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Marx na América: a práxis de Caio Prado e Mariátegui

Publicado em 02 novembro 2021

Por Maria T F Ribeiro

Do A Terra É Redonda, 02 de Novembro 2021

Por PAULO ALVES JUNIOR*

Imagem: Wifredo Lam (1902-1982)

Comentário sobre o livro de Yuri Martins-Fontes

Em 2020, completaram-se 90 anos sem José Carlos Mariátegui e 30 anos sem Caio Prado Jr., mas o contexto de exceção da pandemia não favoreceu comemorações que reavivassem, no âmbito das novas gerações, as imprescindíveis ideias e análises destes que figuram entre os maiores marxistas latino-americanos. Nesse contexto, cabe saudar a nova edição do livro de Yuri Martins-Fontes.

Marx na América: a práxis de Caio Prado e Mariátegui traz um panorama da formação e obra de ambos os marxistas, analisando tanto suas contribuições à historiografia, com foco na questão nacional, quanto os aportes à filosofia em sentido estrito, apresentando suas perspectivas sobre princípios centrais do marxismo.

No difícil e conturbado cenário contemporâneo, temos observado na América Latina um profundo retrocesso em relação às possibilidades de melhoria das condições de vida da classe trabalhadora. Da desesperança com os governos “progressistas”, aos limites impostos à “ordem democrática” – devido a eleições de representantes da extrema-direita –, não surge no horizonte próximo uma sociedade mais justa e humana.

O cenário não parece animador. Todavia, para recuperarmos o limiar progressista, que nos auxilie a encontrar os rumos de uma mudança social, é necessário dialogarmos com intelectuais que, com pena crítica, foram os responsáveis por mostrar como em Nuestra América os interesses dos desenraizados podem ser observados e colocados como primado de toda ação humana. Entre esses intelectuais, Caio Prado Júnior e José Carlos Mariátegui têm lugar de destaque.

Dessa forma, Marx na América nos auxilia a vislumbrar alguns caminhos possíveis. Sem hesitação, a obra tem “filosofia da práxis” saindo pelos poros, decorrente, sobretudo, da verve crítica do autor, Yuri Martins-Fontes, que nos apresenta uma leitura apurada desses dois grandes intelectuais. Estão impressas em suas páginas o apreço pelo pensamento crítico e revolucionário; o conhecimento profundo do marxismo e da filosofia, permeados por um tratamento leve e adequado do vernáculo – o que nos proporciona flanar sobre dois verdadeiros exegetas da Revolução latino-americana.

É notória a importância de Caio Prado Júnior (1907-1990) e de José Carlos Mariátegui (1892-1937) para a formação do pensamento revolucionário na América Latina.

A respeito de Caio Prado, herdeiro de rica família de proprietários de terra, o livro nos apresenta como o marxismo é, para o pensador brasileiro, a grande força que “consiste em favorecer a possibilidade de intervenção humana na História”. É esse intérprete do Brasil quem realiza a primeira e expressiva interpretação de processos históricos do país, escorado na tradição marxista: seja em Evolução política do Brasil (1933), uma singular leitura da consolidação histórico-social-econômica do país; seja em sua obra de maior impacto, Formação do Brasil contemporâneo (1942); ou mesmo em História econômica do Brasil (1945); além do acerto de contas com as interpretações do processo revolucionário brasileiro, sistematizado em A Revolução Brasileira (1966), em que ele destaca os “equívocos por parte do PC soviético”, especialmente o “dogmatismo” resultante do stalinismo.

Tais obras estão todas devidamente explicadas e inseridas na discussão nuclear do texto de Yuri Martins-Fontes, ou seja: a filosofia da práxis como método de interpretação da realidade latino-americana.

Já com José Carlos Mariátegui, a profundidade de análise do autor não fica atrás. Recupera as argumentações de obras em que caracteriza a peculiaridade de seu pensamento: um “romantismo socialista”, em oposição à “modernidade desumanizada”. Trata-se da procura de uma energia revolucionária, encontrada – aos moldes do socialismo bolchevique vitorioso em 1917 – numa perspectiva que Yuri denomina “romântico-realista”: criativa, inovadora, e que engendra novos “mitos” (concretos, libertários) que possam fortalecer a ação emancipatória indo-americana.

Nesse sentido, a obra clássica mariateguiana Sete ensaios de interpretação da realidade peruana (1928) é essencial. Sua apreciação rompe com a tentativa de tratar “mecanicamente” a realidade do continente – fruto dos tropeços teóricos do VI Congresso do Partido Comunista da União Soviética, em março de 1920, que atingiu os países na América Latina no que diz respeito à interpretação das questões nacionais. Mariátegui torna-se socialista por volta de 1919; toma contato com o marxismo durante sua estadia na Europa (1920-1923); ao retornar, inicialmente, se aproxima ao movimento operário embrionário no Peru; e em 1926 funda a impactante revista Amauta.

Os dois pensadores tratados no texto de Yuri são críticos tanto da passividade parlamentar da Segunda Internacional (de linha social-democrata), como do enrijecimento do comunismo da Terceira Internacional, após a morte de Lênin (o que culminaria com o stalinismo). A questão que ambos colocam como central é a de desvendar o caráter próprio, peculiar, da Revolução Latino-Americana.

Tematizando a respeito da realidade de seus países, em um viés que se opõe às análises eurocêntricas que então predominavam no pensamento marxista, Caio Prado e Mariátegui convergem em várias de suas conclusões, como no tocante ao caráter incompleto das revoluções nacionais de seus países – realizadas “pelo alto”, interrompidas.

