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Pauta Social

Margareth Rago mostra a bagagem que está levando aos novos alunos em NY

Publicado em 20 maio 2010

Luzia Margareth Rago, docente do Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, correu os olhos pelo edital chamando projetos para a Cátedra Ruth Cardoso, concedida pelo segundo ano a um professor ou pesquisador brasileiro da área de ciências sociais, na Columbia University. A chamada é feita pela Capes, em parceria com a Fapesp e a Comissão para Intercâmbio Educacional entre Estados Unidos e Brasil (Fullbright). Viu que tinha o perfil para concorrer, mas se questionou: "Fazer o que em Nova York? Não tinha motivos concretos."

Um mês depois de virar a página do edital, a historiadora recebeu um e-mail de Pablo Picatto, diretor do Instituto de Estudos Latino-Americanos daquela universidade, que acompanha seu trabalho e sugeriu que participasse do concurso. "Obviamente que me senti prestigiada e estimulada ao ser contatada por um colega que não conheço pessoalmente. E mais ainda por saber que daria aulas no ISLA, instituto que é uma referência na minha área".

Margareth Rago respondeu a Picatto que gostaria muito de ir, desde que não fosse obrigada a abrir mão de seus temas (anarquismo, feminismo, sexualidade, prostituição e Michel Foucault), que ainda não são o meanstream da área de história. No que o diretor do ISLA retrucou, embora em outras palavras, que havia convidado a pesquisadora do IFCH justamente por isso. "Então, me senti à vontade para levar aos americanos esse outro lado da história do Brasil".

A docente da Unicamp afirma que o concurso "não foi pouca coisa" e teve que superar pelo menos dois fortes concorrentes, entre os seis que apresentaram propostas de cursos em inglês para graduação e pós-graduação, além de um projeto de pesquisa para justificar a estada nos EUA. No primeiro concurso para o Programa Ruth Cardoso, em 2009, a escolhida foi a também feminista Lia Zanotta Machado, da UnB, cujo trabalho é admirado por sua sucessora. Na entrevista que segue, Margareth Rago fala sobre o conhecimento que levará na bagagem quando viajar no início de agosto.

PORTAL UNICAMP - Qual foi a proposta que apresentou para a Cátedra Ruth Cardoso?

Margareth Rago - Propus dois cursos e uma terceira atividade, provavelmente um ciclo de debates sobre a história do anarquismo no Brasil. O curso de graduação trata dos esteriótipos raciais e de sexualidade a respeito do Brasil, que são muito fortes na historiografia e na maneira como os estrangeiros nos leem. Penso em mostrar que a historiografia brasileira também constroi essas imagens, a exemplo de Gilberto Freyre, que nos dá um susto ao descrever a vontade que as índias tinham de receber os portugueses e o Brasil como país da libertinagem, da sexualidade livre. Os autores dos anos 1920 e 1930 que afirmam essa característica da identidade nacional, que teria a ver com clima, vegetação, índole...

PORTAL - São esteriótipos que os pesquisadores estrangeiros acabam reafirmando.

Margareth - Acho que o grande perigo desses mitos e da sua reprodução é a ideia da irracionalidade, ou seja: se somos um povo irracional, necessitamos dos "mais racionais", o que traz implicações políticas graves. Há também a questão do turismo sexual, sobre o qual essas concepções que sexualizam e racializam excessivamente o povo brasileiro têm peso assustador. Isso quando nós mesmos não nos identificamos com esse passado. Daí, pensei em um curso sobre essa historiografia, descontruindo tais mitos e esteriótipos e mostrando como eles foram produzidos.

PORTAL - E como será seu trabalho na pós-graduação?

Margareth - Quero promover um ciclo de seminários (ou algo parecido) com a pesquisa que desenvolvo atualmente, também financiada pelo CNPq, sobre narrativas autobiográficas de mulheres que estiveram envolvidas na luta contra a ditadura militar e, no período da redemocratização, se vincularam ao feminismo. Com 40 anos de feminismo no Brasil, já temos elementos para avaliar os profundos impactos que o movimento produziu na cultura e na sociedade.

PORTAL - Poderia mencionar alguns impactos?

Margareth - Acho que há uma feminização cultural em curso. Na academia, por exemplo, a feminização aparece no espaço muito maior que nós mulheres conquistamos, inclusive nas temáticas, como a história do aborto, da prostituição, da maternidade ou da sexualidade feminina. Há vinte anos, não havia a noção de que existe um discurso médico do século 19 que produz uma identidade feminina ainda presente no imaginário social. Todos esses fenômenos que descrevemos reforçaram e ampliaram as temáticas históricas, o que vem muito em função da entrada das mulheres na academia, independente de se chamarem feministas ou não. É óbvio que as mulheres foram atrás de temas mais ligadas a elas, que lhes interessavam mais. E, nesse sentido, houve uma abertura bastante grande".

PORTAL - A senhora falou sobre uma terceira atividade na Universidade Columbia, além dos cursos de graduação e de pós.

Margareth - Decidimos que será sobre a história do anarquismo no Brasil. Ao pensar o projeto, me dei conta que existem os períodos do anarquismo, nas primeiras décadas do século 20, e do pós-anarquismo, da década de 80 para cá, quando vemos grupos que investem em retomá-lo de outra maneira, não mais como movimento operário, restrito a discutir greves e a política tradicional. São grupos com maioria de jovens, de classe média e também da periferia, como os ligados a movimentos antiglobalização, ou de mulheres defendendo certa "anarquização" do feminismo, que continua mais vinculado a medidas de Estado".

PORTAL - No final do ano passado, a senhora organizou o seminário "Memórias Insubmissas", quando afirmou que o feminismo no país veio da militância de esquerda.

