O setor público é fundamental para que os países consigam lidar com grandes demandas e pode ser tão dinâmico e inovador quanto qualquer empresa privada. E não só pode como precisa ser. Essa é uma das teses centrais da economista italiana Mariana Mazzucato. Ela participou ontem do seminário “O Impacto da Ciência na Sociedade e no Avanço do Conhecimento”, organizado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
“Não há nada no DNA do Estado que o faça ser lento e que não o permita ser inovador. Podemos acabar com as burocracias e torná-los ágeis, flexíveis, capazes de lidar com a complexidade e as incertezas. Isso requer a construção de organizações com capacidade de aprendizado e de adaptação”, afirmou Mariana. Ela é professora de Economia da Inovação e Valor Público na University College London (UCL) e autora, entre outros, do livro “O Estado Empreendedor – Desmascarando o mito do setor público versus setor privado”, de 2014 que vem fortalecendo o debate internacional sobre a relação entre governos e empresas.
Em seu argumento, a economista citou a Nasa, a agência espacial americana, como um exemplo de como uma empresa estatal pode ser eficiente redesenhando sua relação com a iniciativa privada e possibilitando a descoberta de conhecimentos que facilitaram a inovação.
Para ela, os grandes desafios atuais, como o combate à mudança climática e pandemias como a da covid-19, jamais serão vencidos sem a participação do setor público atuando de maneira organizada e estratégica na liderança. Em relação ao Brasil, mencionou o desmatamento como um problema nacional de grande relevância para os gestores públicos.
“Precisamos desenvolver uma maneira completamente nova de pensar sobre as capacidades de nossas organizações públicas”, provocou, dizendo que é preciso pensar além de estruturas prontas para resgatar empresas e manter o sistema em funcionamento.
“Existem programas de resgate durante as crises, mas de alguma forma, se não redesenharmos [a relação público-privado] para focar nos maiores problemas do nosso tempo, essas ferramentas que temos, incluindo os orçamentos, são desperdiçadas”, disse Mariana. “Nada disso pode acontecer sem a habilidade e a capacidade do setor público. Coloco ênfase nisso.”
A apresentação da economista italiana guiou a linha de raciocínio dos demais discursos do evento da Fapesp. O cientista e ex-presidente da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Mauricio Lopes lembrou que o desenvolvimento rápido das vacinas contra a covid-19, por exemplo, foi possível porque os setores públicos trabalharam anteriormente.
“Temos falado pouco nisso, da importância da sintonia entre a ciência pública e a ciência do ambiente privado. Na cabeça de muita gente a vacina foi feita pela Pfizer ou são descobertas recentes do setor privado, mas não são. Elas são resultado de uma trajetória de ganhos e avanços, a maior parte deles alcançados no ambiente público, de universidades públicas ao redor do mundo, que foram agora traduzidos em inovações importantes”. A ideia é que o papel fundamental do setor público seja facilitar o ambiente para a inovação.
Mas ao falar sobre o Brasil o economista neoliberal e diretor-presidente do Insper, Marcos Lisboa, pontuou que um dos problemas é que, aqui, os métodos científicos são mal aplicados pelos gestores públicos. “O mesmo grupo de pessoas que se surpreendeu com a negação da vacina e da ciência [durante a pandemia], no exercício da política pública, nega a ciência com frequência”, disse, sugerindo que os políticos [de direita] usualmente não dão a atenção devida aos cientistas e técnicos de diversas áreas.
Após o evento, Lisboa disse a política pública no Brasil historicamente ser implementada sem levar em consideração as evidências científicas [?!]. “Em muitos aspectos, a política econômica e social no Brasil foi desenhada e implementada sem a análise do que as evidências científicas apontavam sobre o assunto, as experiências nos demais países, experimentos com grupos de controle para variar os impactos.”