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Florestal Brasil

Mapa dinâmico de um inventário geológico no Estado de São Paulo

Publicado em 11 julho 2021

Por Arthur Brasil

Em uma antiga pedreira do interior paulista encontram-se rochas com cerca de 280 milhões de anos, indícios de que aquela região já esteve coberta por gelo em um passado longínquo. O conjunto rochoso localizado no Parque do Varvito, em Itu, é um dos 142 geossítios identificados em 81 municípios do estado de São Paulo que compõem o mapa interativo geológico criado pelo Núcleo de Apoio à Pesquisa em Patrimônio Geológico e Geoturismo da Universidade de São Paulo (GeoHereditas/USP). “O mapa está disponível na internet e pode ser acessado por qualquer interessado, mas é voltado, sobretudo, à comunidade científica e profissionais da área de geociências, visto que as descrições dos geossítios são técnicas”, esclarece a geóloga Maria da Glória Motta Garcia, professora do Instituto de Geociências (IGc) da USP e coordenadora do trabalho. “Além de colaborar para o planejamento urbano sustentável, ele também pode ser usado para desenvolver atividades de geoturismo, por exemplo.”

Conjunto rochoso localizado no Parque do Varvito, em Itu, no interior de São Paulo. Foto: Eduardo Cesar

O mapa é fruto do projeto “Patrimônio geológico do estado de São Paulo: Identificação, conservação e avaliação de geossítios de valor científico com relevância nacional e internacional” (ver Pesquisa FAPESP nº 257). O primeiro passo foi um inventário realizado entre 2013 e 2015 com financiamento do extinto programa Ciência sem Fronteiras, do governo federal, na modalidade “Pesquisador visitante especial”, que apoiou três vindas ao Brasil do consultor do projeto, o geólogo José Brilha, da Universidade do Minho, de Portugal, bem como a realização de trabalhos de campo, além da compra de livros e equipamentos. “Agora estamos no momento de divulgar esses dados”, prossegue Garcia.

O geossítio Nascente do rio Potengi fica na encosta da Serra de Santana, em Cerro Corá, no Rio Grande do Norte. Foto: Getson Luís

Hospedado na plataforma Google My Maps, o roteiro abarca 11 categorias geológicas que incluem, entre outras, formações rochosas, cavernas e fósseis. A ideia é que esse número cresça. Por meio de formulário disponível na plataforma é possível enviar sugestões de novos geossítios, que serão avaliadas pela equipe de pesquisadores do projeto e, quando for o caso, incluídas. “O mapa interativo é dinâmico, a exemplo do inventário geológico”, aponta Garcia. “Isso porque geossítios podem desaparecer por causas naturais, como a erosão, ou pela ação do homem, a exemplo da construção de rodovias ou da especulação imobiliária, ao mesmo tempo que novos geossítios são encontrados e precisam ser divulgados.”

Mapas são elementos importantes nas estratégias em geoconservação, conceito que nasceu no Primeiro Simpósio Internacional sobre Proteção do Patrimônio Geológico, realizado em 1991, na França. “A geoconservação é uma forma de identificar e proteger sítios geológicos que representam um evento importante na história da Terra”, diz o geólogo Carlos Schobbenhaus, do Serviço Geológico do Brasil (SGB/CPRM). “Esses geossítios oferecem pistas para a compreensão do passado, do presente e do futuro do planeta. A definição do local a ser conservado, por meio de um inventário, é o primeiro passo do estudo de geoconservação.” De acordo com Garcia, embora o conceito seja recente, ações voltadas à conservação de locais com interesse geológico são conhecidas desde o século XVII, a exemplo da caverna Baumannshöle, na Alemanha, local de relevância para estudos paleoclimáticos e arqueológicos que ganhou um plano de gestão em 1668. “A partir da década de 1970 a área da geoconservação se desenvolveu muito na Europa. Desde então, países como Portugal, Espanha e Reino Unido produziram os próprios inventários de patrimônio geológico e incluíram legalmente a sua proteção.”

Detalhe do mapa interativo geológico, desenvolvido pelo GeoHereditas da USP. Foto: Reprodução.

No momento, Schobbenhaus coordena o inventário do patrimônio geológico nacional, iniciado em 2019 pelo SGB/CPRM, que, entre outras coisas, também pretende gerar um mapa geológico interativo nos moldes da iniciativa paulista. A primeira etapa do estudo, que está em curso e conta com uma equipe de cerca de 20 profissionais, dividiu o Brasil em 15 regiões para levantar quais sítios podem ser considerados patrimônios geológicos. Uma das fontes é a base de dados Geossit, do próprio SGB/CPRM, em que pesquisadores de várias partes do país já cadastraram mais de 300 geossítios. Desse total, 100 foram analisados e aprovados pela equipe do SGB/CPRM. A próxima etapa do trabalho é a visita presencial para verificar as condições físicas dos lugares. Em razão das restrições impostas pela pandemia de Covid-19, essa fase não tem data para começar.

Feição de relevo ruiniforme formada em arenitos. Conhecida como “taça”, pode ser vista no Parque Estadual de Vila Velha, no Paraná. Foto: Luiz A. Fernandes

Outra provável fonte será o estudo que está sendo concluído pela geóloga Fernanda Caroline Borato Xavier, doutoranda em geologia ambiental do Programa de Pós-graduação em Geologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Na tese, que deve ser defendida neste ano, a pesquisadora se propõe a realizar um inventário paranaense de cerca de 80 geossítios selecionados e divididos em oito categorias geológicas. “Nessa lista o mais importante é o interesse científico e não as belas paisagens”, explica o geólogo Luiz Alberto Fernandes, orientador da pesquisa e professor do Programa de Pós-graduação em Geologia da UFPR. “Nossa meta é transferir os dados do inventário para um mapa geológico interativo porque é uma forma mais ágil de repassar as informações.”

A produção de algo similar também faz parte de um projeto de pesquisadores do Departamento de Geologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), que desde 2017 realizam o inventário geológico daquele estado. O trabalho gerou no ano seguinte a publicação do Mapa geológico simplificado do Rio Grande do Norte, disponibilizado na internet em formato de PDF. “Agora a ideia é casar os dados recentes com aqueles do mapa simplificado e fazer uma plataforma interativa, que deve ficar pronta no meio do ano”, prevê o geólogo Marcos Antonio Leite do Nascimento, da UFRN. “Com o mapa interativo pretendemos sensibilizar o poder público e a sociedade que um barranco, por exemplo, que ninguém dá muita bola, pode ser muito importante para a pesquisa científica por ser um afloramento que ajuda a entender a história geológica da Terra”, conclui.

Artigos científicos

DIAS, M. C. S. S. e DOMINGOS, J. O. et al. Geodiversity Index Map of Rio Grande do Norte State, Northeast Brazil: Cartography and quantitative assessment. Geoheritage 13, 10, 2021.

RIBEIRO, L. M. A. L e GARCIA, M. G. M. et al. The geological heritage of the state of São Paulo: Potential geosites as a contribution to the Brazilian national inventory. Journal of the Geological Survey of Brazil. [S. l.], v. 4, n. SI 1, 2021.

Este texto foi originalmente publicado por Pesquisa FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

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