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Jornal da Unicamp online

Manufatura do improvável

Publicado em 07 outubro 2013

Por Patrícia Lauretti

Bavcar diz: “No mundo moderno, a fotografia é por demais definida pela sua técnica e muito pouco pelo seu pensamento”. Ao que Tisseron complementa: “A fotografia se constrói em um vaivém permanente entre realidade e ficção ou, se preferirmos, entre a realidade objetiva e essa outra forma de realidade que são as imagens interiores do fotógrafo. É esse vaivém que lhe confere um estatuto original desde o começo”. Gatti então comenta: “Isto que Sontag estava dizendo, Tisseron. À potencialidade de anotação do mundo descrita por você, Sontag, como registro do visível, opõem-se as fotografias apagadas que querem um mundo invisível”.

Sontag é a escritora norte-americana Susan Sontag, autora, entre outros, do livro Contra a Interpretação, bastante citado na conversa que inicia este texto e que também envolve o fotógrafo cego Evgen Bavcar, além de Serge Tisseron, José Saramago, Vilém Flusser, Paul Graham, Samuel Beckett, Calderón De La Barca, Umberto Eco.

Entre uma colocação e outra, os personagens do diálogo constituem o primeiro capítulo da tese de doutorado “A fotografia em quatro atos: narrativas improváveis sobre a imagem e sua feitura” defendida no programa de Artes Visuais do Instituto de Artes da Unicamp, e que se insere na linha de pesquisa de processos criativos. O autor é o artista visual Fábio Gatti, que “costura” a conversa com seus interlocutores, boa parte constituída de teóricos da fotografia.

Nesse caso, Gatti reflete sobre a série de sua autoria “Fotografias Apagadas”. O trabalho começou quando a câmera que utilizava apresentou um defeito de fotometria que provocava a superexposição à luz. No resultado, o pesquisador identificou que havia algo a ser explorado. “Fotografo de uma maneira que fique quase tudo branco. Você pode encontrar no meio do caminho algumas coisas interessantes que aparecem mais. Mas minha ideia é que não houvesse um referente. Você não sabe se o barco fotografado está mesmo na água, na terra, ou no conserto, não se sabe a localização das coisas e nem de que evento se trata. E isso é o contrário do que a fotografia propõe muitas vezes, que é revelar esses dados”.

Os capítulos restantes também são relacionados a séries que o artista já havia iniciado sempre com o objetivo de pensar a fotografia e o modo como as imagens podem ser manipuladas. Além da tese escrita, como parte do doutorado, Gatti realizou uma exposição dos trabalhos na Unicamp.

Linha e agulha

Filho de artesã, Fábio Gatti se acostumou a observar a vida entre os recortes de tecido. Percebia que a mãe utilizava entretelas, para deixar partes das peças mais encorpadas. Decidiu que tentaria costurar suas fotografias e criou dentro de uma segunda série apresentada na tese, várias outras, que constituem o segundo capítulo. “Há imagens que chamo de ‘paisagens apocalípticas’ que são fotos de paisagens sempre com água e que tem trechos do livro bíblico costurados, criando pequenas janelas”. Outra série denominada ‘cicatriz’ “são fotos de corpos com cicatrizes criadas com os pontos da máquina de costura”, emenda. Os grandes pintores da história da arte surgem em reproduções, misturadas às fotografias do acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo.

A construção da narrativa vale-se de uma criação mitológica: cinco semideuses participam da execução das fotografias costuradas: a máquina de costura, a linha, a agulha, o texto e as fotografias. “Criei uma história de como eles nasceram, qual a virtude e a fraqueza de cada um”. Novamente um diálogo se estabelece sobre a realização do trabalho, tendo como sexto personagem uma “voz” que se encarrega principalmente das referências bibliográficas.

“A tese não seguiu padrão acadêmico, eu crio um texto ‘ensaístico acadêmico’, como se o próprio texto também fosse obra. Cada capítulo tem uma escrita diferente”, ressalva Gatti.

Alinhavados à máquina de costura estão convites vencidos, folders de eventos que já passaram ou até mesmo um papel de bala, além de fotos que foram testes de cor ou de ampliação, revelações duplicadas e que não foram jogadas no lixo, também por ser um material bastante poluente. “Aproprio-me de tudo o que tenho nas mãos, tenho necessidade de colecionar o que recebo e acabo utilizando o material nessas manipulações”.

A reflexão sobre o processo de criação do artista prossegue com a série “Fotografias gravadas”.  São imagens que Gatti faz com pontas secas sobre películas de negativos ou de positivos (velados), de médio formato. Os desenhos retiram uma camada da película formando uma gravura. “Procurei me aproximar de uma discussão com base no realismo fantástico e, em Jorge Luis Borges, na obra O Livro dos Seres Imaginários”.

O capítulo começa da seguinte maneira: “Estas fotografias são assim denominadas porque há nelas uma ideia de gravura (...)”.  E termina assim: “(...) e, estas fotografias são assim denominadas porque há nelas uma ideia de gravura.” O autor esclarece que “a estrutura do capítulo foi feita pensando na figura do ‘uróboro’, como uma serpente que abocanha o próprio rabo. A primeira frase do capítulo é igual à última, e a escrita é de um parágrafo só, como se fosse um bloco”.

A última série de fotografias manipuladas foi reunida em uma espécie de caderno de artista. Mais uma vez a narrativa improvável, como diz o título da tese. “Crio um personagem que dialoga sobre a realização do trabalho.”

Da contemplação da obra de arte à interpretação, o doutorando apoia sua pesquisa na teoria da formatividade, do filósofo italiano Luigi Pareyson. “O que vinha antes dele era um pensamento mais da contemplação, do sentir e Pareyson propõe uma nova análise estética para a obra de arte que tem relação com o fazer e com a interpretação. E cada sujeito terá um embate diferente com a obra”, afirma. Outra questão, segundo Gatti, é que o filósofo propõe a leitura da arte através do fazer. “É o ‘fazer fazendo’, agir por tentativas e a própria obra direciona o artista porque há nela uma legalidade interna, uma lei que opera enquanto você produz”.

O autor da tese afirma que a decisão para desenvolver a tese de uma maneira nada convencional, surgiu logo quando entrou no doutorado e passou a se questionar, como a maioria dos artistas que está na universidade, diz ele, sobre como tratar processos criativos e refletir sobre esse trabalho. “Ou seja, como eu consigo produzir alguma coisa na academia que tenha relações com o meu trabalho e que não seja de uma rigidez de normas, mas que eu produza algo poético sem perder de vista a questão do academicismo”.

O doutorando estabeleceu, portanto, a interlocução entre texto e obra. “São narrativas improváveis porque elas aconteceram junto com o trabalho. Trata-se de um acontecimento com o qual, e não a partir do qual, as coisas fluem”. Gatti finaliza relembrando que finalmente, seu trabalho é a busca de um diálogo que, nesse caso, foi travado com a imagem fotográfica, com diversos autores e com o processo de criação.

Publicação

Tese: “A fotografia em quatro atos: narrativas improváveis sobre a imagem e sua feitura”
Autor: Fábio Luiz de Oliveira Gatti
Orientador: Fernando Cury de Tacca
Unidade: Instituto de Artes (IA)
Financiamento: Fapesp