Notícia

Vencer

Me dá um dinheiro aí?

Publicado em 01 abril 2005

Uma das práticas mais comuns no mundo do empreendedorismo nos Estados Unidos é o investimento de risco, ou seja, a comunhão entre os interesses de quem, de um lado quer montar um negócio novo, mas não tem capital, e de outro, de quem tem capital e quer financiar e lucrar com novos negócios. Trata-se de uma indústria forte, que existe desde o início do século passado e que financiou enorme parte da economia americana. Da Ford, nos anos 1920/30, à Microsoft, chegando mais recentemente a empresas como a Google e a e-BAY, para ficar em poucos exemplos.
Existe naquele país uma compreensão sobre quais são os papéis de cada um dos players (empreendedor e investidor), uma tradição por transparência no mundo dos negócios (sem exagerarmos as Enrons provaram que nem sempre e bem assim) e, acima de tudo, um ciclo econômico muito virtuoso: há investidores, há empresas médias que compram empresas pequenas, há empresas grandes que compram muitas empresas, há um mercado de capitais forte e ativo e, além disso tudo, essas coisas acontecem na maior economia do mundo — o que faz uma enorme diferença.
Em terras tupiniquins, por sua vez, as coisas não são bem assim. A começar pelo fato de o nosso mercado de capitais ainda ser muito incipiente — há bons sinais de melhoras nos últimos tempos — e, portanto, a cadeia de "saídas" (oportunidades de ganhos para os investidores) ser extremamente limitada. Estamos evoluindo, mas ainda há um caminho enorme pela frente.
Em uma pesquisa recente com mais de 2 mil estudantes no Brasil e em todos os estudos do Sebrae, notamos que a falta de capital é um dos fatores que mais dificulta o crescimento do empreendedorismo. Por isso, resolvemos conversar com alguns especialistas para entender melhor como estamos nessa área, onde existem as oportunidades para os empreendedores e quais as dicas que sugerem para quem está atrás de capital de risco para o seu negócio. Veja os depoimentos de cada um:

Michael I. Barczinski
O que há no mercado
As empresas que buscam introduzir inovações no mercado enfrentam uma falta de capital financeiro. De um lado existem subsídios governamentais para projetos de pesquisa que geram inovação, por outro, há recursos de instituições financeiras e do mercado de capitais para empresas mais consolidadas, seja sob a forma de empréstimo, seja sob a forma de aportes financeiros em troca de participações societárias. No intervalo entre esses dois extremos, onde se situam os empreendimentos nascentes, existe um vazio.
Os investidores individuais, denominados "anjos", constituem a principal fonte de capital de risco para os negócios nascentes. O "capital anjo" é considerado como "semente competente", pois combina duas formas de capital que são críticas nos estágios iniciais de desenvolvimento de novos negócios: o financeiro, de risco, e o humano, de investidores individuais experientes.
O capital humano é, por vezes, mais importante que o financeiro, uma vez que inclui importantes ativos intangíveis pertencentes ao investidor, que são repassados ao novo empreendimento, como o conhecimento técnico e a experiência profissional deste investidor, bem como a credibilidade pessoal e a rede de relacionamentos (networking) dele.
Esse capital competente possui uma função bem definida, isto é, sua aplicação é efetuada em doses suficientes para levar a nova empresa a um patamar de desenvolvimento subseqüente, que possibilite seu crescimento auto-sustentado, ou que venha atrair os investidores profissionais (Fundos de Capital de Risco - Venture Capital Funds, num primeiro momento e Equity Funds, posteriormente), gerando uma expansão mais acelerada e abrangente da empresa. Além disso, cria o momento de desinvestimento para o "investidor anjo".

Há dinheiro?
Atualmente há recursos financeiros para empreendimentos nascentes. Tais aportes situam-se; tipicamente, ao redor de R$ 500 mil por investimento, podendo chegar a um máximo de R$ 1 milhão, dependendo do negócio. Os tipos de empreendimento mais procurados pelos investidores de capital de risco são aqueles que venham introduzir algum componente de inovação, por meio de um novo produto com potencial de substituir algo. Isso pode ocorrer para minimizar a relação custo-benefício de seu respectivo consumidor ou por um processo inovador que traga algum componente de valor a seu usuário.

