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Jornal da USP

Melatonina pode combater a doença de Chagas, mostra estudo

Publicado em 11 abril 2016

Por Rita Stella

O chamado hormônio do sono, a melatonina, possui várias ações – entre elas, melhorar a resposta imune e diminuir inflamações. Aplicada no combate à doença de Chagas, ela tem mostrado ação anti-inflamatória e protetora na fase crônica da infecção. Esse é um dos mais recentes achados da equipe de pesquisadores do Laboratório de Parasitologia da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP) da USP, liderada pelo professor José Clóvis do Prado Júnior.

Os especialistas acreditam que a melatonina também apresenta potencial antioxidante, pois foi observada uma diminuição do estresse oxidativo e controle do processo de morte celular. Os pesquisadores da USP usam o hormônio sintético idêntico ao natural, que é produzido no cérebro humano pela glândula pineal, estrutura bem pequena localizada no centro do cérebro que secreta o hormônio durante a noite e o inibe pela manhã, com a luz do sol.

Há anos estudando os efeitos desse hormônio em animais infectados pelo parasita Trypanosoma cruzi, o grupo já havia demonstrado seu papel no potencial de resposta imune na fase aguda da doença. Os resultados dessa etapa de estudos mostraram que o hormônio induziu a redução da carga parasitária no sangue e nos tecidos infectados.

Já o que observaram agora mostra que a melatonina tem ação também na fase crônica da doença de Chagas, algo considerado extremamente positivo, pois o único medicamento utilizado no Brasil, o Benzonidazol, “apresenta eficácia terapêutica limitada no tratamento de pacientes com infecção crônica”, lembra o professor Prado Júnior.

Tratando os animais na fase crônica da doença de Chagas com melatonina, a equipe da FCFRP conseguiu confirmar “as ações antioxidantes desse hormônio, reduzindo o estresse oxidativo e a inflamação”. E ainda, continua o professor, “demonstramos outra característica importante da molécula de melatonina: sua capacidade de regular o processo de apoptose (morte) celular”.

As informações inéditas foram alvo de publicações recentes em duas importantes revistas científicas internacionais, a Immunobiology e o Journal of Pineal Research. A explicação para o valor desses dados para a comunidade científica, comenta Vânia Brazão, pesquisadora da equipe e principal responsável pelo estudo com a infecção crônica, é que a doença de Chagas ainda hoje representa um grave problema de saúde pública. A Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) estima que sejam cerca de 8 milhões de infectados somente nas Américas e outros 100 milhões em risco de contaminação pelo parasita. Apesar dos números gritantes, “os mecanismos imunológicos envolvidos na infecção porTrypanosoma cruzi, seja na proteção ou no avanço da doença no organismo do hospedeiro, ainda não estão completamente esclarecidos”.

Modelo animal – Os estudos foram conduzidos até o momento em experimentos com animais (ratos Wistar) infectados pelo parasita. Vânia conta que administraram doses de melatonina sintética dissolvida em água por via oral aos animais.

A pesquisadora lembra que ainda não existem relatos científicos de uso de melatonina para tratar a doença de Chagas em humanos. O que está provado, afirma Vânia, é que esse hormônio sintetizado possui ação de indução do sono, principalmente em transtornos ocasionados por mudanças bruscas no fuso horário e em trabalhadores com jornada noturna.

“Outras evidências demonstram que a melatonina pode ser um agente terapêutico importante contra o câncer, hipertensão e doenças neurodegenerativas”, conta a pesquisadora, adiantando que ainda não existem avaliações adequadas quanto ao uso da melatonina para tratar tais doenças.

Mas o trabalho continua no Laboratório de Parasitologia da FCFRP. Um novo projeto, aprovado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), já está em andamento e os pesquisadores avançam na compreensão “dos mecanismos celulares e moleculares que alteram a imunidade ao longo da vida e seus reflexos frente à doença de Chagas”, estudo este conduzido pela doutoranda Rafaela Pravato Colato.

Outra proposta inédita dos pesquisadores vem sendo desenvolvida pela pós-doutoranda Vânia Brazão, que tenta entender as alterações das funções imunológicas em animais idosos e chagásicos, em tratamento com melatonina. Vânia comenta que respostas como essas podem ser importantes na elaboração de futuros tratamentos com substâncias imunomodulatórias, no sentido de tornar o sistema imune do hospedeiro mais eficiente contra o parasita.

Imunidade de milhões de infectados é o alvo

Apesar de todo o avanço científico das últimas décadas, a doença de Chagas “ainda é um importante problema de saúde pública”. O professor José Clóvis do Prado Júnior, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP) da USP, cita os milhões de infectados pelo mundo e lembra que há novas formas de contaminação da doença, como a ingestão de caldo de cana e açaí contaminados, além do clássico modelo de transmissão pelas fezes de um inseto (no Brasil conhecido como barbeiro).

Para tratar os casos agudos da doença, utiliza-se há mais de quatro décadas um único fármaco no Brasil, o Benzonidazol. No entanto, adianta o professor, “esse quimioterápico apresenta eficácia terapêutica limitada no tratamento de pacientes com infecção crônica (longo tempo de contaminação)”.

Entre os casos mais graves da fase crônica estão os pacientes com lesões cardíacas provocadas peloTrypanosoma. Nem essas lesões nem os mecanismos imunológicos desencadeados pela doença no hospedeiro estão completamente esclarecidos pela ciência médica. Contudo, “estudos sugerem que a cardiopatia chagásica possa ser consequência de uma resposta imune exacerbada”, conta o professor.

De Ribeirão Preto