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Diário da Saúde

Material bioativo tem múltiplas aplicações médicas imediatas

Publicado em 24 junho 2019

Por Elton Alisson, de São Carlos  |  Agência FAPESP

Pesquisadores desenvolveram uma técnica mais simples e mais barata para obter material à base de vidro, que pode ser usado em próteses oculares, no tratamento da sensibilidade nos dentes e em várias outras aplicações.

Próteses oculares, ossículos artificiais do ouvido, tratamento da sensibilidade nos dentes, entre outras diversas outras soluções médicas, com menos rejeição do que outros implantes artificiais e estimulando a regeneração de tecidos ósseos.

Essas são as aplicações e vantagens de um material vitrocerâmico desenvolvido por pesquisadores do Centro de Pesquisa, Educação e Inovação em Vidros (CeRTEV), em São Carlos (SP), em colaboração com equipes da Universidade de Pádua (Itália), da Universidade do Estado da Pensilvânia (Estados Unidos) e do Centro Nacional de Pesquisa (Egito).

"O estudo está na vanguarda da pesquisa e desenvolvimento e fornece novas ideias para melhorar e tornar mais sustentável a fabricação de materiais vitrocerâmicos para aplicações biomédicas", disse Jonathon Foreman, editor da JACS, onde o artigo descrevendo o desenvolvimento foi publicado.

Biossilicato

A partir de resinas de silicone comerciais baratas, carbonatos de cálcio e de sódio e fosfato de sódio, os pesquisadores conseguiram produzir composições semelhantes às do biossilicato.

Esse material, desenvolvido na década de 1990 no próprio CeRTEV, patenteado e licenciado para uma empresa, é produzido hoje nas formas de pó, de grânulos, de estruturas de suporte macroporosas para enxerto ósseo, de fibras ou como peças únicas (monolíticas) pela tecnologia convencional de fabricação de vitrocerâmica.

O método tradicional para produzir o biossilicato consiste na cristalização controlada de um vidro especial por meio de tratamentos térmicos. Mas o resultado é um produto muito frágil.

"Por meio da cristalização controlada de um biovidro conseguimos produzir o biossilicato que, além de ter alta resistência mecânica, é usinável, bioativo e bactericida," contou Edgar Dutra Zanotto, professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e coordenador do CeRTEV.

Ao entrar em contato com fluidos corporais, como a saliva e o plasma sanguíneo, o biossilicato sofre reações que levam à formação em sua superfície de uma camada de hidroxicarbonato apatita (HCA) - composto quimicamente semelhante à fase mineral dos ossos. Dessa forma, o material vitrocerâmico bioativo tem a capacidade de aderir a ossos, dentes e até mesmo cartilagens, além de estimular a regeneração do tecido ósseo.

Olho de vidro

Uma das aplicações mais recentes do biossilicato é em implantes intraorbitais, conhecidos popularmente como "olhos de vidro". Como o biossilicato é bioativo, os implantes intraorbitais feitos à base do material vitrocerâmico aderem aos tecidos circundantes ao olho do paciente.

"Com isso, o implante adquire a mesma mobilidade do olho não danificado, além de ser bactericida, minimizando o risco de infeção," explicou Zanotto.

De acordo com o pesquisador, o material usado em próteses oculares comuns foi proibido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

"Há um mercado enorme no Brasil para o implante ocular que desenvolvemos. Já negociamos o licenciamento do material para uma empresa, que está aguardando a autorização da Anvisa para comercializá-lo," disse Zanotto.