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Márcio de Castro Silva Filho, professor da Esalq, integra a Academia Brasileira de Ciências

Publicado em 12 abril 2015

Professor titular da Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz), Márcio de Castro Silva Filho (foto), 54, ocupará no próximo mês uma das cadeiras da Academia Brasileira de Ciências.

 

Natural de Belo Horizonte (MG), Silva Filho formou-se em Engenharia Agronômica pela Universidade Federal de Lavras, em 1984, e defendeu o doutorado em Biologia Molecular de Plantas pela Universite Catholique de Louvain, na Bélgica (1994).

 

O pesquisador chegou à Esalq após concluir o doutorado e passou a fazer parte do corpo docente do Departamento de Genética da faculdade.

 

Atualmente, Silva Filho mora em Brasília, onde atua como diretor de Programas e Bolsas no País da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), do MEC (Ministério da Educação).

 

Venho uma vez por mês a Piracicaba para encontrar com meus alunos, pois tenho um laboratório bem produtivo. Tenho seis alunos de doutorado e dois pós-doutores. Uma vez por mês faço questão de vir aqui, informou.

 

No ano passado, Silva Filho foi eleito membro titular da Academia Brasileira de Ciências.

 

A posse dos 24 membros da Academia ocorrerá no dia 5 de maio no Rio de Janeiro.

 

Sua formação é na Engenharia Agronômica. Qual a sua linha de pesquisas? Minha pesquisa começa com doutorado que fiz na Bélgica, onde comecei a partir de um grande interesse na biotecnologia e na biologia molecular de plantas. Quando terminei o doutorado, o Brasil ainda era muito insipiente em pesquisa nessa área e foi a razão pela qual eu vim a Piracicaba. A USP lançou um programa chamado Jovens Talentos e contatou estudantes brasileiros que estavam fazendo doutorado no exterior e também publicou nas revistas científicas de alta visibilidade para as pessoas que gostariam de trabalhar na USP. E eu defiro bastante da média dos professores aqui da Esalq, porque em nenhum momento estudei aqui. Isso é muito difícil, são poucos os casos de professores que não tiveram a trajetória em algum momento, na graduação, no mestrado ou doutorado, passaram pela Esalq. E eu como fiz minha formação em Minas, eu sou mineiro, estudando no exterior, a Universidade de São Paulo era a referência de universidade no Brasil e a Esalq conhecia bastante, mas não tinha tido oportunidade de estudar ou trabalhar aqui. Daí mandei meu currículo e, em 1993, recebi um fax do diretor da Esalq na época, fazendo um convite formal para trabalhar em Piracicaba. Para mim foi uma surpresa, foi um dos momentos mais marcantes em minha vida. Saí pulando no corredor lá dentro do laboratório na Bélgica. Fui correndo falar com o meu orientador: fui selecionado em um processo grande para poder trabalhar na USP, particularmente na Esalq. Para mim foi uma enorme satisfação. Terminei o doutorado, voltei ao Brasil (com 33 anos) e vim direto para Piracicaba. Fomos em três na época, que viemos para a Esalq por meio desse programa Jovens Talentos, professor Ricardo de Azevedo e o professor Aranha. No programa todo foram 60 contratações que a USP fez entre 500 candidatos. Aí comecei a trabalhar com a parte de biologia molecular de plantas, parte de biotecnologia vegetal. Contei com o grande apoio da Fapesp (Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo) para a construção do laboratório, financiamento de minhas pesquisas.

