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Jornal do Brasil

Melatonina é segredo do combate à malária

Publicado em 04 fevereiro 2001

Por DANIELLE NOGUEIRA
O segredo da agressividade do plasmódio, parasita causador da malária, está no próprio homem. A melatonina, hormônio que, entre outras funções, regula a temperatura do corpo, é peça-chave no processo de infecção. Em experimentos com camundongos e células humanas, pesquisadores do Instituto de Biociências da USP descobriram que ela dá o sinal para que os parasitas se multipliquem e invadam a corrente sanguínea, todos ao mesmo tempo, numa sincronia que impede o sistema imunológico de controlar a infecção. Como todo ser vivo, o plasmódio obedece a ciclos circadianos, multiplicando-se a cada 24 horas ou múltiplos de 24, dependendo da espécie (existem mais de 150). A melatonina comanda este ciclo. Sem ela, os parasitas perde m a referência de tempo. Resultado: o ritmo da reprodução do plasmódio é alterado, o que em tese o torna mais vulnerável ao ataque do sistema imune. Teste - Na primeira experiência feita pela equipe da química Célia Gracia, que coordenou a pesquisa financiada pela Fapesp, hemácias de camundongos, sadias e infectadas pelo parasita, foram inseridas em meio de cultura com melatonina e em outro meio sem o hormônio. No grupo de células em contato com a melatonina, as hemácias sadias foram infectadas numa velocidade maior. Em células humanas, o resultado da experiência foi o mesmo. "Isso prova que a melatonina acelera a reprodução do parasita", diz Célia. Não satisfeita, Célia infectou camundongos com o Plasmodium chabaudi, espécie que ataca roedores, e retirou a glândula pineal, que produz a melatonina. Depois de 72 horas do início da infecção, o número de parasitas em estágio inicial do ciclo reprodutivo (anel) era maior do que o dos em estágio intermediário (trofozoíto). Já no grupo de controle - camundongos em que a glândula foi mantida - aconteceu o oposto. "Sem a melatonina, os protozoários perderam a sincronia", diz a pesquisadora. Célia acredita que o parasita tenha receptores para o hormônio em sua membrana, que, uma vez detectado, desencadeia uma série de reações químicas, culminando na liberação de cálcio, elemento que dá o pontapé inicial para a divisão celular. "O cálcio atira o processo de amadurecimento do plasmódio", explica. Inibir a produção da melatonina, aparentemente, seria a forma mais eficaz de inovar e aprimorar o tratamento contra a malária. Mas o hormônio é fundamental para a sobrevivência humana. Célia propõe que novas drogas sejam desenvolvidas visando inativar os receptores de melatonina nos parasitas. "Nosso próximo passo é identificar onde estão esses receptores", conta.