Notícia

Jornal da USP

Mais que um café, um banquete tecnológico

Publicado em 27 setembro 1999

Enquanto os promotores da reunião serviam pãezinhos, geléias e tudo mais que uma mesa farta pede, cientistas e pesquisadores detalhavam projetos inovadores e bem práticos: realimentação fora do corpo de bateria acoplada ao coração artificial, reposição e crescimento de ossos humanos, transformação do chorume (líquido gerado pelo lixo) em inseticida, substituição de chuveiros elétricos por aquecedores solares, avanços na fabricação do hormônio do crescimento e alternativas para tratamento quimioterápico menos agressivo. UM BANQUETE TECNOLÓGICO O avanço tecnológico nunca deixa de surpreender. Atualmente, qualquer osso do corpo humano pode voltar a crescer; a bateria acoplada ao coração artificial pode ser realimentada fora do corpo; o chorume (líquido originário do lixo orgânico) está se transformando em inseticida; os chuveiros elétricos serão substituídos por aquecedores solares; progridem pesquisas sobre o hormônio do crescimento, enquanto tratamentos quimioterápicos experimentam alternativas mais confortáveis para os pacientes. Tudo isso já é realidade no Centro Incubador de Empresas Tecnológicas (Cietec), que comemora 18 meses de atividades. Criado a partir de iniciativa da USP. Sebrae. Secretaria de Tecnologia e Desenvolvimento Econômico do Estado de São Paulo. Comissão Nacional de Energia Nuclear do Ipen (Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares), Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) e Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), apresentou resultados positivos, em 16 de agosto, a várias autoridades num evento denominado Café tecnológico. A ponte do saber para o fazer foi traçada pelo presidente do Conselho do Cietec, Cláudio Rodrigues, quando identificou o trabalho ali desenvolvido com cooperação, competitividade e contribuição para a vocação econômica do Estado de São Paulo. Referia-se a 16 pequenas e microempresas que desenvolvem alta tecnologia, incubadas no Cietec, usufruindo de total infra-estrutura de apoio, por três anos. Não há mais espaço na sociedade para fazer ciência sem saber para onde ela vai, resume. A incubadora de negócios exige que os interessados apresentem projetos, transformados em empresas, e ali os desenvolvam. Depois disso, ganham o mercado. Existem hoje 12 empresas incubadas no Cietec aguardando o tempo de maturação do processo para atingir a comercialização. Quatro delas Já estiono mercado. Segundo Sérgio Risola, gerente do centro, este foi o resultado positivo apresentado no evento. São elas: Proline, Lasertours, PGE, Tecnolab. Ele aposta no crescimento exponencial das empresas, embora ainda tenham faturamento em torno de R$ 4 mil a R$ 5 mil por mês. No momento, o Cietec conta com oito produtos que estão virando cabeça de série. São oriundos de empresas que precisam de capital para continuar seu trabalho. Até agora, a infra-estrutura de apoio vinha dos parceiros que apóiam essa iniciativa. Mas tudo começa a ser pouco quando se passa da fase de produto cabeça de série (piloto) para o mercado. Daí em diante são necessárias parcerias com empresas capazes de comercializar o produto. Isso sempre exige capital. Por isso estamos buscando empresários que invistam nessa causa, reforça Risola. A solução não está tão longe. O Sebrae deverá ser reinventado, afirma Cláudio Tervydis, da Divisão de Tecnologia do órgão. Ele informa sobre dois focos envolvendo destinação de capital. Um deles, o microcrédito, será destinado a pequenas empresas (o auto-emprego). Seria a costureira que precisa financiar uma máquina de costura ou o vendedor de cachorro-quente que necessita de uma perua. O microcrédito será implantado em curtíssimo prazo, em nível nacional, anuncia Tervydis. Também está prevista para curto prazo a implantação de empresas voltadas para a aplicação de capital de risco. São Paulo já deu o primeiro passo nessa direção, pois temos aqui empresas de base tecnológica interessadas no capital de risco (investir em tecnologia), com potencial de mercado. Tervydis informa que a experiência mundial demonstra que o empresário