Melhoria da produtividade agrícola mundial passa pela inovação dagestão de qualidade das argilas dos solos

Publicado em 09 março 2020

Especialistas brasileiros são referência no assunto em solos tropicais; qualidade das argilas representa o DNA dos solos e contribuirá para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) propostos pela ONU

Erradicar a pobreza e a fome, proteger o planeta e garantir que as pessoas tenham paz e prosperidade são prioridades da Organização das Nações Unidas (ONU). Para atingir tais metas, líderes mundiais se reuniram em setembro de 2015 e definiram um conjunto com 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável(ODS) para a Agenda 2030. Também em função das diversas crises socioambientais e climáticas, a Agricultura tem papel fundamental nesse cenário, uma vez que mais de 40% dos ODS estão relacionados direta e indiretamente com a melhor gestão do uso das terras, isto é, dos solos.

Partindo desse desafio global, um grupo de engenheiros agrônomos egressos da Unesp Jaboticabal/SP aprimorou uma tecnologia própria para os solos tropicais brasileiros, que permite ao produtor rural e gestor agrícola conhecer melhor o potencial e manejo mais sustentável para cada área de sua propriedade/responsabilidade. O mapeamento do potencial dos solos proposto pelo time de especialistas brasileiros em solos, com visão multidisciplinar, é baseado no conceito de qualidade das argilas. Graças ao trabalho do grupo, o Brasil é hoje referência mundial em qualidade das argilas em solos tropicais.

Renan Gravena, CEO da Quanticum, empresa pioneira de base tecnológica que trouxe esse conceito para as tomadas de decisão agrícolas, comenta a importância da adoção de novas tecnologias para solos na agricultura e como os tipos de argila podem promover inovação social e organizacional nas fazendas brasileiras a baixo custo: “O agronegócio brasileiro é um dos mais competitivos no mundo, batendo recordes de produção a cada safra. A adoção de tecnologias contribuiu para que o país atingisse esse patamar. No entanto, ainda há um grande espaço para que novas tecnologias tornem o Brasil ainda mais competitivo na produção de alimentos de forma mais sustentável. A inovação deve ocorrer nos três principais pilares da produção agrícola: solo, clima e planta. Em relação aos solos, a inovação já está disponível aos produtores brasileiros e é totalmente habilitada para as condições dos nossos solos e outros da região tropical, tanto em países da América Latina como até da África. A qualidade das argilas permite ao homem do campo conhecer as verdadeiras causas dos processos no solo e, a partir daí, adotar práticas de manejo mais eficientes e sustentáveis, como na escolha de fertilizantes, produtos fitossanitários e de irrigação. Não é necessário que o produtor faça aquisição de novos equipamentos; basta uma mudança na organização das atividades”.

O DNA da terra –Hoje, já é possível conhecer o DNA do solo das fazendas, graças a tecnologia de mapeamento da qualidade das argilas. Com preço acessível a produtores com diversos níveis tecnológicos, o DNA do solo pode ser visto por produtores e gestores agrícolas numa escala de ultradetalhe (resolução menor do que um hectare). O mapa de qualidade de argila pode ser visualizado por meio de celulares, tablets e computadores de bordo em maquinários agrícolas. Tudo isso independentemente do tamanho da propriedade.

Gravena comenta sobre aceitação do produtor brasileiro por novas tecnologias e inovação: “Em minha trajetória profissional, desde os tempos em que coordenei a uma empresa familiar que se tornou a maior empresa de pesquisa agrícola contratada da América Latina e até quando atuei como gerente de desenvolvimento de negócios na América do Sul e do Norte pela multinacional SGS, líder mundialem prestação de serviços, percebi que o produtor brasileiro preza pela produção de alimentos sustentável. Prova disso é que o Brasil é o país que tem o mercado de biodefensivos que mais cresce ano a ano. No ano de 2019, segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, o Brasil cresceu 17% em relação a 2018, superando a taxa de crescimento mundial. Essa mesma sustentabilidade é vista na adoção do sistema de plantio direto, na integração lavoura, pecuária e floresta, no uso de microrganismos para fornecimento de nitrogênio às plantas e em diversas outras práticas. Assim, o agricultor brasileiro é ávido por tecnologia, sobretudo porque ele entende que essas tecnologias o auxiliam a produzir mais e com melhor qualidade, preservar o ambiente e propiciar a continuidade dos negócios para seus filhos e netos. O grande segredo está em fazer o agricultor sentir-se parte do processo de inovação, fazendo com que ele entenda os motivos para adotar a tecnologia e seus benefícios. A tecnologia da qualidade das argilas segue esse mesmo alinhamento e só vem agregar à segurança alimentar, biotecnologia e agricultura digital como um todo”.

