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MAL-ESTAR E EDUCAÇÃO: algumas reflexões sobre a (im)possibilidade de ensinar

Publicado em 30 janeiro 2020

Por Jéssica Vidal Damaceno e Filomena Elaine Paiva Assolini

Apresentada como um campo de impasses, a educação brasileira pode ser facilmente flagrada em lamúrias, queixas e uma constante sensação de crise. Já a escola, pode ser vista como um espaço propício para que conflitos, dúvidas, tensões e incertezas venham à tona. Sem focar nos aspectos “negativos” que atravessam a educação, podemos nos questionar sobre o que acontece fora da escola e que têm relação direta com o ato de ensinar. Você já pensou de quais formas uma sociedade pautada na exposição da vida nua e crua, através de reality shows e redes sociais que valorizam o espetáculo, podem influenciar as ações escolares e o fazer docente? Ou ainda, o tom fugidio das relações e o imaginário de que tudo pode e deve ser descartado a qualquer momento? Questões como essas são evocadas, aqui, para refletirmos que na sociedade atual, as transformações e demandas acontecem “numa única direção: de fora para dentro, do exterior para o interior” (CORACINI, 2017, p. 282).

Essas e tantas outras situações que ocorrem fora do espaço escolar, influenciam o trabalho pedagógico e muitas vezes determinam as escolhas feitas por esses profissionais. Desse modo, pensar sobre o mal-estar na educação, não se trata de olhar ingenuamente para o lado negativo da escola ou para aquilo que não está bem na educação. Falar em mal-estar na educação exige partir do pressuposto de que não é possível esgotá-lo, pois o mesmo é inerente à condição humana, já que homens e mulheres precisam abrir mão de seus impulsos individuais para viver em comunidade. Assim sendo, em toda relação humana, seja com outros homens ou com a natureza, o humano estará diante de tensões e, portanto, do mal-estar.

Contudo, “o mal-estar é a condição de criarmos cultura e civilização; também já é reconhecido que a Educação é um campo cheio de paradoxos, cuja insatisfação constante deve ser tomada, como efeito da impossibilidade enquanto condição permanente do ato de educar” (GURSKI, 2014, p. 172).

Entretanto não podemos aceitar o efeito paralisante que vem como produto das queixas e lamúrias, não só dos professores, mas também dos pais, diretores e comunidade. É preciso refletir sofre as condições de sofrimento e angústia dos educadores e trabalhar uma escuta significativa para que algumas questões sejam desligadas e com esperança, determinação e alegria, outros deslocamentos sejam feitos. Não há mais espaço, hoje, para acomodação no discurso de queixa como tentativa de suturar o mal-estar da[1] educação.

Tendo exposto o complexo campo que a educação se (des)enrola, podemos saltar para a reflexão sobre o fazer docente, entendido como um trabalho[2] político pedagógico que se relaciona diretamente com as (im)possibilidades própria do ato de educar.

Buscando na etimologia da própria palavra, vê-se que do latim duco, ducere, docente (bem como educar) são palavras que remetem àquele que tem o poder de levar, de conduzir alguém para outro lugar. Se pensarmos nos infinitos lugares que o professor com seu trabalho docente pode levar os alunos, encontramos a beleza da profissão. Uma beleza tão grande, que é capaz de impulsionar a potência do novo e provocar nos alunos um deslocamento para outros lugares, para novos olhares.

No processo educativo o professor precisa criar condições para que o aluno problematize, pois é através da experiência que se pode apre(e)nder. A aprendizagem só ocorre quando o desejo[3] de cada um é tocado, e isso acontece quando o conteúdo passa pelo corpo constituindo a subjetividade de cada um. Nesse sentido, ações pedagógicas baseadas na experiência ou na pesquisa, e que fogem do controlável, do visível e sabido, potencializam o caminho para o lugar do desconhecido, do diferente, da aprendizagem.

Acreditamos que mesmo enfrentando, diariamente, adversidades para a concretização do seu trabalho, os professores podem abrir espaço para o novo, o belo, e deslocar sentidos driblando o sofrimento e a angústia no seu fazer pedagógico ao mesmo tempo em que favorece uma aprendizagem significativa. Afinal se a macroestrutura não modifica, nós podemos aos poucos fazer uma revolução minimalista. Como incentivo, busquemos ancoragem em discursos que evocam e valorizam aquilo que os professores dispõem sem focar apenas no que eles não têm ou naquilo que não tem dado tão certo na educação. Sejamos o início da (trans)formação que tanto esperamos...

 

REFERÊNCIAS:

CORACINI, Maria José. Mal-estar na docência: sintomas da/na contemporaneidade. In: PEREIRA, Marcelo Ricardo (org.). Os sintomas na educação de hoje: que fazemos com “isso”?. Belo Horizonte: Scriptum, 2017, 282 – 289.

GURSKI, Roselene. Três tópicos para pensar “a contrapelo” o mal-estar na educação atual. In: VOLTOLINI, Rinaldo (org.). Retratos do mal-estar contemporâneo na educação. São Paulo: Escuta/Fapesp, 2014, 167 – 180.

GUISSO, Luciane; GESSER, Marivete. Sentidos atribuídos pelos professores de séries iniciais aos desafios na carreira docente. Pro-Posições, Campinas, v. 30, p. 1 – 18, 2019.

DUNKER, Christian. O desejo – Glossário Freud. 2017. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=7IbDt2T0fnU>. Acesso em: 29 jan. 2020.

 


[1] Na tentativa de mascarar ou negar o mal-estar, a escola enquanto espaço legitimado de aprendizagem pode se tornar fonte do próprio mal-estar.

[2] Como sujeito histórico-social, o homem modifica a natureza e se modifica pelo trabalho (GUISSO; GESSER, 2019).

[3] Não deve-se confundir desejo com vontade. Aqui, o desejo é entendido como um retorno, uma volta à determinada experiência que deixou um traço de satisfação no sujeito. Veja: https://www.youtube.com/watch?v=7IbDt2T0fnU