Condições
Além dos "investidores anjos", podem-se obter recursos com associações, como é o caso da Gávea Angels. Existem ainda Fundos de Capital Semente, constituídos basicamente a partir de recursos disponibilizados pela Finep — Financiadora de Estudos e Projetos, porém tais fundos normalmente investem em empresas que já passaram por seu start-up.

Dicas
O empreendedor deverá possuir um perfeito conhecimento e domínio de sua atividade. Isso poderá ser comprovado por um plano de negócios conciso, completo, de fácil comunicação a terceiros e que reflita, de forma realista e clara, o empreendimento em si, o mercado em que está inserido, seus principais concorrentes, fornecedores e equipe de gestão. Além disso, deve informar a etapa em que o negócio se encontra, o que planeja para curto, médio e longo prazo, as ações delineadas para atingir as metas estabelecidas e quais os resultados esperados. O empreendedor também deverá estar aberto a aconselhamentos e participação ativa de terceiros em seu negócio, de forma a obter o melhor proveito da sinergia assim criada.
É importante estabelecer contatos junto a entidades fomentadoras de empreendedorismo como Sebrae, Finep (Venture Fóruns), incubadoras de empresas, Endeavor, Associação Brasileira de Capital de Risco (ABCR) e Gávea Angels.

O que acontece na prática
Como associado e membro do Conselho Diretor e do Comitê de Operações da Gávea Angels, tenho acompanhado várias situações em que empreendedores nascentes buscam recursos para desenvolver seus negócios. Tipicamente, tais empreendedores passam por um processo que consiste nos seguintes passos:
1. Apresentação inicial perante um grupo reduzido de "investidores anjos", que efetua uma primeira avaliação do negócio.
2. Caso a avaliação inicial seja positiva, o empreendedor é orientado no sentido de preparar uma apresentação formal para o universo de "investidores anjos" que integra a Gávea Angels.
3. Após essa apresentação formal, constitui-se um grupo de "investidores anjos" interessados no empreendimento e que estabelecem, diretamente com o empreendedor, as bases para o respectivo investimento.
Michael I. Barczinski, integrante do Conselho Diretor, da Gávea Angels

Marcelo Nakagawa
O que há no mercado
Certa vez, questionado sobre fontes de recursos financeiros, Sam Walton, fundador da Wal Mart, disparou: "O capital não é escasso, a visão é". Aí os candidatos a empreendedores de plantão param e pensam: "É muito fácil para um Sam Walton da vida, um dos sujeitos mais ricos e vitoriosos da história da humanidade, falar uma coisa dessas. Mas eu, o Zé Ninguém?"
Mas por incrível que pareça, a tal frase do Walton é válida, não só para os Estados Unidos como também para o Brasil. Exemplos? Veja o caso do Programa de Inovação em Pequenas Empresas (Pipe) da Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado São Paulo (Fapesp). O Pipe, em suas três fases, chega a investir até R$ 1,5 milhão, além de possibilitar o pagamento de bolsistas, em pequenas empresas que contemplem a inovação. Tudo isso em recursos não reembolsáveis.
É um dos programas de apoio à pequena empresa inovadora mais modernos do mundo e a cada chamada (março, junho e novembro) aparecem uns poucos gatos-pingados interessados. Outro exemplo: o BNDES criou um programa chamado Prosoft para apoiar a expansão de empresas de software brasileiras por meio de um empréstimo com taxas abaixo do praticado no mercado. Quase que o programa não é renovado porque a primeira versão não conseguiu distribuir todo o dinheiro por falta de projetos.

