Notícia

Jornal da USP

Mamica-de-cadela é a esperança

Publicado em 03 abril 2000

Pesquisadores liderados pelo professor Jairo Kenupp Bastos, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP de Ribeirão Preto, isolaram 15 substâncias da planta mamica-de-cadela - de nome científico bem complicado: ZanthoXylnm naranjillo-ruttaceae - é numa delas, a cubebina. encontraram grande atividade antiinflamatória: em outra, a metilpluviatolide, atividade de combate à doença de Chagas. A surpresa mesmo foi a última descoberta que abre caminho para a prevenção e talvez cura da doença de Chagas, que ainda não conta com medicamento eficaz. A pesquisa rendeu a publicação, no final do ano passado, de artigo na revista alemã Planta Médica (n° 65. páginas 541-544), uma das mais importantes da área, assinado pelos professores Jairo Kenupp Bastos. Sérgio Albuquerque, também da FCF/RP, e Márcio Silva, da Universidade de Franca. As substâncias encontradas na mamica-de-cadela pertencem à classe química das lignanas, amplamente estudadas em vários centros de pesquisa no Brasil, incluído o Instituto de Química da USP, pois apresentam grande potencial farmacológico. Jairo informa que nunca havia sido mencionada na literatura a ação da metilpluviatolide contra a doença de Chagas. Essa enfermidade tradicionalmente entra na vida das pessoas através do inseto conhecido como barbeiro, bicudo, cascudo ou persevejão, ou ainda pela contaminação na transfusão de sangue. É causada pelo Trypanosoma cruzi, um germe que normalmente vive no sangue de animais como o cão, o gato e roedores. Ao sugar o sangue dos animais contaminados o inseto se contamina também e passa a transmitir a doença ao homem pela picada. SUBSTÂNCIA ELIMINA PARASITAS DO SANGUE A melilpluviatolide pode ser fundamental na prevenção da doença de Chagas por contaminação em transfusões de sangue, pois elimina os parasitas. Esse recurso é potencialmente importante nas regiões endêmicas, onde o controle de qualidade do sangue é precário. Nesses casos se utiliza a violeta genciana, que se manifesta eficaz na destruição do parasita, mas muda provisoriamente a coloração do sangue. A melilpluviatolide foi capaz de eliminar todos os parasitas numa concentração de 20 microgramas por ml, sendo que a concentração de violeta é muito maior. Os pesquisadores concluíram que a metilpluviatolide é muito mais eficaz como medicamento profilático. Recentemente, os professores Norberto Peporini Lopes e Sérgio Albuquerque, ambos da FCF/RP, patentearam outra substância do mesmo grupo das lignanas, também com atividade tripanocida. Já na atividade in vivo da metilpluviatolide no tratamento de animais infectados pelo trypanosoma os resultados foram só parcialmente positivos, pois a substância não foi absorvida pelos tecidos, onde se hospeda o parasita, mas duplicou a sobrevida dos animais testados. Por isso o grupo trabalha agora no desenvolvimento de derivados químicos, na tentativa de melhorar a atividade da substância, inclusive de absorção, o que poderá torná-la ainda mais potente e no futuro importante medicamento no combate à doença de Chagas. O extrato da mamica-de-cadela já foi analisado globalmente e não apresentou efeito tóxico. Os dados foram publicados na revista Phytotlherapy Research (vol. 12. páginas 512-516, de autoria de Élcio Rodrigues. Antenor Pedrazzi e Jairo Kenupp Bastos). Estuda-se agora a toxicidade das substâncias ATRASO DE 50 ANOS Em 1999 foi comemorado o 90º ano da descoberta da doença de Chagas pelo mineiro Carlos Chagas. Até hoje o mal não (em cura comprovada, fazendo grande número de vítimas. No Brasil são 6 milhões de infectados e mais de 20 milhões de expostos à doença, que causa sé- rios problemas cardíacos e gastro intestinais, podendo levar à morte. Os Estados mais atingi- dos são Minas Gerais. Goiás, Bahia. Rio Grande do Sul e os da região Nordeste. O tratamento de doenças com plantas no Brasil, a fitoterapia, está 50 anos atrasado, segundo Jairo Kenupp. Até a década de 40 o País linha indústria farmacêutica vigorosa. Por meio das boticas os farmacêuticos começaram a produzir medicamentos e as boticas viravam indústrias. Medicamentos e vacinas eram exportados através dos Institu- tos Adolfo Lutz, Butantan e Oswaldo Cruz. Nessa época o Brasil optou pelo modelo norte-americano de produção de medicamentos, abandonando o modelo europeu. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, toda indústria de produção de substâncias químicas passou a fazer testes para desenvolver medicamentos. Surgiram então os medicamentos sintéticos, o que não foi ruim, mas empresas incipientes brasileiras foram incorporadas pelas multinacionais farmacêuticas, introduzindo o modelo alopático norte-americano no mercado brasileiro. Enquanto isso na Europa e na Ásia continuaram a coexistir os dois modelos, o fototerápico e o alopático. explica o pesquisa- dor. FOTOTERÁPICOS EM EVIDÊNCIA Hoje os fototerápicos estão novamente em evidência em todo o mundo, enquanto o Brasil amarga significativo atraso. Sem legislação adequada para produção desse tipo de medicamento, boa parte deles está sendo produzida de forma artesanal, sem processos definitivos nem controle de qualidade. "Tendo em vista a biodiversidade do País. uma das maiores do planeta, principalmente do ponto de vista de plantas, é necessário recuperar o prejuízo, fazendo o estudo das plantas medicinais já existentes, industrializadas e comercializadas. que são mais de 500, sem considerar as medicinais utilizadas pela população, que são mais de 20 mil. A partir disso, começar a desenvolver processos desde o cultivo até o produto final. para que se tenha um medicamento com qualidade, além de garantir segurança", desabafa o professor Jairo. Mais informações com o professor Jairo pelo telefone (0xx16) 602-4230.