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Diário da Guanabara

Medicamento para artrite pode aumentar aproveitamento de rins para transplante no Brasil (33 notícias)

Publicado em 06 de janeiro de 2026

A longa fila por transplantes de órgãos no Brasil continua sendo um dos grandes desafios da saúde pública. Atualmente, mais de 60 mil pessoas aguardam por um órgão, sendo que quase metade espera por um rim.

Apesar da alta demanda, uma parcela significativa dos órgãos doados acaba não sendo utilizada, o que tem mobilizado pesquisadores em busca de estratégias para ampliar o aproveitamento e reduzir perdas.

Dados de 2024 da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO) indicam que apenas entre 68% e 70% dos rins de doadores falecidos são efetivamente transplantados. O índice revela dificuldades relacionadas à preservação dos órgãos e aos danos inflamatórios sofridos antes do procedimento cirúrgico.

Foi a partir desse cenário que pesquisadores da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp), com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), passaram a investigar o uso do anakinra, medicamento já aprovado pela Anvisa para o tratamento da artrite reumatoide, como alternativa para reduzir a inflamação nos rins doados.

Inflamação e funcionamento tardio do rim

Um dos principais problemas após o transplante renal é a chamada função tardia do enxerto, quando o rim não começa a funcionar imediatamente. Nesses casos, o paciente pode desenvolver uma insuficiência renal aguda temporária, prolongando a internação hospitalar e exigindo sessões de diálise até a recuperação do órgão.

Segundo o nefrologista Mário Abbud-Filho, orientador do estudo, esse quadro está diretamente relacionado ao intenso processo inflamatório que ocorre desde a morte encefálica do doador até o implante do órgão. O estresse inflamatório é agravado pelas condições de preservação e pelo tempo em que o rim permanece fora do corpo.

“A inflamação começa muito cedo, logo após a morte cerebral, e se intensifica durante o período de preservação. Isso compromete a qualidade do órgão e aumenta o risco de complicações após o transplante”, explica o especialista.

Uso do anakinra na preservação dos órgãos

Uma das tecnologias mais avançadas para preservação de rins é a máquina de perfusão, que mantém o órgão irrigado com solução rica em oxigênio e nutrientes até o momento do transplante. Apesar de apresentar bons resultados, o método ainda é pouco difundido no Brasil devido ao alto custo. A maioria dos centros utiliza a preservação estática, em que o rim é mantido em gelo dentro de caixas térmicas.

Diante dessa realidade, os pesquisadores testaram a adição do anakinra durante o processo de perfusão. “A proposta foi usar um medicamento já disponível para proteger melhor o rim nesse intervalo crítico”, afirma a pesquisadora Heloísa Cristina Caldas, bolsista da FAPESP.

Os experimentos foram realizados no University Medical Center Groningen, na Holanda, em parceria com a equipe brasileira. Ao todo, foram analisados 24 rins de suínos, divididos em grupos submetidos a diferentes condições de perfusão, com e sem o uso do medicamento.

Os resultados apontaram redução significativa dos marcadores inflamatórios nos rins tratados com anakinra. De acordo com Ludimila Leite Marzochi, autora principal do estudo, o medicamento foi capaz de modular a resposta inflamatória e melhorar o perfil molecular dos órgãos, sem causar toxicidade ou prejuízo à função renal.

A próxima etapa da pesquisa prevê testes em rins humanos que seriam descartados para transplante, em parceria com um centro de pesquisa no estado de Indiana, nos Estados Unidos. Essa fase deve começar ainda este ano.

Caso os resultados se confirmem, os pesquisadores avaliam a possibilidade de aplicar o anakinra também na preservação estática, método mais utilizado no Brasil. “Se conseguirmos incorporar a droga à solução já empregada hoje, poderemos melhorar a qualidade dos rins sem grandes investimentos em novas tecnologias”, destaca Abbud-Filho.

Para o grupo, o estudo demonstra que o reaproveitamento estratégico de medicamentos já existentes pode gerar avanços importantes na área de transplantes e contribuir para salvar mais vidas, reduzindo o desperdício de órgãos e ampliando as chances de sucesso dos procedimentos.