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Meio Ambiente Industrial

Mais saneamento, menos aquecimento global

Publicado em 01 fevereiro 2011

Gesner Oliveira; Economista; doutor em Economia pela Universidade Berkeley; professor da FGV-SP; ex-presidente da Sabesp - Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo

Marcelo Morgado;Engenheiro químico (IME); assessor de Meio Ambiente da Presidência da Sabesp; membro do Cosema/FIESP; Conselheiro de Desenvolvimento das Cidades da Fecomérclo - Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo

O saneamento será fortemente afetado pelas mudanças climáticas. A instabilidade no regime de chuvas afetará a previsibilidade do abastecimento. Haverá maior evaporação nas represas e carreamento de sedimentos para os mananciais, eventuais alterações no comportamento de lançamentos em emissários d até aumento do consumo de água, devido ao calor. Isto torna vital planejar e executar ações de mitigação e adaptação.

Porém, diferentemente de outros setores da economia, cujo crescimento tende a aumentar a emissão de gases de efeito estufa, a maior oferta de saneamento básico contribui potencialmente para a redução do aquecimento global, além dos inequívocos ganhos ambientais e sociais.

O aumento da coleta e tratamento de esgoto -apenas 44% da população tem acesso ao serviço — pode levar menos CO2 equivalente para a atmosfera, devido à substituição de emissões de metano por CO2, gás 21 vezes menos potente como fator de efeito estufa. Isto adviria da generalização da destinação de esgoto para Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs), com processo aeróbio (lodos ativados), no lugar de fossas caseiras (baixo desempenho e processo anaeróbio) e, sobretudo, por se deixar de lançar esgoto in natura em rios e lagos, no fundo dos quais a fração sólida se decompõe, também gerando o famigerado metano.

Além da universalização do tratamento do esgoto, cabe esforço no uso eficiente da energia, já que se trata de setor eletrointensivo, respondendo por 2,6% do consumo nacional. Em São Paulo, a Sabesp é o maior consumidor individual (1,8%). Os principais usos estão no tratamento de esgotos, que demanda suprimento de ar nos tanques de aeração e no bombeamento de água, já que a rede é pressurizada, ao contrário da para coleta de esgoto, em geral com escoamento por gravidade.

A geração de gases de efeito estufa advém justamente das emissões indiretas da parcela termoelétrica da matriz energética. O pioneiro inventário de carbono realizado pela Sabesp apontou tal valor em 93% do total.

Em 2009, a Sabesp conseguiu baixar em 2,3% o consumo de eletricidade por metro cúbico de água produzida após tendência de aumento por três anos. Em 2010 houve uma redução ainda mais expressiva, de 4,3%. O ganho se deve, em boa medida, ao programa de redução de perdas por vazamentos. Hoje, as perdas físicas são da ordem de 16,5% (dentre as menores do país) e o consumo específico nos serviços de água de 0,607kWh/m3.

Por outro lado, há oportunidades de explorar fontes alternativas, que também reduzam emissões e possam ser beneficiadas com créditos de carbono. Destacamos as pequenas centrais hidrelétricas (PCHs) em desníveis entre represas para abastecimento e nos lançamentos de efluentes tratados. Ou seja, energia limpa e sem os impactos ambientais resultantes de novos alagamentos. A Sabesp, da sua parte, já contratou a implantação de duas PCHs (7 MW) em represas do Sistema Cantareira, o maior da RMSP.

Outra possibilidade, já vigente nos países desenvolvidos, é a cogeração pela combustão do biogás e do lodo gerados nas ETEs, gerando eletricidade, e com uso do vapor para aquecer os biodigestores, aumentando a produção de metano a ser queimado.

Mesmo pequenas economias não devem ser negligenciadas e podem ser replicadas: aquecedores solares em estações de tratamento de esgoto podem fornecer água quente para o banho dos operadores e para lavagem de equipamentos como centrífugas de lodo. A ETE Taubaté- remembé usa aquecedor para 1800 litros por hora @ 55°C, economizando, também, produtos químicos, pois a alta temperatura assegura a limpeza.

Por fim, há a opção de cobertura das lagoas anaerobias em ETEs. Isto permite não apenas eliminar odor, como queimar o metano e até usá-lo em pequenos geradores para o consumo local (7 ETEs da Sabesp possuem cobertura).

Ainda no campo da mitigação, é fundamental a captura de carbono pelo plantio de árvores. A recomposição de matas ciliares é a maior garantia de preservação dos mananciais. O plantio de 1,25 milhão mudas em 321 ha no entorno de represas que abastecem a RMSP resulta na absorção de 260 a 300 toneladas de carbono por hectare e induz localmente o manejo agroflorestal, menos impactante que a pecuária de leite extensiva.

Muitas outras medidas mitigatorias podem ser citadas, mas cumpre lembrar algo que vale para qualquer empresa: a modernização da frota, adotando-se a tecnologia flex com obrigatoriedade de abastecimento com álcool. Na Sabesp fez-se a renovação de 32% da frota de 3677 veículos leves, com redução do total e locação, incluindo cláusulas contratuais para melhor manutenção.

Quanto às ações de adaptação, visando ao enfrentamento dos efeitos do aquecimento global, destacam-se aqui ao menos duas medidas fundamentais, ambas relacionadas ao uso adequado da água. São elas a redução de vazamentos de água e o incentivo ao uso racional desse recurso escasso. Aliás, simplesmente poupar água no banho também reduz o consumo de energia no chuveiro elétrico ou no aquecedor a gás.

O intercâmbio e a inovação tecnológica são os caminhos para construção de uma economia sustentável de baixo carbono. Por isso, a Sabesp participou da COP15 - Copenhague e COP16 — Cancun, realizando palestras e se manifestando via o "Seal the Deal", iniciativa do Pacto Global da ONU. Para fomentar a inovação no saneamento a Sabesp e a Fapesp vão aportar R$ 50 milhões nos próximos cinco anos, e uma das sete linhas de pesquisa é justamente a eficiência energética.

O combate ao aquecimento global requer das organizações, públicas ou privadas, a capacidade de inovar e mudar. É preciso ter coragem para experimentar, assumir riscos, criar padrões e metas mais elevados. Há muito a se fazer no cotidiano das empresas, enquanto as esperadas e decantadas "game-changing technologies" não chegam.

Em resumo, o lema é o do ambientalismo: "pensar globalmente e agir localmente". Isto precisa envolver cada cidadão do planeta Terra.