Há dinheiro?
Em uma classificação rápida e simples, há quatro tipos de fontes de recursos. A primeira é o próprio capital do empreendedor. Investimentos financeiros, imóveis, automóveis, cartão de crédito... Steve Jobs e Steve Wozniac venderam, respectivamente, uma Kombi e uma calculadora científica para fundar a Apple.
A segunda saída é pedir emprestado. A fonte do "fio do bigode", também conhecida como Amigos, Família e Tolos (do inglês Friends, Family and Fools), em que o empreendedor passa o pires entre os conhecidos, é a fonte de recursos mais próxima da realidade do empreendedor, e por essa razão é a mais pulverizada. Cabe a ele sair procurando alguém que queira investir no seu negócio só porque gosta de você ou acredita no seu potencial. Só com um exemplo inspirador, Sam Walton descolou US$ 25 mil do seu sogro para abrir a sua primeira lojinha.
Outra opção é pegar emprestado. Uma boa referência, apesar de defasado, é a publicação Instrumentos de Apoio ao Setor Produtivo, disponibilizada gratuitamente no site do Ministério da Fazenda. Nela é possível encontrar um resumo das linhas de empréstimo e fomento disponíveis a empreendedores. Para empresas em São Paulo, por exemplo, existem linhas interessantes como o Pipe da Fapesp, e uma versão semelhante da Finep, a Pappe, para empresas de outros estados, além de entidades que apóiam iniciativas empreendedoras.
A quarta via são aqueles investidores que entram no barco com você: os capitalistas de risco. Mas antes de pensar nesse tipo de investimento é importante conhecer mais deste mundo. Sites como o da Associação Brasileira de Capital de Risco (www.abcr-venture.com.br) ou Portal do Capital de Risco da Finep (www.venturecapital.com.br) oferecem um ótimo acervo sobre o funcionamento do capital de risco. No site da ONG Instituto Empreender Endeavor sempre há uma lista atualizada com todos os principais investidores de risco que atuam no Brasil e dados de contato.

Condições
Se a primeira parte da frase de Walton "Capital não é escasso" é válida, a segunda parte "a visão é [escassa]" é mais válida ainda. Investimento demanda retorno e o investidor sempre terá interesse em investir em um negócio visionário e rentável, estruturado ou em processo de estruturação, para atingir as metas, e gerido por empreendedores competentes.
Mas ser tudo isso não é o suficiente. É necessário destacar todas essas qualidades observando o processo de avaliação do investidor. O plano de negócios é um dos principais documentos analisados.

Dicas
Quem busca capital precisa conhecer bem antes o processo de investimento, a expectativa real do investidor, as pessoas que farão parte da análise e quem toma a decisão final.
Muitos empreendedores tendem a não notar as falhas ou limitações do seu negócio. Daí a importância de o empreendedor assumir o papel do investidor e analisar criticamente todas as etapas do processo.
O empreendedor deve atentar-se para o fato que buscar investimento é um processo de compra e venda. Ele vende uma idéia ou um negócio e o investidor compra, pagando em dinheiro. Portanto, buscar investimento é um processo de persuasão.
A abordagem mais conhecida da persuasão é a AIDA, sigla de Atenção, Interesse, Desejo e Ação, que vale para a propaganda, para a venda portara porta e para buscar recursos. Nesse último caso, o empreendedor deve atrair a atenção do investidor esclarecendo uma oportunidade ou um problema que os clientes pagariam para ser resolvido. O interesse do investidor deve ser obtido por meio da explicação de como o negócio pode capturar a oportunidade ou solucionar o problema. Por fim, a ação deve se concentrar nos próximos passos a serem tomados no processo de negociação.
Na busca de investimento, a ajuda de especialistas pode ser determinante para o sucesso. Vários consultores podem acreditar no negócio e trabalhar por meio de um contrato de risco, ou seja, se o empreendedor receber o investimento, o consultor é pago. Ou negocia-se um pagamento anterior de 10% a 20% do preço da consultoria e o restante é pago se a negociação for fechada.
Marcelo Nakagawa, Gerente de Pesquisas da Eccelera e professor de Empreendimento da Fundação Vanzolini, em São Paulo