Pesquisa premiada investiga uso de fármaco já aprovado para ampliar aproveitamento de órgãos
Pesquisadores da Faculdade de Medicina de Rio Preto (Famerp) estão conduzindo um estudo que analisa o uso do anakinra, medicamento já autorizado no Brasil para o tratamento da artrite reumatoide, como alternativa para diminuir processos inflamatórios em rins de doadores falecidos antes do transplante. A proposta é aumentar o número de órgãos viáveis e melhorar o desempenho dos transplantes renais.
A pesquisa conta com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e foi reconhecida como o melhor trabalho científico durante o Congresso Latino-Americano de Transplantes, realizado em outubro de 2025, no Paraguai. O estudo é coordenado pelo nefrologista Prof. Dr. Mário Abbud Filho e pela Profa. Dra. Heloísa Cristina Caldas, docente do programa de pós-graduação da Famerp.
De acordo com os pesquisadores, o projeto surge diante da dificuldade enfrentada pelo sistema brasileiro de transplantes. Atualmente, mais de 30 mil pessoas aguardam por um rim no país. Apesar do avanço na captação de órgãos, uma parcela significativa dos rins de doadores falecidos acaba descartada por não atender a critérios considerados ideais no momento do implante.
Mesmo sendo o transplante a melhor alternativa para pacientes com doença renal crônica, o pós-operatório ainda apresenta desafios. Grande parte dos receptores desenvolve disfunção renal temporária logo após a cirurgia, o que prolonga a necessidade de diálise e aumenta o tempo de internação hospitalar.
Segundo o nefrologista Dr. Abbud Filho, esse problema está diretamente ligado às condições de preservação dos órgãos. O período em que o rim permanece fora do corpo, sob baixas temperaturas e sem oxigenação adequada, favorece reações inflamatórias que comprometem o funcionamento inicial do enxerto. “Trata-se de usar uma droga segura e já incorporada à prática médica para melhorar a condição do órgão antes do implante”, afirma.
Rins provenientes de doadores mais idosos ou com doenças associadas — conhecidos como doadores de critérios estendidos — apresentam risco maior de complicações e, por isso, são frequentemente recusados, mesmo podendo ser utilizados com segurança. A pesquisa busca justamente estratégias para preservar melhor esses órgãos.
Uma das tecnologias mais eficazes para esse fim é a perfusão renal em máquina, que mantém o órgão irrigado com solução oxigenada até o transplante. No entanto, o alto custo ainda limita sua adoção no Brasil. Diante disso, os cientistas avaliaram o potencial do anakinra como uma abordagem farmacológica capaz de reduzir a inflamação mesmo em métodos de preservação mais simples.
Para a Profa. Dra. Heloísa Cristina Caldas, a inflamação começa ainda no doador e pode se intensificar durante o armazenamento do órgão.
“A ideia foi intervir nesse processo antes do transplante, preservando melhor o tecido renal e favorecendo a recuperação do órgão após o transplante”, explica.
O trabalho experimental foi desenvolvido em parceria com a University Medical Center Groningen, nos Países Baixos, utilizando rins de suínos, modelo considerado semelhante ao humano. Os órgãos passaram por diferentes protocolos de perfusão, com e sem o uso do medicamento, sob temperaturas controladas.
Os resultados apontaram redução significativa de marcadores inflamatórios nos rins tratados com anakinra, sem sinais de toxicidade ou danos estruturais. Segundo a pesquisadora Ludimila Leite Marzochi, autora principal do estudo, os dados indicam que é possível modular a resposta inflamatória do órgão antes do transplante.
A próxima fase prevê testes em rins humanos que foram descartados para transplante, em parceria com um centro de pesquisa nos Estados Unidos. A expectativa é avançar para aplicações mais próximas da prática clínica.
Caso os resultados se confirmem, os pesquisadores avaliam que o medicamento poderá ser incorporado inclusive ao método tradicional de preservação estática, utilizado na maioria dos centros transplantadores do país, ampliando o aproveitamento dos órgãos sem exigir grandes investimentos em infraestrutura.