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Medo percorre caminhos diferentes no cérebro, afirmam cientistas

Publicado em 23 setembro 2009

Medos diferentes percorrem caminhos diferentes no cérebro. A descoberta é de um grupo de pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas da USP (Universidade de São Paulo), que rastreou os estímulos dos medos instintivos e aprendidos dos ratos.

Os pesquisadores partiram do princípio de que a maioria dos estudos atuais sugere que todos os tipos de medo têm o mesmo processamento neural dos medos aprendidos e são percebidos apenas em uma parte do cérebro - a amídala cerebral.

Ao causar nos animais estímulos de medos aprendidos e instintivos, o estudo verificou, no entanto, que o hipotálamo tem um papel complementar às amídalas no processamento dos estímulos relacionados à sensação de perigo instintiva. Os cientistas consideraram que o medo instintivo era um mecanismo de sobrevivência natural da espécie, enquanto o medo aprendido era cultural e adquirido ao longo da vida.

Descobrimos que o hipotálamo tem um papel fundamental no processamento final dos sinais relacionais ao perigo, que ocorre, portanto, em uma etapa posterior à das amígdalas, disse o coordenador do estudo, o professor Newton Canteras, do Departamento de Anatomia do ICB, à Agência Fapesp.

Os pesquisadores fizeram testes para verificar quais regiões do cérebro dos ratos foram ativadas em situações de medo instintivo, colocando ratos franzinos em gaiolas junto com oponentes mais fortes da mesma espécie.

Após examinarem o cérebro dos animais, eles identificaram que uma região específica do hipotálamo, o núcleo pré-mamilar dorsal, foi ativada e teve papel fundamental na transmissão dos sinais de perigo iminente. Essa função específica do hipotálamo foi identificada pela primeira vez pelo nosso grupo de estudo, afirmou Canteras.

Em seguida, foram provocadas lesões para desativar essa mesma área do cérebro dos ratos, que mesmo depois de se sentirem ameaçados pelos animais mais fortes não apresentaram reações de medo.

Frente a uma sensação de perigo iminente, o animal normalmente fica imóvel para se proteger. Nesse caso, com a lesão cerebral, os ratos perderam o medo e exploraram normalmente o ambiente em que estavam inseridos, perdendo o componente que chamamos de defesa passiva, explicou.

Canteras estima que essa linha de pesquisa, após a realização de estudos comparativos com cérebros de seres humanos, pode levar a resultados com aplicações em humanos. Uma aplicação direta que esse tipo de estudo pode gerar, ainda que no longo prazo, é o melhor entendimento das causas do estresse pós-traumático, por exemplo, apontou.

Com informações da Agência Fapesp