Margareth - No início do século 20 tivemos um feminismo liberal com mulheres da elite e outro feminismo no meio operário, fortemente marcado pelos anarquistas. Não estando ligados a questões visando a conquista do Estado, os anarquistas já pregavam transformações culturais como a emancipação da mulher, crítica à família nuclear, amor livre, pedagogia libertária. O segundo momento do feminismo, a partir dos anos 70, realmente parte das mulheres de esquerda que não encontravam espaço dentro do PCdoB e outros grupos políticos. Como nenhuma delas foi ser revolucionária para servir cafezinho, quando se deram conta disso, romperam com seus grupos.

PORTAL - Foi quando elas decidiram levantar suas próprias bandeiras...

Margareth - Acho que a mudança maior foi na cabeça das mulheres, ao tomarem consciência de que a dominação sobre elas é muito mais complexa. O que se espera dos homens é que se preparem para uma vida pública, enquanto as mulheres nascidas em meados do séculos passado foram educadas para o privado; ao desejarem entrar no mundo público, tiveram que aprender, iniciando um processo de grande transformação interna, sujetiva. Vejo esse segundo movimento feminista como uma explosão, em que as mulheres colocaram tudo em cheque: não apenas o direito ao voto, mas à sexualidade e a outro tipo de maternidade, como o de ser mãe aos 30 anos e não aos 20, ou de simplesmente não ser mãe. Foi um feminismo mais amplo, no corpo".

PORTAL - O título do projeto que apresentou para a Fullbright é "Subjetividade, política e ética: práticas de si nos feminismos americano e brasileiro". Pode justificá-lo?

Margareth - Uso um conceito de Michel Foucault, que encontra práticas de si - que são práticas de liberdade - no mundo greco-romano. O filósofo observa que, na modernidade, formar um cidadão é criar um indivíduo disciplinado, obediente, cumpridor dos seus deveres, que repita as lições que lhe são ensinadas. Já para os gregos, sobretudo, formar um cidadão era tornar o jovem capaz de escolher o que quer ser e como quer ser, de se construir autonomamente e de construir autonomamente a sua relação com o outro. Não se pode tornar uma pessoa generosa, ética, íntegra, quando se mantém com o outro uma relação autoritária, de exclusão e de humilhação. Fascinada por tal história, me veio a pergunta: o que aconteceu para termos perdido essa tradição?

PORTAL - E como este conceito de Foucault se aplica ao feminismo?

Margareth - A filosofia de Foucault me permitiu elaborar esse projeto articulando a questão da subjetividade com ética e política, e é muito boa para pensar o feminismo, que em minha opinião não deve visar apenas a política ou a transformação social, mas também a violência doméstica, a qualidade de vida e como as mulheres estão formando seus filhos. É um conceito que traz um questionamento das nossas práticas no cotidiano mais elementar.

PORTAL - Qual é o público que espera encontrar durante a cátedra?

Margareth - Já tive uma experiência como professor visitante no Connecticut College, que fica na pequena New London, a três horas de Nova York. Entretanto, pude perceber a heterogeneidade dos estudantes das universidades americanas, uma grande diversidade cultural, apesar de supor que encontrarei uma maioria não de latinos, mas de americanos interessados em história da América Latina. Como as instituições de lá são muito ativas e interativas, já me vincularam a um grupo de estudos latino-americanos, que possui pesquisadores de outras universidades, como a de Nova York, e se reúne para debates periódicos. Viajo ansiosa por conhecer a academia americana por dentro e na expectativa de abrir espaço colegas brasileiros, talvez organizado cóloquios, como faço aqui.

 

Trabalhos de mestrado e doutorado viraram referências, diz orientador

Na opinião do professor Edgar Salvadori De Decca, que orientou a professora Margareth Rago em seu mestrado e doutorado na Unicamp e atualmente é vice-reitor e coordenador geral da Universidade, a obtenção da cátedra Ruth Cardoso na Columbia University pela ex-aluna é o reconhecimento de sua trajetória intelectual e acadêmica. "Os trabalhos da professora Margareth que orientei são há muitos anos livros de referência obrigatória nos cursos de graduação e pós-graduação da área das ciências humanas. São interpretações históricas originais sobre a condição feminina e sobre a experiência anarquista no início do século XX no Brasil".

De Decca acrescenta que Margareth Rago escreveu uma biografia da anarquista uruguaia Luce Fabri que considera cativante, além de dezenas de artigos em revistas nacionais e internacionais, abordando temas ligados aos movimentos sociais, ao feminismo e à história das mulheres. "Pela importância de toda a sua obra historiográfica, eu a considero uma das mais importantes historiadoras do Brasil. A obtenção da cátedra é um reconhecimento disso e a Unicamp também se sente orgulhosa por essa conquista".

Luzia Margareth Rago tem graduação em História e Filosofia pela Universidade de São Paulo (1970). Ingressou como docente do Departamento de História da Unicamp em 1985, onde defendeu tese de livre-docência em 2000 e é professora titular desde 2003. Foi professora visitante do Connecticut College (EUA) no período 1995/96 e realizou seminários na Universidade de Paris 7 em 2003.

Ela dirigiu o Arquivo Edgar Leuenroth (AEL) em 2000 e coordena, junto com as professoras Tânia Navarro Swain e Marie-France Dépèche, a revista digital feminista internacional Labrys. É assessora científica da Fapesp, Capes e CNPQ, entre outras agências. Tem como temas o pós-estruturalismo, feminismo, anarquismo, subjetividade e gênero, e também estuda autores como Foucault e Deleuze.