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Diário de Marília online

Mariliense desenvolve kit revolucionário para o diagnóstico de retrovírus que pode ser fatal

Publicado em 10 fevereiro 2013

O Diário Entrevista desta semana conversou com o pesquisador mariliense Maurício Cristiano Rocha Júnior, especialista em Biologia Molecular e doutorando pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto - USP. Há mais de quatro anos o pesquisador vem se dedicando ao desenvolvimento - hoje em fase final - de um kit revolucionário para o diagnóstico molecular preciso e confirmatório do HTLV, um retrovírus pouco conhecido da mesma família do HIV, que está ligado a doenças como a leucemia de células T do adulto (ATLL) e também a um processo degenerativo que provoca a progressiva paralisia dos membros inferiores, e que com o passar do tempo leva o paciente à cadeira de rodas.

Testes preliminares já apontam que o kit desenvolvido em Ribeirão Preto pelo pesquisador mariliense é mais eficaz que o chamado Western Blot, único disponível hoje a nível mundial e que além de caro apresenta alto grau de imprecisão.

Vale ressaltar que o estudo em terras brasileiras faz-se ainda mais importante, tendo em vista que o país é o que concentra o maior número de infectados do mundo, sendo que a grande maioria sequer sabe que porta o retrovírus, que pode ser fatal.

Qual o objetivo central da sua pesquisa? Qual o grande diferencial e como despertou o interesse pelo assunto?

O objetivo central da pesquisa é desenvolver um kit comercial de diagnóstico molecular para o diagnóstico confirmatório da infecção causada pelo Vírus Linfotrópico de Células T humana, conhecido como HTLV. O desenvolvimento desta tecnologia é referente ao meu trabalho de doutorado. Desde 1993, os hemocentros do Brasil fazem um exame para detectar o HTLV em todos os doadores de sangue e em caso de resultado positivo ou indeterminado alguns centros realizam o teste confirmatório Western Blot, o qual não é obrigatório. Este teste é importado e custa cerca de R$ 170. Além do elevado preço, este teste apresenta elevado número de resultados indeterminados, o que prejudica a conclusão segura do diagnóstico. Diante deste panorama, eu, juntamente com minha orientadora, a pesquisadora professora Simone Kashima Haddad (pesquisadora do Hemocentro de Ribeirão Preto), decidimos investir em um diagnóstico mais eficiente e com um custo menor. Desta forma, estamos desenvolvendo há 4 anos e meio um kit molecular confirmatório para o diagnóstico da infecção causada pelo HTLV. Os testes preliminares têm demonstrado maior eficiência que o teste de Western Blot e custo de aproximadamente R$ 10. Além disso, o teste em desenvolvimento pela nossa instituição, por se tratar de um método molecular, possibilitará a redução da janela imunológica que hoje varia de 36 a 72 dias. Assim, este teste será o primeiro teste molecular comercial disponível para o diagnóstico confirmatório da infecção pelo HTLV, que além de mais sensível terá o preço de aproximadamente 6% do Western Blot.

Onde é realizado o Projeto?

O projeto é realizado no Hemocentro de Ribeirão Preto, dirigido pelo professor doutor Dimas Tadeu Covas (Diretor Presidente), especificamente no Laboratório de Biologia Molecular, coordenado pela professora doutora Simone Kashima Haddad.

Quem financia o projeto e quanto está sendo investido nele?

O projeto tem o financiamento da FINEP (Financiadora de Estudos e Projetos), que está investindo cerca de R$ 1 milhão para o desenvolvimento deste teste. Ainda há a colaboração da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), Instituto Nacional de Ciência em Células-Tronco e Terapia Celular (INCTC) e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Há quanto tempo o trabalho vem sendo desenvolvido e em que fase está?

A pesquisa está sendo desenvolvida há cerca de 4 anos e meio e atualmente encontra-se em fase de validação. Após essa fase esperamos requerer a patente deste produto e posterior transferência da tecnologia para a empresa GENE ID S/A, que será encarregada do licenciamento do produto frente aos órgãos de saúde. Além disso, esta empresa será responsável pela produção e comercialização deste kit.