E por que mapear a qualidade das argilas?– O avanço do sequenciamento do genoma humano nas últimas três décadas propiciou conhecer as causas de diversas doenças e conduziu ao desenvolvimento de novas terapias e medicações inovadoras com grandes benefícios para a sociedade como um todo. O mapeamento do genoma de plantas permitiu tornar as plantas mais resistentes e tolerantes a estresses, além de aumentar o valor nutracêutico dos alimentos. Agora chegou a vez do mapeamento do DNA do solo permitir conhecer as verdadeiras causas dos processos do solo e, a partir disso, definir o potencial produtivo e qualitativo, a melhor recomendação e manejo para cada ‘genoma do solo’.

Assim, a qualidade das argilas corresponde ao DNA dos solos e, como todo DNA não muda facilmente do ponto de vista químico, físico ou biológico do solo, a técnica traz maior racionalidade no uso de insumos, maior retorno econômico e preservação do ecossistema. E tudo isso sem a necessidade de comprar um novo equipamento, mas com apenas uma reorganização de ações internas na fazenda, sem novas aquisições, no que se chama de inovação organizacional para uma gestão mais eficiente.

Mais de 80% do potencial das terras tem influência da qualidade das argilas. Mesmo solo, mesma cor, teores de argila e matéria orgânica muito semelhantes, mas diferentes tipos de argilas, é o que mostra a imagem acima.

Ciência de ponta – A tecnologia de mapeamento da qualidade das argilas por meio de sensores de magnetismo do solo foi desenvolvida por profissionais egressos do grupo de pesquisa Caracterização do Solo para fins de Manejo Específico (CSME) da Unesp Jaboticabal, interior paulista. O CSME, sob supervisão do professor José Marques Júnior, destaca-se por ser um grupo de pesquisa celeiro de talentosos gestores e berço de empreendedorismo agrícola. Do grupo já foram formados mais de 20 gestores e dez empresários. Empresas como a Quanticum, Pollo Agricultura de Precisão e Athenas Consultoria Agrícola e Laboratórios tiveram forte base tecnológica-científica nas pesquisas geradas e desenvolvidas no CSME com financiamento de diferentes instituições públicas de pesquisa referências em níveis nacional e internacional como CNPq, Capes, Finep e FAPESP.

Diego Siqueira, pesquisador associado àQuanticume que teve sua formação no grupo de pesquisa CMSE, desde a iniciação científica até o pós-doutoramento, comenta como foi o desafio de transformar ciência de ponta em uma vantagem competitiva para o agronegócio brasileiro: “O solo é um recurso natural que regula grande parte dos ciclos biogeoquímicos do planeta Terra, como os da água, do carbono, do nitrogênio edo enxofre entre outros. É imprescindível que as tecnologias de reconhecimento e detalhamento dos solos caminhem e sejam implantadas na mesma velocidade que o melhoramento genético de plantas e a engenharia agrícola de tratores, implementos e outros componentes da agricultura atual”.

Ele revela o princípio da técnica: “Passa primeiro pela identificação dos tipos de argilas, poisisso tem como base a ciência dos minerais do solo, isto é, a mineralogia. O solo é resultando da interação de diferentes fatores como tipo de rocha, relevo, clima, interação com microrganismos, e outros processos. A interação desses fatores e processos de formação do solo faz com que em diferentes locais sejam encontrados diferentes tipos de argila.Após uma década de muita pesquisa básica e validações em diferentes locais, conseguimos criar protocolo para identificar de forma rápida e a baixo custo os tipos de argila do solo por magnetismo. Transformamosconhecimento e ciência em uma inovação tecnológica de grande aplicabilidade para a agricultura tropical. Até hoje já foram mais de oito prêmios Nobel nas áreas de difração de Raios-X relacionada à mineralogia e ao magnetismo com diferentes aplicações, o que comprova o poder da proposta no que se diz a seriedade, profundidade científica e base da técnica”.

Siqueira destaca também a importância da validação da técnica em diversas condições brasileiras: “Isso sempre foi uma preocupação e algo que tratamos com muita responsabilidade, isto é, testar e validar a técnica em diferentes condições de formação e tipos de solos. Afinal, uma tecnologia é mais efetiva quanto maior é o poder de impactar a realidade das pessoas. Para isso, a técnica foi validada em regiões brasileiras estratégicas para termos informações sólidas e representativas dos solos nacionais. Foram mapeados com a técnica mais de 12 milhões de hectares no Brasil, entre eles áreas dos estados de São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Maranhão, Piauí e dentre outras regiões brasileiras. A tecnologia de qualidade das argilas ainda foi validada por pesquisadores internacionais nas melhores revistas científicas e apresentada em eventos científicos e tecnológicos no Brasil e no mundo. O interessante é que a ideia de se utilizar o magnetismo para mapear solos no Brasil surgiu em 1980, mas naquele momento não tínhamos massa crítica suficiente e sensores versáteis como temos agora com precisão e exatidão. Hoje, já temos isso”.