investe em dez empresas, perde em sete, empata em duas e em uma apenas recupera a perda, o que empatou e um pouco mais, assinala. O Cietec apresentou proposta de ampliação - em área de 1.560 metros, quadrados - visando a apressar a acomodação de mais 15 empresas que aguardam hospedagem. As incubadoras de negócios abrigam idéias revolucionárias e oferecem tecnologia capaz de dar à empresa alto valor agregado do produto; não um produto comum de mercado, salienta Risola. A partir do desenvolvimento de projetos em curso no Cietec foi possível deixar de importar muitos dos produtos utilizados. O centro volta a falar em crescimento no setor de tecnologia nos próximos 60 dias. Na oportunidade, imprensa, empresários e comunidade acadêmica serão convidados para presenciar, em mais um Café tecnológico, o apoio definitivo à exportação dos produtos desenvolvidos pelas empresas hóspedes. O Cietec busca sempre a capacidade competitiva das empresas e avança em direção do emprego. Sérgio Risola informa que foram investidos, era 16 meses, R$ 732 mil agregados diretamente aos projetos e, indiretamente, 79 empregos foram gerados. O baixo custo do emprego foi abordado por Cláudio Rodrigues. Segundo demonstrou, o custo do emprego, na pequena e microempresa é irrisório em relação a outros setores da economia. São necessários de R$ 4.500,00 a R$ 5 mil para gerar um emprego na pequena e microempresa, enquanto se exigem R$ 300 mil para gerar um emprego na indústria e R$ 40 mil na construção civil. O Cietec gera um emprego a cada R$ 9.260,00 gastos, revela. Os empresários presentes foram convidados a fortalecer seus investimentos nessa iniciativa. Ficou demonstrado, porém, que vários movimentos estão sendo encaminhados no sentido de apoiar a pequena e a microempresa. O País está despeitando para a necessidade de apoio a esse setor, rápido gerador de emprego com pouco investimento, resultado do trabalho de conscientização realiza do pelo Sebrae, junto a entidades sindicais. Há modelos nesse sentido na Espanha, Itália e Estados Unidos, que venceram o desemprego através das micros e pequenas empresas, disse o presidente da Fapesp, Francisco Landi. Ele lembra que a pequena empresa, nos Estados Unidos, representa cerca de 51% do Produto Interno Bruto (PIB), ou mais da metade das exportações. Considera que o programa de apoio à pequena empresa, naquele país, é muito forte. O Brasil tem baixa capacidade para competir, pois as empresas não perceberam que a inovação tecnológica deve ser encarada como uma forma de competição. Além disso, acredita ser preciso cooperar para competir, pois coopera-se no macro e compete-se no micromercado. Empresas competitivas precisam estar bem estruturadas, pois não é possível crescer explorando o mercado de forma predatória. Competição não existe sem cooperação, resume. O apoio do governador Mário Covas fortaleceu o encontro e foi manifestado pelo secretário adjunto da Secretaria de Ciência e Tecnologia, Antonio Guerra, que disponibilizou todo o equipamento necessário, sob responsabilidade do Estado, para dar prosseguimento aos projetos. TECNOLOGIA DE PRIMEIRO MUNDO Pequenas empresas brasileiras estão atraindo a iniciativa privada e viabilizando soluções de alta tecnologia. Há cerca de dez anos, a Sunpower estuda formas de substituir o chuveiro elétrico tradicional por aquecedores solares. Trata-se de empresa ambiental preocupada com o aquecimento do planeta. O Brasil é um dos campeões mundiais em dar conforto a seus habitantes através da água quente, afirma Augustin Woelz, da Sunpower. Segundo ele, o brasileiro tem direito à água quente pagando apenas R$ 10,00, o que não ocorre em lugar nenhum do mundo. Isso quer dizer que quem ganha um salário mínimo pode comprar e usar um chuveiro elétrico. Luxo que atinge 25 milhões no País. Mas a energia elétrica originada de usinas hidrelétricas, que não emitem gás carbônico, era a garantia desse conforto. Só que sua capacidade está esgotada. Por isso, deverão ser substituídas por termelétricas num prazo de dez anos, secundo Woelz. A missão da Sunpower é baratear o custo dos aquecedores solares, de R$ 1 mil a R$ 2 mil para cerca de R$ 