O que é o HTLV e quais são seus problemas decorrentes?

O HTLV é um retrovírus da mesma família do HIV. Este vírus está ligado a duas principais doenças: um tipo de leucemia conhecida como leucemia de células T do adulto (ATLL) e a uma doença neuroinflamatória degenerativa conhecida como mielopatia/paraparesia espástica tropical (HAM/TSP) que provoca a progressiva paralisia dos membros inferiores, disfunção erétil e esfincteriana que com o passar do tempo leva o paciente à cadeira de rodas. Além dessas, este vírus está ligado a outras doenças menos frequentes como artropatias, dermatite infecciosa e uveítes. No entanto, apenas de 1% a 5% dos pacientes desenvolvem alguma dessas doenças, o restante permanece assintomático por toda a vida. Isso por um lado é bom, pois a maioria dos infectados não desenvolve a doença. Porém, como na maioria das vezes não sabem que estão infectados, transmitem a doença para outras pessoas. A infecção pelo HTLV é negligenciada e desconhecida pela sociedade civil e pela maioria dos profissionais da área da saúde, incluindo boa parte da comunidade médica. Por este motivo, alguns indivíduos infectados que desenvolvem alguns sintomas são muitas vezes tratados para outras doenças, o que prejudica a saúde do paciente.

Quais são as formas de transmissão desta infecção?

A forma mais eficiente e comum de transmissão desta infecção é pelo aleitamento materno, por meio da transferência de células infectadas para o recém nascido. Ainda, esta infecção pode ser transmitida pela transfusão sanguínea, por meio da relação sexual sem a correta proteção e compartilhamento de agulhas entre usuários de drogas intravenosas.

Qual o nível de sua incidência no país e no mundo?

Cerca de 20 milhões de pessoas são portadoras deste retrovírus no mundo, sendo que o Brasil possui cerca de 2,5 milhões de pessoas infectadas, fazendo com que seja o país com maior número absoluto de pessoas acometidas por esta infecção no mundo.

Atualmente, como a pessoa fica sabendo se tem ou não o retrovírus? Apenas se for doar sangue?

Atualmente, não existe na rede pública de saúde exame disponível para a população. O indivíduo fica sabendo se tem a infecção somente ao doar sangue, pois é feito o exame para este vírus. No entanto, o exame confirmatório não é obrigatório e é feito por alguns centros pela técnica de Western Blot, que apresenta alto custo e ainda exibe um número alto de resultados indeterminados. Ainda, algumas cidades estão incluindo o teste para HTLV no pré-natal para tentar frear a disseminação da doença, visto que não há vacina para a mesma.

Há tratamento? Como prevenir?

O tratamento para ambas as doenças é paliativo. A leucemia é muito agressiva levando o indivíduo a óbito rapidamente. Quanto ao tratamento da doença neurodegenerativa, este é feito por meio de uso de corticoides em uma primeira fase para diminuir a inflamação e fisioterapia para tentar melhorar a qualidade de vida dos pacientes. A prevenção se daria pelo adequado diagnóstico pré-natal das gestantes e uma vez a mãe doente, substituir o aleitamento materno pela fórmula láctea, uso de preservativos durante as relações sexuais e a utilização de agulhas e seringas descartáveis entre usuários de drogas intravenosas.

Como será a fase de validação desta pesquisa?

Para garantir a eficácia e robustez do teste é necessário que muitas amostras sejam testadas. E por isso iremos à África do Sul testar as amostras de pacientes de lá, pelo fato de que a África, como o Brasil, possui um elevado número de indivíduos infectados. Amostras de Salvador (BA) também serão avaliadas.

Em quanto tempo será possível contar com esse kit de teste confirmatório na rede pública de saúde?

Eu pretendo terminar os processos de validação até o segundo semestre. A partir daí passaremos para o depósito de patente, licenciamento do produto pelos órgãos de saúde e produção do kit. Após esse processo o kit estará disponível comercialmente e poderá ser adotado na rede pública de saúde.