 

Na sua volta ao Brasil, como estava a área de pesquisas no Brasil? Isso foi algo impressionante. Como o Brasil avançou nessa área. A área de ciências agrárias foi uma área de muita formação de recursos humanos no exterior, porque no Brasil as pesquisas e grupos ainda não tinham muito desenvolvimento. Então fomos uma geração de pesquisadores e cientistas, todos treinados no exterior, em diversos países. Então quando voltamos, um grande contingente de amigos, o impacto que isso teve foi muito significativo, pois a área desenvolveu muito, essa área avançou incrivelmente no Brasil. O país é uma potência de pesquisas na área de plantas e de animais. A biologia molecular e a biotecnologia tiveram uma ressonância muito grande nesse ambiente, no qual o Brasil é referência na pesquisa de agricultura tropical. E com isso permitiu desenvolvimento de uma área, que no início da década de 90 era uma área muito insipiente, e hoje ela tá bem difundida em todo o país com núcleos de pesquisas altamente reconhecidos internacionalmente.

 

Existe bastante financiamento para pesquisas? Esse é um ponto importante. Por causa dessa vocação brasileira nas ciências agrárias, que é uma área onde o Brasil mais avançou se comparado a outras áreas de conhecimento, gerando produto, novas tecnologias, o Brasil se tornou uma potência. Houve por parte do governo federal, sobretudo aqui em São Paulo investimento muito forte da Fapesp, e evidentemente do governo federal pela Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) e o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e a Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), ajudando na construção da infraestrutura física. O governo federal e a Fapesp aqui no Estado de São Paulo criaram oportunidades para o desenvolvimento de vários pesquisadores, de vários núcleos de pesquisa aqui na Esalq, dentro da USP, na Unicamp, na Unesp, na Ufscar. E realmente criou um ambiente muito propício, porque nós tínhamos talentos e financiamento, o que permitiu que o Brasil avançasse muito nessa área. É possível ser pesquisador dentro do Brasil. Com esse primeiro grupo quase todo ele formado no exterior, nós temos muitas colaborações com grupos do exterior. Então, essa interação com exterior permitiu também avanço muito grande em termos de reconhecimento da comunidade brasileira pelos resultados que são produzidos. E neste ano nós conseguimos trazer para o Brasil, pela primeira vez no Hemisfério Sul, o Congresso Internacional de Biologia Molecular de Plantas, no final de outubro, em Foz do Iguaçu, organizado pelo Brasil e Argentina. Traremos os principais pesquisadores do mundo. A expectativa é de que pelo menos 1.000 pesquisadores venham ao Brasil nessa área de biologia molecular de plantas para discutir os principais avanços nessa área.

 

Além de pesquisador, o senhor é um dos diretores da Capes. Fui convidado há pouco mais de três anos a assumir uma diretoria na Capes de relações internacionais no momento que estava começando o programa Ciências sem Fronteiras. A Capes é a maior agência em termos de formação de recursos humanos, de bolsas de mestrado, doutorado, e mais importante no financiamento da pesquisa do país um orçamento de mais de R$ 6 bilhões. Fui convidado a assumir essa diretoria devido à experiência pioneira que tivemos na Esalq de criar o primeiro programa de pós-graduação internacional do Brasil. Um programa de doutorado na área de biologia molecular de plantas envolvendo a USP, principalmente a Esalq, e duas universidades americanas. Fiquei lá na diretoria em torno de dez meses, daí assumi logo em seguida a diretoria de programas e bolsas no país, que é a maior diretoria da Capes e que lida com financiamento de quase 100 mil bolsas de mestrado, doutorado e pós-graduação. Estou lá há dois anos e meio.

 

Como surgiu o convite para integrar a Academia Brasileira de Ciências? O sonho de um pesquisador é entrar para a Academia Brasileira de Ciência, fazendo uma analogia como é o sonho de um jogador ser convocado para a Seleção. É uma honra muito grande, é um grupo muito seleto que faz parte da Academia Brasileira de Ciências e o processo é muito competitivo, porque há muitos pesquisadores reconhecidos no Brasil e que participam do processo de seleção. A eleição de um membro passa por um processo, que inicialmente tem a apresentação de uma candidatura. Um acadêmico indica uma pessoa que pode fazer parte da Academia, então são vários nomes dentro das diversas áreas, ciências agrárias, saúde, biológicas, biomédicas. Há um comitê de seleção que faz uma primeira avaliação e seleciona um número de pesquisadores para seguir adiante. Mais da metade não passa pelo crivo dessa comissão de seleção. Depois entra numa segunda fase onde na área que o candidato foi apresentado, no meu caso ciências agrárias, todos os acadêmicos dessa área votam e os quatro mais bem votados vão para outra fase, na qual os acadêmicos de todas as áreas votam. Desses quatro, os dois mais votados são eleitos para a Academia Brasileira de Ciências. Eu e um colega, Francisco Aragão, da Embrapa, fomos eleitos para a posse agora em maio.