Refutam a ideia de que na América Latina a evolução histórica e política devesse ser similar à da Europa Ocidental – que era, até então, o modelo padrão de muitas das análises econômicas e político-revolucionárias. De acordo com estas interpretações marcadas pelo eurocentrismo, nossos países, antes de se dedicarem a promover a revolução socialista, deveriam ter de eliminar supostos elementos “feudais”; e isto se daria mediante uma prévia passagem pelo regime capitalista, processo que implicaria na necessidade de submissas alianças dos trabalhadores com a burguesia (contra a chamada “aristocracia rural”).

Contrários a essa orientação estratégica que prevalecia, ambos explanam de modo bastante coincidente que a burguesia latino-americana nunca foi “nacional”: nunca se identificou com seu povo, nem se preocupou com a formação e emancipação da nação; pelo contrário, nossas elites sempre foram aliadas subalternas do capital internacional.

Caio Prado demonstra, mediante detalhada análise teórica e empírica, que não cabem para o Brasil interpretações como as que apontavam para a existência de uma versão local do feudalismo europeu. Mariátegui traz à baila dos debates comunistas a centralidade que a população camponesa (sobretudo os indígenas, no caso andino) detém no processo de emancipação nacional.

A consequência política dessas análises é a de que os trabalhadores não podem se aliar à classe burguesa, nem a ela confiar a condução do processo revolucionário – como previam as então majoritárias teses do etapismo e do aliancismo.

Interpretar com precisão a realidade, para transformá-la

O que Marx na América nos mostra de forma contundente é que ambos os pensadores refutaram as leituras mecanicistas a respeito de suas sociedades: não deve haver nas análises marxistas meras transposições teóricas, mas sempre interpretações mediadas pelas próprias realidades históricas.

Dentre as particularidades dos intelectuais revolucionários investigados por Yuri Martins-Fontes, o viço que os aproxima é a “questão nacional” na América Latina, tema que aparece como corrente na obra ora resenhada. Se no primeiro e segundo capítulo o autor procura historicizar o tema, apresentando a formação teórica, política e a obra dos dois marxistas, no terceiro e quarto, o destaque fica para a questão do método (primeiro em corte teórico-historiográfico, e depois filosófico).

Isto amplia o horizonte da obra de Martins-Fontes que, para além de Prado e Mariátegui – e claro, dos próprios Marx e Engels – dialoga com Lênin, Lukács, Gramsci, Florestan Fernandes e mesmo István Mészáros, entre outros: grandes pensadores que desenvolveram o materialismo-histórico, que tomaram a tradição marxiana como “pedra de toque” de suas incursões sobre a teoria social.

Longe de defender uma cantilena universitária, primada hoje pela assepsia teórica, temos no livro não somente um expediente reduzido ao linguístico, mas uma concepção que busca assimilar a unidade entre a teoria e a prática.

Assim, a “filosofia da práxis” desenvolvida por Yuri Martins-Fontes não tem meramente a função de dar lustro academicista ao livro, mas sim de inseri-lo na tradição que remonta à 11ª Tese sobre Feuerbach, em que Marx sentencia: “Os filósofos apenas interpretaram o mundo de diferentes maneiras; porém, o que importa é transformá-lo” (em A ideologia alemã).

Segundo a filosofia da práxis, a reflexão não pode se desconectar da realidade do ser; se assim o fizer, corre o risco de cair no vale sinistro da abstração sem sentido. Sabendo do riscado, o filósofo da práxis não deixa margem a falhas interpretativas no que diz respeito ao caráter revolucionário dos autores estudados:

Em seu processo interpretativo histórico, utilizaram-se com sofisticação da metodologia dialética – na avaliação da perene relação conflitiva do todo. Visando captar a totalidade social concreta, ampliaram a análise dialética marxista, de maneira a abarcar um amplo leque de perspectivas do conhecimento (história, economia, geografia, sociologia, psicologia). Transpuseram assim as herméticas especialidades que desviam o conhecimento de seus fins e reduzem o indivíduo contemporâneo – alijando-o da crítica universalizante e do protagonismo histórico (Marx na América, p. 320).

O uso do marxismo para a apreciação da realidade latino-americana propicia a superação das limitações analíticas apontadas por Yuri Martins-Fontes: o hermetismo e o reducionismo. Isso porque a unidade dialética entre o específico e universal, que aproxima Caio Prado e Mariátegui, traz com vigor a possibilidade de interpretações revolucionárias da sociedade.

Dessa forma, não é acidental que a maioria dos pensadores que versam dessa posição metodológica cheguem à seguinte conclusão: a Revolução na América Latina será socialista, ou não será (M. Löwy, Marxismo na América Latina).

Obra fundamental para o avanço dos estudos marxistas na América Latina, com leitura fácil e agradável, Yuri Martins-Fontes entra no grupo de intelectuais que apontam para um caminho de estudos dos mais refinados intelectualmente.

Dito isso cabe aqui uma ressalva: o autor poderia propiciar ao leitor – quem sabe agora, na segunda edição da obra – uma cronologia de ambos os teóricos ao final do volume, o que auxiliaria futuros pesquisadores do tema no processo de comparação; não apenas no cotejamento entre Caio Prado e Mariátegui, mas também entre aqueles tantos que recorrem ao pensamento radical latino-americano para identificar a chave heurística que poderá nos propiciar a seiva que trará Nuestra América para seu caminho na história da humanidade: lugar de primazia para o “assalto ao céu”.

Aqueles que lerem Marx na América irão conhecer com riqueza de detalhes conceituais e históricos a trajetória de dois grandes pensadores de nossa “Pátria Grande”. E compreender por que o autor considera que com Marx “dá-se a entrada efetiva da consciência na história da humanidade”.

*Paulo Alves Junior é professor de história da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab-BA).

Referência

Yuri Martins-Fontes. Marx na América: a práxis de Caio Prado e Mariátegui. São Paulo, Alameda/Fapesp, 2018.

 

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