Renan Gravena (Quanticum) analisa o uso do mapeamento da qualidade das argilas pelos produtores e grandes corporações: “Os agricultores, do pequeno ao grande, têm adotado o mapeamento da qualidade das argilas em suas propriedades. Hoje, já são mais de 60 agricultores de diferentes regiões do Brasil que se beneficiaram da tecnologia em diversas culturas agrícolas. Outras cinco grandes corporações da agroindústria também já iniciaram seus projetos de teste e implantação da tecnologia. O mapeamento de qualidade das argilas tem preço acessível e já foi utilizado para melhorar a eficiência dos sistemas de produção de soja, milho, café, cana, algodão e citros. A qualidade das argilas é uma tecnologia própria para os solos tropicais e o solo é a base de sustentação da produção de todas as culturas. De uma forma simplificada, conhecer os tipos de argila significa conhecer o DNA dos solose, como no caso dos seres vivos, conhecer o DNA significa conhecer os seus potenciais. Assim, hoje já é possível produtores e gestores agrícolas conhecerem os potenciais dos seus solos e trabalharem com o melhor manejo para cada necessidade. Uma das aplicações diretas no campo é considerar os tipos de argila nas recomendações. Mesmo solo, mesma cor, teores de argila e matéria orgânica muito semelhantes, mas qualidade de argilas diferentes. Esse entendimento é uma das chaves para agricultura do futuro”.

Opinião de quem vive o dia a dia do campo – A tecnologia de qualidade das argilas já vem ajudando agricultores nas suas práticas agrícolas, reduzindo custos e aumentando a eficiência da fazenda. Roberto Coelho, diretor do grupo Cabo Verde, com sede em Passos/MG, comenta como a qualidade das argilas vem ajudando na produção de grãos, soja e milho, e na cultura do café de uma das fazendas localizada emSão José da Barra/MG. Nas áreas produtoras de grãos, Coelho tem obtido benefícios em relaçãoà amostragem e às análises de solo: “Por meio do mapa de qualidade das argilas é possível direcionar toda a amostragem de solo, especialmente aquela voltada para a física e a fertilidade do solo. No caso de uma das nossas fazendas, com a implantação do magnetismo, foi possível reduzir em 50% o número de amostras coletadas e os custos com análises. Na mesma fazenda, porém em área com a cultura do café, Roberto Coelho comenta sobre outras aplicações da tecnologia e ganhos competitivos para o produtor rural: “Outro ganho foi a customização ou calibração de recomendações para as argilas existentes na minha fazenda. Recomendações vão além da quantidade de insumos, passando por tipos de fontes mais eficientes para cada tipo de argila e até agrominerais, também chamados de pó-de-rocha”.

O magnetismo para identificação do mapa genético do solo – Para cada qualidade de argila, há um padrão magnético detectado por sensores de forma rápida, precisa e não poluente, em campo ou em laboratório, sem sofrer influência de sais (adubos), matéria orgânica ou água. Essa qualidade das argilas representa o verdadeiro DNA dos solos tropicais, isto é, os minerais do solo. São os minerais do solo que regem, em interação com a matéria orgânica, os processos de adsorção e dessorção de nutrientes da fase sólida para a solução, a sorção de herbicidas e produtos fitossanitários no solo e a estruturação física do solo. Todos esses processos são consequências da qualidade das argilas. Portanto, identificá-las e quantificá-las corresponde a conhecer as reais causas dos processos químicos, físicos e biológicos. A partir dessas qualidades de argilas presentes no solo de uma fazenda é possível identificar dentro da propriedade áreas que tenham o mesmo ‘genoma’. Cada ‘genoma do solo’ terá características e potenciais únicos e deverão ser trabalhados de forma diferenciada. Como o genoma humano em condições normais, o DNA do solo não muda, o que permite essa identificação ser feita apenas uma vez, diferentemente do teor de matéria orgânica que nas condições tropicais, com elevadas temperaturas e alto volume de precipitaçãoe, dependendo do manejo, é bastante alterado ano após ano.

“Muito além da técnica, a proposta mostra a competência da ciência brasileira para inovar na agricultura mundial e a vontade das diferentes gerações de pesquisadores e especialistas, sempre em busca de soluções sustentáveis e que agreguem no dia a dia do campo. As AgTechs brasileiras ancoradas em ciência de ponta vão impulsionar a transformação digital na agricultura do planeta!”, finaliza Renan Gravena, CEO da Quanticum.

Da Assessoria de Imprensa: Alexandre Milanetti