Notícia

Boletim do Acadêmico

Medidas urgentes

Publicado em 11 maio 2007

(Fonte: Agência Fapesp, 23/4)

Depois de assistir juntos ao filme Uma verdade inconveniente: um aviso global, do ex-vice-presidente norte-americano Al Gore, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, e o físico e Acadêmico Luiz Pinguelli Rosa, professor da Coppe/UFRJ, reuniram-se com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que concordou com a iniciativa de formular um Plano de Ação Nacional de Enfrentamento das Mudanças Climáticas urgentemente. No documentário, Gore apresenta uma visão do futuro do planeta, revelando o superaquecimento global como um perigo real que precisa ser enfrentado.
Nomeado pelo presidente como secretário executivo do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, Pinguelli Rosa se reuniu em 19/4, no Rio de Janeiro, com pesquisadores e membros de instituições governamentais — como o Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) — e de instituições como o Greenpeace, para debater a estruturação do plano e sugerir propostas de ação.
Segundo levantamento recente feito pelo MCT, a principal emissão de CO2 do Brasil continua tendo como causa o desmatamento, promovida pela mudança do uso da terra da floresta para outro tipo de uso — dois terços devido ao desmatamento na Amazônia e um terço pela devastação no Cerrado. "O governo reduziu o desmatamento em 50% nos últimos dois anos, mas não basta. Precisa diminuir mais", afirmou o Acadêmico.
O segundo maior problema ambiental apontado por Pinguelli Rosa foi o consumo de energia. "Estamos aumentando o uso de carvão mineral na geração elétrica. Então, o Brasil está saindo da hidro-eletricidade para o carvão mineral, para o óleo diesel, e isso não é bom", afirmou. Outro ponto, segundo ele, é a necessidade de uma melhor política de transporte público. "Precisamos optar pelo transporte coletivo no dia-a-dia, e estender o sistema de metrô, por exemplo. Usar o carro gasta muita energia."
Segundo Miguez, um dos caminhos para reduzir a emissão de gases seria implantar ações nos moldes do Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica (Proinfa) no setor de geração elétrica. "O governo federal precisa incentivar a produção de energia elétrica de fontes renováveis, como eólica, biomassa ou pequenas centrais hidrelétricas. Esse deveria ser o modelo do Plano de Ação Nacional de Enfrentamento das Mudanças Climáticas", disse. O Proinfa é um programa voltado para a diversificação da matriz energética nacional, coordenado pelo Ministério de Minas e Energia (MME).
A energia eólica é obtida pelo movimento do ar (vento). É uma fonte abundante de energia, renovável, limpa e amplamente disponível. Cerca de 50 países, entre ricos e pobres, em todos os continentes, têm utilizado com sucesso a energia eólica, como a Alemanha (com cerca de 8.800 megawatts instalados), Estados Unidos (4.200 MW), Espanha (3.300 MW), Dinamarca (2.400 MW) e Índia (1.500 MW).
A biomassa é um tipo de matéria utilizada na produção de energia a partir de processos de combustão de materiais como a lenha, o bagaço de cana e papéis já utilizados. Entre os derivados da biomassa está o biodiesel, feito a partir do dendê, mamona, soja ou de outro produto. Pequena Central Hidrelétrica (PCH) é toda usina hidrelétrica de pequeno porte cuja capacidade instalada seja superior a 1 MW e inferior a 30 MW.
Na reunião realizada no Rio de Janeiro, o Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas não chegou a uma posição em relação à energia nuclear. "Reconhecemos a vantagem dela em não emitir CO2, mas esse tipo de energia tem outros problemas, como o risco radiativo. A energia nuclear não é uma opção madura e o Brasil tem outras escolhas. Temos urgentemente que evitar o uso do carvão mineral precocemente na matriz energética brasileira e estabelecer metas de redução do desmatamento", destacou Pinguelli Rosa.
O documento proposto pelo Fórum, encaminhado ao presidente Lula, estrutura o Plano de Ação Nacional de Enfrentamento das Mudanças Climáticas em três eixos estratégicos: ações coordenadas do governo, desenvolvimento de uma rede de pesquisa e criação de uma entidade nacional de políticas do clima. "Precisamos ter um mecanismo de estímulo à pesquisa, de financiamento a professores, pesquisadores e estudantes que se dedicam ao tema das mudanças climáticas e ambientais e todos os temas correlatos", disse Pinguelli Rosa.
As propostas do Fórum terão um longo caminho até chegar ao governo, passando pelos ministérios de Meio Ambiente, Ciência e Tecnologia, Relações Exteriores, Minas e Energia e finalmente pela Casa Civil. A idéia, segundo Pinguelli, é que o governo inclua as propostas no debate e depois envie novamente as primeiras versões do Plano de Ação para o Fórum para que seja então discutido também pela sociedade.