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Revista Brasileira de Risco e Seguro

Mais uma vitória da medicina diminui risco de surtos da Sars

Publicado em 03 julho 2007

Uma equipe internacional de pesquisadores identificou os primeiros anticorpos humanos que podem neutralizar diferentes tipos do vírus responsável pelos surtos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (Sars, na sigla em inglês).

Os cientistas utilizaram um modelo animal (camundongos) e ensaios in vitro para testar a atividade neutralizante dos anticorpos. Os resultados da pesquisa serão publicados esta semana no site e em breve na edição impressa da revista Proceedings of the National Academy of Sciences (Pnas).

Os surtos de Sars ocorreram em humanos entre 2002 e 2003 e, novamente, entre 2003 e 2004. Estima-se que cada um dos surtos tenha ocorrido quando o vírus passou de um animal hospedeiro para humanos. Com isso, tipos do vírus presentes em animais poderiam ser capazes de desencadear um futuro surto em humanos.

A equipe foi liderada por cientistas do Instituto Nacional do Câncer (NCI) e do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas (Niaid), ambos ligados aos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos. O trabalho teve colaboração do Exército norte-americano e de instituições acadêmicas da Suíça e Austrália.

"Esse estudo é importante, uma vez que o tipo viral que causou o surto em humanos em 2002 provavelmente não existe mais na natureza", explicou Kanta Subbarao, do Niaid, cujo laboratório verificou a eficácia dos anticorpos anti-Sars em modelos animais.

"O que precisamos provar para a obtenção de qualquer vacina, terapia, anticorpo ou droga é se ela é efetiva não apenas contra o tipo de vírus isolado de pessoas, mas também contra uma variedade de tipos animais, uma vez que os animais serão uma provável fonte de reemergência da Sars", afirmou.

Quando a primeira epidemia da síndrome ocorreu, em 2002, o líder da equipe de pesquisa, Dimiter Dimitrov, do NCI, aplicou o conhecimento de seu laboratório sobre a entrada de vírus em células, adquirida com o estudo do HIV, para entender como o novo vírus explorava as células humanas.

A pesquisa sobre a glicoproteína que é o vetor do vírus (isto é, que permite sua entrada na célula) disponibilizou o conhecimento necessário para identificar vários anticorpos humanos contra o vírus da Sars.

Dimitrov e equipe identificaram dois anticorpos que se ligam à região do vetor do vírus conhecida como RBD. Um dos anticorpos foi encontrado no sangue de um paciente que havia se recuperado da Sars após infecção. O outro foi retirado de uma biblioteca de anticorpos humanos desenvolvida pelos pesquisadores com o sangue de dez voluntários saudáveis.

Como os humanos já têm células imunes que expressam anticorpos muito próximos àqueles que podem de fato neutralizar o vírus da Sars, o segundo anticorpo pôde ser retirado de voluntários saudáveis.

A estrutura do anticorpo foi determinada e os pesquisadores demonstraram que o anticorpo se liga à RBD, que permite a entrada do vírus nas células. Nos testes laboratoriais, ambos os anticorpos neutralizaram potencialmente amostras do vírus.

Os cientistas testaram em seguida os anticorpos em ratos. Vinte e quatro horas depois de receber injeções com um dos dois anticorpos, os animais foram expostos a amostras do vírus da Sars de um dos dois surtos, ou dos vírus isolados a partir dos gatos selvagens.

Os ratos que receberam os dois anticorpos ficaram completamente protegidos da infecção por Sars de humanos. Ficaram também protegidos contra a infecção de Sars dos gatos selvagens, mas não completamente.

Análises posteriores da estrutura do anticorpo encontrado em humanos saudáveis e de suas interações com mutações experimentais na área RBD do vírus sugeriram que o anticorpo poderia neutralizar todas as formas conhecidas do vírus.

"Essa pesquisa nos deixa mais bem preparados para a possível reemergência de vírus semelhantes aos que causaram mais de 8 mil casos de Sars em humanos e cerca de 800 mortes entre 2002 e 2003", disse o diretor do Niaid, Anthony Fauci.

O artigo Potent cross-reactive neutralization of Sars coronavirus isolates by human monoclonal antibodies, de Dimiter Dimitrov e outros, pode ser lido por assinantes da Pnas em www.pnas.org.

Fonte: Agência Fapesp