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Médico do Piauí é destaque na Folha de São Paulo

Publicado em 06 dezembro 2008

O médico sanitarista do Piauí doutor Carlos Henrique Nery da Costa, apareceu no artigo de Dráuzio Varella, publicado no jornal Folha de São Paulo deste sábado, dia 6.

"Nery é da Universidade Federal do Piauí, que estuda a transmissão da leishmaniose em centros urbanos há 20 anos e acompanhou as epidemias ocorridas em Teresina nas décadas de 1980 e de 1990 (mais de mil pessoas acometidas em cada uma), afirmou: "Nos próximos cinco anos pode haver uma epidemia na cidade de São Paulo"".

Leishmaniose nas cidades

É o caso da leishmaniose visceral, enfermidade que provoca febre intermitente com semanas de duração, fraqueza, perda de apetite, emagrecimento, anemia, aumento do baço e do fígado e comprometimento da medula óssea.

É transmitida pelo mosquito-palha ou birigüi (Lutzomyia longipalpis), que, ao picar, introduz na circulação do hospedeiro um protozoário descrito pela primeira vez por Evandro Chagas na década de 1930, a Leishmania chagasi.

Na época do internato no Hospital das Clínicas, acompanhei alguns casos em pacientes invariavelmente oriundos de áreas rurais.

Um deles chamava-se Eisenhower Getúlio da Silva. Tinha dez anos que pareciam seis, magrinho, desnutrido, com um baço que fazia saliência no lado esquerdo do abdômen. De tanto tempo internado, virou mascote da enfermaria.

Uma tarde, já fora de perigo, desapareceu. Procuraram por todo o hospital; até o Juizado de Menores foi chamado. No auge do reboliço, Eisenhower apareceu chupando sorvete, ao lado de um médico-interno que o havia levado para o Zoológico, sem avisar a ninguém.

Na época, leishmaniose visceral era considerada uma parasitose em extinção.

Nos últimos trinta anos, para nossa surpresa, ela não apenas retornou, mas invadiu até cidades maiores. De início, no Nordeste, depois no Norte, Centro-Oeste e Sudeste; só poupou o Sul do país.

Nos últimos 15 anos, já se espalhou por vinte Estados brasileiros, causando mais de 50 mil casos, e quase 2 mil mortes.

E, pior, "bate às portas das cidades de médio e grande porte. Pode chegar a metrópoles como Rio de Janeiro e São Paulo", explica Ricardo Zorzetto em excelente artigo publicado na revista "Pesquisa", da Fapesp, que tomamos a liberdade de resumir na coluna de hoje.

Entrevistado por ele, o sanitarista Carlos Henrique Nery da Costa, da Universidade Federal do Piauí, que estuda a transmissão da leishmaniose em centros urbanos há 20 anos e acompanhou as epidemias ocorridas em Teresina nas décadas de 1980 e de 1990 (mais de mil pessoas acometidas em cada uma), afirmou: "Nos próximos cinco anos pode haver uma epidemia na cidade de São Paulo".

Enquanto a leishmaniose atacava Teresina, surgiam casos em São Luís do Maranhão e Santarém, no Pará. Na segunda metade dos anos 1990, a epidemia chegou a Corumbá, Campo Grande e à divisa do Estado de São Paulo.

Da fronteira, seguindo o curso do rio Tietê, ela avança cerca de 30 quilômetros por ano em direção à capital. Em dez anos, o Centro de Vigilância Epidemiológica registrou mais de 1.200 casos no Estado, e mais de 100 mortes.

O mosquito-palha nunca foi detectado num município da Grande São Paulo. Em 2002, entretanto, em Cotia e no Embu, surgiram casos de leishmaniose cutânea, forma mais branda causadora de feridas na pele, transmitida por outras espécies de Lutzomyia.

Com a destruição das florestas, o inseto transmissor da leishmaniose visceral acabou se adaptando à vida nos centros urbanos. Em Belo Horizonte, invadiu a periferia da cidade; em Bauru, também.

Alguns sanitaristas desconfiam que a disseminação possa ser facilitada pelo plantio de árvores ornamentais nas ruas e parques. As acácias, de flores amarelas, em cachos, são as principais suspeitas: haviam sido plantadas em Teresina na época da primeira epidemia; no Sudão, na década de 1980, entre as 100 mil pessoas que morreram de leishmaniose visceral, a maioria morava em áreas com muitas acácias. O mosquito-palha teria predileção pelo néctar dessas flores.

Nas cidades, a transmissão se torna potencialmente perigosa por causa do grande número de cachorros, que adquirem a infecção e desenvolvem um quadro clínico semelhante ao do homem. Em alguns municípios paulistas a leishmaniose entre cães chega a 20%.

Como o Ministério da Saúde proibiu tratar cães com medicamentos usados em humanos (porque os cães melhoram, mas continuam a transmitir o germe), a alternativa é sacrificar os infectados. Mas a medida não conta com a simpatia dos donos nem dos defensores dos direitos dos animais.

Os médicos precisam estar atentos aos sintomas da leishmaniose visceral, doença que conhecemos mal por julgá-la a caminho da extinção. Sem diagnóstico precoce, a mortalidade pode chegar a 10%.