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Jornal da USP online

Manter os valores, o grande desafio

Publicado em 13 outubro 2015

Entre as várias e importantes atribuições que fazem parte da administração de uma universidade do porte da USP, algumas são óbvias, como cuidar de forma coerente e séria do orçamento universitário e promover – de forma substantiva – o desenvolvimento e a interação do tripé que sustenta a instituição. Ou seja, a integração e o fortalecimento do ensino, da pesquisa e da extensão. Outras, no entanto, talvez passem um tanto despercebidas para olhares menos atentos, mas nem por isso deixam de ser de suma importância. Por exemplo, expor os problemas pelas quais as universidades estão passando, refletir sobre eles com seus pares de qualquer latitude e procurar soluções para a angústia que esses mesmos problemas podem causar. E angústia é o que parece não faltar entre as universidades públicas brasileiras, seja no nível federal – com uma parcela eloquente das federais em greve há cerca de quatro meses –, seja no nível estadual paulista, com USP, Unesp e Unicamp tendo que domar suas questões orçamentárias.

Foi exatamente essa parcela talvez menos visível da função administrativa que o reitor Marco Antonio Zago expôs em recente conferência na Universidade de Bolonha, na Itália – a mais longeva do Velho Continente. Mas Zago não levou para seus pares do outro lado do Atlântico as preocupações uspianas apenas. Ele – que era o único representante de uma universidade latino-americana no encontro – pautou sua fala na conferência “Valores Além de 2015: O desafio global para universidades e seus alunos”, realizada entre os dias 17 e 18 de setembro, nos desafios das universidades latino-americanas, como elas devem pavimentar seu caminho de desenvolvimento e como, ao mesmo tempo, preservar seus valores fundamentais. Em sua fala, o reitor abordou temas como a inclusão na universidade pública, o financiamento de pesquisas, questões econômicas e a herança deixada pelos governos militares e com a qual as universidades sul-americanas – principalmente do Brasil, Chile, Argentina e Uruguai – têm que lidar.

“Os três maiores desafios que as universidades latino-americanas enfrentam hoje são assegurar que todas as pessoas tenham a oportunidade de participar do ensino superior, a despeito de sua condição socioeconômica e origem étnica; melhorar a qualidade do ensino, levando-se em consideração as necessidades da sociedade local e das mudanças globais; e promover pesquisas que tenham valor para a humanidade, mas também sejam pertinentes ao meio ambiente local e regional”, salientou o reitor logo no início de sua exposição (leia a íntegra da fala do reitor em http://www.usp.br/imprensa/wp-content/uploads/Presentation-Bologna.pdf).

Questões basilares – Não se trata de uma coincidência que muito do que expôs o reitor em Bolonha esteja, de várias maneiras, elencado na edição número 105 da Revista USP, recentemente lançada, cujo dossiê é justamente intitulado “Universidade em Movimento” e que ocupa 86 das suas 135 páginas. Mas nem o reitor pautou a revista nem a publicação o pautou. O que acontece é que tanto o dirigente quanto a revista tocaram em questões basilares da atual conjuntura da Universidade de São Paulo – que não podem deixar de ser abordadas e que se espraiam para outras instituições do mesmo porte e com as mesmas preocupações (leia reportagens sobre o lançamento da Revista USP nas páginas 4 e 5). A questão da inclusão social e das cotas, por exemplo, “é um aspecto controverso em um país com longa história de miscigenação”, como apontou Zago em Bolonha, apresentando a solução uspiana para o problema, como a admissão de mais estudantes oriundos da escola pública.

Essa, de fato, é uma questão espinhosa e com uma aritmética complexa. Para o ex-reitor e atual presidente da Fapesp, José Goldemberg – que também assina texto na Revista USP –, o acesso deve ser por mérito. “Não sou favorável às cotas. Acho que, quanto mais você legislar sobre o acesso, mais complicado fica”, afirmou ele ao Jornal da USP. “Sou simplesmente favorável ao mérito, e o que a realidade mostra, no caso da USP, é que gradativamente a seleção por mérito não está atrapalhando a composição étnica. No Brasil, o que realmente importa é corrigir as distorções sociais. Então, beneficiando com um bônus os estudantes da escola pública, você beneficia pessoas com uma condição econômica pior e, indiretamente, beneficia aqueles que entrariam por cotas.”

Uma outra questão – talvez ainda mais séria – tratada por Zago diz respeito ao orçamento das universidades públicas e ao distinto repasse de verbas para as estaduais paulistas e para as federais, por exemplo. Enquanto USP, Unesp e Unicamp recebem o repasse de 9,5% do ICMS e os gerenciam da melhor maneira possível – mesmo que sofram várias críticas, como da Associação dos Docentes da USP (Adusp), que  discorda da forma como a administração da Universidade vem enfrentando os problemas financeiros ­–, as federais “dependem da permanente boa vontade do ministro da Educação e da disponibilidade de fundos que são liberados sem um forte comprometimento ou programação”.

Liberdade acadêmica – Mas o assunto vai além desse caráter monetarista. Segundo Zago, uma questão essencial para a manutenção da liberdade acadêmica tanto no campo da pesquisa quanto no campo do ensino – e isso serve para qualquer universidade latino-americana – é ter acesso ao suporte financeiro proveniente da qualidade de suas pesquisas, “para não se deixar pressionar nem pela iniciativa privada nem pelas grandes corporações”.

Para o professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) e também ex-reitor Jacques Marcovitch, essa disputa por recursos é uma constante na América Latina. “A intensa demanda por recursos financeiros para a educação é uma constante aqui e na maioria dos países emergentes. São países onde os passivos sociais, que incluem a educação e a saúde, competem com os investimentos em infraestrutura”, afirma. “A gestão universitária deve estar voltada para o ciclo longo e para a conformidade às normas pautadas na prática dos valores.”

Isso não significa, no entanto, que a Universidade deva se apartar do setor produtivo. Pelo contrário. Trata-se de uma missão de qualquer universidade pública repassar para a sociedade que a mantém a tecnologia desenvolvida em seus laboratórios. E foi justamente isso que foi salientado: a participação na solução das questões públicas mais relevantes com relação à educação, à saúde, à cultura e à agricultura, por exemplo, além de auxiliar na criação de políticas públicas. Para o ex-pró-reitor de Pesquisa Luiz Nunes de Oliveira, os problemas da sociedade possibilitam “uma pesquisa mais rica, que levam a coisas mais profundas do que um trabalho acadêmico tradicional”. E isso vai ao encontro do que precisa ser constantemente feito pelas universidades, segundo o reitor. “Essas ações servem de base para programas de ensino e pesquisa que ligam a Universidade com a sociedade, com a cidade onde ela está e com sua região.”

(Com reportagens de Aline Naoe e Thiago Castro)