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Diarioweb (São José do Rio Preto)

Medicina contra o câncer

Publicado em 08 julho 2012

A medicina continua avançando na luta contra o câncer, e pesquisadores de Rio Preto têm dado sua contribuição nesse processo. A novidade é o uso com eficácia da melatonina, um hormônio produzido naturalmente pelo organismo, no combate do câncer de mama.

Os estudos in vitro apontaram que o tratamento com o hormônio em células de tumor de mama – humanas e caninas – pode impedir o crescimento e avanço da doença. A pesquisa abre esperanças para adicionar a melatonina como um adjunto potencial a outros medicamentos para estabilizar o tumor, regredi-lo e vencer o câncer que assusta tantas mulheres.

Os resultados foram possíveis por meio de uma parceria que envolve estudantes e uma docente do Laboratório de Investigação Molecular no Câncer (LIMC), da Faculdade de Medicina de Rio Preto (Famerp), e do programa de pós-graduação em Genética do Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas (Ibilce) da Unesp. Os fomentos para a pesquisa são da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

De acordo com a professora do programa do Ibilce, Débora Zuccari, que também é docente do Departamento de Biologia Molecular da Famerp e coordenadora do LIMC, o estudo com a melatonina, que teve início há cerca de um ano, começou após se observar que os níveis desse hormônio estavam baixos em pacientes com câncer de mama.

As evidências aumentaram ao notar que a melatonina está relacionada ao estrogênio, o hormônio feminino, mais ativo na puberdade. Na queda do estrogênio, consequentemente, houve a diminuição da ação da melatonina como efeito protetor do organismo.

“Concluiu-se que, das funções existentes da melatonina – sendo uma delas o controle do ciclo dia e noite –, ela poderia ser usada como ação benéfica em terapias auxiliares do combate do câncer. Decidimos estudar uma forma que ainda não havia sido explorada”, informa a pesquisadora.


Estudo iniciou com cultivo de ‘células mamárias’

O estudo teve início com o cultivo em laboratório de células de neoplasia mamária, ou seja, amostras extraídas de tumores de mama da mulher. Mas para isso foi preciso entender e criar uma situação similar ao que ocorre no organismo humano.

Quando essas células estão no organismo vivo, elas crescem até um determinado tamanho, mas acaba faltando espaço e oxigênio para continuar o avanço. O crescimento descontrolado das células e a falta de nutrição levam a célula maligna a ativar genes capazes de produzir novos vasos sanguíneos para conseguir o alimento que necessita para não morrer.

“É esse avanço sem coordenação que possibilita a criação de estruturas uma em cima das outras do tumor, o que causa o comprometimento dos órgãos e até a vida do paciente”, explica a pesquisadora e professora Débora Zuccari.

No experimento, dois tipos de células cancerígenas cultivadas foram condicionadas a uma situação de baixo oxigênio, assim como no organismo, para estimulá-las a produzir genes para novos vasos. No entanto, em uma das amostras onde havia a presença da melatonina, foi observado uma estabilização muito satisfatória.

“Nessa fase, entramos com o tratamento da melatonina e, quando as células se depararam com a presença desse hormônio, não conseguiram seguir em frente e a angiogênese foi impedida. É exatamente esse o objetivo quando se trata um tumor: que ele não cresça e regrida. Já é o primeiro passo para o controle da doença”, destaca Débora.


Próxima etapa: camundongos


Duas outras alunas estão dando continuidade ao estudo, aprendendo e colocando em prática a etapa in vivo, ou seja, o experimento com organismos vivos, no caso, em camundongos. O projeto tem uma parceria com o Hospital Henry Ford, nos Estados Unidos, em um laboratório coordenado pelo cientista e professor Ali Arbab, associado do Departamento de Radiologia.

O retorno está previsto para o final do mês de agosto, época que os pesquisadores da Famerp-Ibilce receberão todas as informações da prática do projeto. Assim, vão atestar e registrar os resultados da tecnologia colocada em atividade aqui no Rio Preto.

O desenvolvimento e a paralisação das células tumorais implantadas nos camundongos serão acompanhadas pela equipe por meio de uma espécie de raio-x. Para isso, será implantada nas cobaias uma molécula ligada a um elemento radioativo que possibilitará observar o tumor quando posicionados os camundongos no aparelho de imagem.

A estimativa da professora e pesquisadora Débora Zuccari é que seja necessário aproximadamente mais um ano para finalizar toda a pesquisa, incluindo a publicação do artigo sobre o estudo. Os testes em humanos não têm previsão para ter início, pois o procedimento depende de uma série de autorizações para comprovar a segurança dos voluntários.

A busca da individualização

Existe a possibilidade de novos tratamentos de câncer, de forma individualizada, explica a professora e pesquisadora Débora Zuccari. “Duas pessoas que tenham um mesmo tumor podem ter reações diferentes tanto à agressividade do tumor quanto aos tratamentos, devido provavelmente a um perfil genético diferente”, explica.

Essa pesquisa para identificar os marcadores tumorais também está em andamento na Famerp, o que ajudará a definir quais tratamentos serão efetivos para cada tipo de câncer. A individualização, ainda pouco utilizada, busca ter melhores resultados, evitando situações em que são usados tratamentos agressivos, mas sem resposta de regressão do tumor.