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Malária: Potencial epidêmico

Publicado em 13 abril 2007

Por Washington Castilhos, Agência FAPESP

"Em entrevista à 'Agência Fapesp', o parasitologista Luiz Hildebrando Pereira da Silva fala dos desafios promovidos pela malária na região amazônica, que podem aumentar por conta das grandes obras previstas para os próximos anos"

Entre as ações previstas no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do governo federal estão as construções de duas hidrelétricas em Rondônia, ao longo do rio Madeira. Para o parasitologista Luiz Hildebrando Pereira da Silva, da Universidade Federal de Rondônia, construções como essas podem representar uma explosão da malária no estado.
"Sabemos que a região tem um potencial grande para desenvolver epidemias da doença por causa das grandes obras", disse, lembrando que Rondônia chegou a ter 50% dos casos da doença no país na década de 1990 — o Brasil registrava então mais de 600 mil casos na região amazônica, uma das maiores zonas malarígenas do mundo.
A situação foi controlada, mas em 2005 o numero de infectados ultrapassou novamente a marca dos 600 mil casos.
"Só em Rondônia foram 120 mil naquele ano. A periferia de Porto Velho apresentava uma densidade anofélica de 30 picadas do mosquito transmissor por hora, ou mais de 200 por noite", contou o pesquisador durante palestra na quinta-feira (12/4), no Seminário Henrique Aragão e a pesquisa sobre a malária: 100 anos da descoberta do ciclo exoeritrocítico da malária, realizado pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC) e pela Casa de Oswaldo Cruz no RJ.
Formado em medicina pela Universidade de SP, na qual chegaria a professor titular, Pereira da Silva foi cassado e exilado durante o regime militar instaurado no Brasil na década de 1960. No exílio, foi participante do Comitê Brasileiro de Anistia de Paris. Depois de trabalhar por 32 anos no Instituto Pasteur, na França, retornou ao Brasil.
Membro da Academia Brasileira de Ciência, o cientista atualmente também é diretor do Instituto de Pesquisas em Patologias Tropicais de Rondônia (Ipepatro).
Em entrevista à "Agência Fapesp", o parasitologista falou dos desafios da malária na região amazônica e propôs idéias para o controle da doença. "Para estudar a malária humana é necessário ir para um lugar endêmico", afirma.

Agência Fapesp — Por que a malária continua sendo um grave problema na região amazônica? Quais são os maiores problemas atuais?
Luiz Hildebrando Pereira da Silva — Historicamente, os grandes surtos de malária ocorreram durante a construção da estrada de ferro Madeira-Mamoré, devido aos grandes deslocamentos de pessoas de outras regiões do país para o garimpo, e como conseqüência da construção de hidrelétricas. Isso sugere que a região tem um forte potencial para desenvolver epidemias concomitantemente a essas grandes obras. A despeito desse fato, o governo federal quer construir mais duas hidrelétricas ao longo do rio Madeira e gastar bilhões com isso. Com muito menos dinheiro poderíamos controlar a ocorrência da doença na região. Nosso objetivo é estudar o porquê desse potencial malarígeno. Já temos algumas pistas que podem nos ajudar a controlar a doença.

— Que pistas são essas?
Pereira da Silva — Em primeiro lugar, há uma alta incidência de pessoas assintomáticas. Quase 50% dos adultos são assintomáticos. Eles infectam o mosquito vetor e esses transmitem a doença a outras pessoas. Pudemos observar que, apesar de haver uma alta incidência do mosquito anofelino fora de casa, a transmissão se dá de forma intradomiciliar. Além disso, estudos mostram haver uma relação entre parasitos das espécies Plasmodium falciparum e Plasmodium vivax. Aliado a isso tudo há o fato de o anofelino se alimentar sucessivamente de vários indivíduos.

— E como essas informações podem ajudar?
Pereira da Silva — A partir dessas pistas, estamos propondo um plano específico de controle à malária, introduzindo inovações nos métodos para evitar epidemias que possam se desenvolver no processo de construção das barragens dessas hidrelétricas que serão construídas. As obras atrairão trabalhadores que vêm de áreas não malarígenas. Só jogar fumaça no mosquito não vai resolver. Esse método representa uma visão viciosa da política do governo, baseada na idéia de que o transmissor da malária está somente fora de casa. E sabemos que isso não é verdade. Há essencialmente um transmissor domiciliar e deveria haver um controle vetorial focalizado na transmissão direta.

(Agência Fapesp, 13/4)