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Máscara respiratória reduz os efeitos da poluição no coração

Publicado em 26 fevereiro 2016

Por Elton Alisson, da Agência FAPESP

As máscaras com filtro respiratório – corriqueiramente usadas em países como China e Japão – podem também auxiliar pessoas com insuficiência cardíaca a minimizar os impactos da poluição no coração quando circulam em horários de pico de trânsito em cidades como São Paulo.

No caso de pessoas saudáveis, o uso da máscara de proteção pode contribuir para reduzir os riscos de desenvolverem doenças cardiovasculares.

As constatações são de um estudo realizado por pesquisadores do Núcleo de Insuficiência Cardíaca do Instituto do Coração (Incor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).

Resultado de uma pesquisa realizada com apoio da FAPESP, as descobertas foram descritas em um artigo publicado na edição de janeiro da revista JAAC: Heart Failure e destacadas no editorial da publicação, da American College of Cardiology (ACC).

“O estudo mostra, pela primeira vez, a possibilidade de intervir de forma simples, barata e eficiente em uma situação de risco para pacientes com insuficiência cardíaca pela exposição à poluição do ar pelo tráfego de veículos nas cidades”, disse Edimar Alcides Bocchi, diretor do Núcleo de Insuficiência Cardíaca do Incor e coordenador do projeto, à Agência FAPESP.

“Essa medida de intervenção pode ter efeitos benéficos na saúde pública e reduzir a mortalidade causada por doenças cardiovasculares”, estimou o pesquisador, que também é professor do Departamento de Cardiopneumologia da FMUSP.

De acordo com Bocchi, a poluição atmosférica gerada pelo tráfego de automóveis passou a ser considerada recentemente como um fator de risco para o desenvolvimento de doenças coronárias e eventos cardiovasculares adversos, como isquemia e infarto agudo do miocárdio, pela capacidade do material particulado fino tóxico expelido pelos veículos penetrar nas vias aéreas.

A maior parte dos estudos realizados até então, contudo, foi voltado a avaliar os efeitos da poluição do ar em pacientes que sofreram infarto do miocárdio, diabetes e síndrome metabólica.

Ainda não tinham sido realizados estudos com pacientes em outras condições cardiovasculares, como os com insuficiência cardíaca – caracterizada pela incapacidade do coração de bombear sangue em volumes adequados para atender às necessidades de oxigênio e nutrientes do organismo.

A fim de avaliar os efeitos da poluição em pacientes nessa condição, que representa 10,8% das causas de mortes no Brasil e o principal fator de internação por doenças cardiorrespiratórias no Sistema Único de Saúde (SUS), os pesquisadores fizeram um estudo em que expuseram à poluição controlada 26 pacientes com insuficiência cardíaca atendidos pelo Núcleo de Insuficiência Cardíaca do Incor e 15 voluntários sem doenças cardiovasculares.

Os participantes do estudo, realizado em colaboração com o Laboratório de Poluição Experimental da FMUSP, foram expostos a três níveis diferentes de qualidade do ar em repouso (durante 15 minutos) e caminhando sobre uma esteira durante seis minutos a uma velocidade fácil, mas moderadamente cansativa.

Em um primeiro experimento, eles receberam diretamente por meio de um bocal ar puro obtido a partir de cilindros de ar comprimido.

Já no segundo experimento foram expostos a ar poluído não filtrado, obtido a partir de uma mistura de ar puro com gases do escapamento de um motor a diesel com concentração de material particulado de 300 microgramas por metro cúbico – equivalente à metade da concentração de material particulado no ar em São Paulo durante a maior parte do ano, conforme medições feitas pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb).

No terceiro experimento os participantes inalaram ar poluído, mas protegidos por uma máscara com filtro respiratório, como as usadas por profissionais da área da saúde e comercializadas em farmácias.

Durante os três experimentos os pesquisadores avaliaram a função endotelial – a dilatação dos vasos sanguíneos mediada por uma camada de células (o endotélio) que reveste a parte interna dos vasos e responsável pelo equilíbrio vascular e a coagulação sanguínea –, a variabilidade da frequência cardíaca e marcadores biológicos, como o BNP (sigla em inglês de Peptídeo Natriurético tipo-B), dos participantes.

Os resultados das análises dos três experimentos indicaram que a exposição ao ar poluído provocou um aumento do BNP – que é um hormônio produzido no miocárdio (músculo cardíaco) dos átrios e ventrículos que auxilia o coração a bombear melhor o sangue e um indicador de insuficiência cardíaca – e piorou a função endotelial dos participantes do estudo.

Em contrapartida, o uso da máscara com filtro respiratório ao inalar ar poluído causou uma diminuição da dosagem de BNP e melhora na função endotelial.

“A descoberta de que o uso da máscara com filtro ao ser exposto ao ar poluído diminuiu a concentração de BNP nos pacientes em um curto período de duração dos experimentos nos surpreendeu”, afirmou Jefferson Luís Vieira, autor do estudo realizado durante sua pesquisa de doutorado orientada por Bocchi.

“A concentração de BNP dos pacientes subiu significativamente durante os 21 minutos de exposição ao ar poluído e caiu para a mesma faixa basal [sem inalação do ar poluído] quando foi usada a máscara com filtro”, afirmou Vieira, que é o primeiro autor do artigo.

Solução barata

De acordo com os pesquisadores, os resultados do estudo sugerem que o uso da máscara com filtro pode ser especialmente benéfico para pessoas com insuficiência cardíaca expostas de forma recorrente à poluição do ar por automóveis, como motoristas de ônibus, taxistas, agentes de trânsito, policiais e frentistas.

Mas, além desse grupo, também pode beneficiar pessoas que não têm insuficiência cardíaca pelo fato de a máscara com filtro proteger contra a disfunção endotelial, considerada um fator de risco para o desenvolvimento de doenças coronarianas.

“A máscara com filtro pode ser uma solução muito barata para prevenir o desenvolvimento de insuficiência cardíaca, que é uma doença que está se tornando cada vez mais cara para ser tratada, uma vez que os pacientes são internados várias vezes, requerem terapias que permitem uma sobrevida de, no máximo, oito anos e soluções custosas, como transplantes ou dispositivos de assistência cardíaca mecânicos”, disse Bocchi.

O artigo “Respiratory filter reduces the cardiovascular effects associated with diesel exhaust exposure – a randomized, prospective, double-blind, controlled study of heart failure: the filter-HF trial” (doi: 10.1016/j.jchf.2015.07.018), de Vieira e outros, pode ser lido por assinantes da revista JAAC: Heart Failure em http://heartfailure.onlinejacc.org/article.aspx?articleID=2479141.