 

Que tipo de trabalho é realizado dentro da Academia? A Academia é uma instituição que vai fazer 100 anos no ano que vem, vai comemorar o seu centenário e ela é um fórum muito importante de discussão de problemas brasileiros em várias áreas. Tem uma série de temas que são discutidos pelos acadêmicos, como problemas da água, biotecnologia. Os acadêmicos servem de assessores para os órgãos nacionais tomarem decisões. Em função de ser um grupo super seleto, eles aconselham os governantes, os ministros, para adoção de determinadas ações. Eles têm uma atuação muito importante e significativa dentro da nossa sociedade. São acadêmicos que vão discutir determinados temas, orientar na criação de políticas. É uma agência muito ativa. Todo ano tem uma reunião magna, neste ano virão dois prêmios Nobel, um de Química e outro de Medicina, que darão palestras sobre o valor da ciência dentro da sociedade. Como é que a sociedade se beneficia com o avanço da ciência.

 

E na sua opinião, qual o papel da ciência dentro da sociedade? Hoje nós vivemos na sociedade do conhecimento. Hoje o maior bem que se tem é o conhecimento. A ciência que é o principal vetor, veículo para geração de novos conhecimentos. E esses conhecimentos nos permitem avançar para uma melhor qualidade de vida, aumento da longevidade, desenvolvimento de novas tecnologias. A ciência é o principal motor do avanço, do desenvolvimento da sociedade. Hoje não é possível uma sociedade avançar se não for em cima do conhecimento e a ciência é o principal elemento para isso.

 

O Brasil é um gerador de conhecimento? Ou o país vai ser um comprador de tecnologia, onde ele não teve nenhuma participação na construção ou ele vai ser o ator no sentido de gerar conhecimento, informação nova, que tem sua aplicação. O Brasil fez essa escolha há muito tempo atrás no sentido de ser um ator na direção de gerar conhecimento que interessa aos brasileiros. Nas pesquisas agrárias, no pré-sal da Petrobras, caso de sucesso da Embraer terceira maior companhia de aviação do mundo. A soberania de um país está ligada a geração de conhecimento. Investimento e formação de recursos humanos, pesquisas dentro da áreas. Mais um exemplo é na área de saúde. Estamos passando por uma epidemia de dengue. Se formos esperar que a Finlândia ou Japão vão pesquisar a dengue... É um problema ligado diretamente a nós. Para você ver como é importante um país investir em pesquisas. Hoje em dia é fundamental esse investimento em educação, ciência e tecnologia porque a gente consegue a partir daí resolver muitos problemas.

 

Quais os seus projetos profissionais? Na trajetória de um pesquisador, de um docente, sempre há vontade de crescer na universidade, na carreira. O fato de estar na Academia é algo muito gratificante, pois é o reconhecimento de todo um trabalho, de uma trajetória de vida. E a ciência é a minha maior paixão, é o que me faz acordar e querer continuar, produzindo coisas novas, querendo formar novos alunos, querendo que eles se tornem melhores que a gente. Essa vontade de formar novos mestres e doutores, que contribuam para o país. A ciência é algo espetacular, apaixonante, pois você descobre coisas novas num ambiente muito rico de oportunidades. Acredito que até o último dia da minha vida vou estar com essa chama que é o que motiva, por ter essa gratidão por trabalhar com pesquisa.