100,00. Os aquecedores deverão ainda economizar energia, oferecer um banho melhor, sem perigo de choque, e pagar-se em poucos meses. A previsão é de um ano e meio para concluir pesquisas nessa área e oferecer ao consumidor a oportunidade de ele mesmo construir a base de instalação do equipamento, através de manual explicativo. A empresa entra com a menor parte - conjunto de peças que não deverá custar mais de R$ 100,00. Nem só de banho vive o Cietec. A DC Systems desenvolve projeto voltado para o monitoramento e diagnóstico de baterias instaladas no corpo humano. O sistema de alimentação do coração artificial exige bateria externa de alta capacidade. Por comunicação transcutânea (através da pele) é possível acoplar o equipamento interno ao externo e fazer a realimentação. Não há buraco na pele. O coração artificial é implantado cirurgicamente com uma bateria interna, enquanto a externa poderá realimentá-la, conforme a necessidade, afirma o engenheiro Armando Patrício, diretor de Relações de Mercado, um dos responsáveis pela pesquisa. O equipamento necessita de estrutura especial, de titânio, com tratamento adequado para evitar rejeição. O titânio é um material leve e mais resistente que o aço. Toda a fiação é inerte para evitar reação dentro do corpo, diz ele. O coração artificial está sendo desenvolvido pelo Instituto Dante Pazzanese. OSSOS PARA TODOS O cateter implantável favorece o tratamento quimioterápico. Tradicionalmente, as drogas injetadas no corpo, através da veia do braço, demoram para atingir a corrente sanguínea e, por serem muito fortes, causam danos à pele e à veia, informa Vagner Zaramello, diretor administrativo da Interbiotec. O cateter implantável que a empresa está desenvolvendo é implantado através de cirurgia simples, próximo do coração, com uma cápsula em seu interior, por onde é injetado o medicamento. A corrente sanguínea é atingida com maior rapidez e, quando o tratamento termina, é possível retirá-lo. O cateter e confeccionado em silicone para não oferecer rejeição. Qualquer osso do corpo pode ser reconstituído. Os ossos crescem por meio de indução. Palavra do engenheiro de materiais Francisco José Corrêa Braga, à frente do projeto Dispositivos e Materiais para Reconstituição Óssea. Ele explica que a matéria óssea bovina tem componentes compatíveis com o organismo humano. É possível promover o crescimento ósseo através dessa matriz. A semelhança entre tais elementos é trabalhada por ser biocompatível por meio de processos químicos e térmicos. Braga prepara materiais para qualquer tipo de reconstituição. São produtos na forma de granulados, placas, blocos, pinos e cones essencialmente minerais. Se, por acaso, alguém teve uma fratura de crânio, com perda de parte da calota craniana, é preparada peça semelhante a essa calota e fixada a partir de componentes metálicos. Em geral, utiliza-se o titânio. Uma vez fixada na falha, a peça favorece o crescimento ósseo interior por ser porosa. É o que chamamos de produtos ósseo condutores. Braga explica que, em geral, não existe rejeição. E afirma que existem na literatura casos de rejeição em pacientes com problemas metabólicos ou de muita idade. Os que têm câncer, por exemplo, apresentam dificuldade para ter os tecidos regenerados, pois já sofrem de doença degenerativa. A técnica é aplicada com sucesso tanto em casos de tumores dentários (que deixam falhas) como em mandíbulas quebradas. Crio espaço onde não tem mucosa nem músculo com uma matriz mineral que favorece o crescimento do osso dentro dele. Com o passar do tempo, a matriz é absorvida pelo organismo, formando um osso normal. É possível conhecer no Cietec experiências que fazem acreditar que o lixo não existe, pois pode ser quase todo transformado. O engenheiro civil João Carlos Pasqualini, presidente da Cooperativa Nacional de Assessoria e Tecnologia, aponta alguns avanços. Dá para reciclar tudo, até mesmo papel higiênico usado, pois é matéria orgânica, tem celulose e carbono e pode virar adubo, diz ele. É aproveitável em hortas, jardins e para a agricultura orgânica. Existe uma tradição de que o lixo orgânico tem de ser enterrado em algum lugar. É algo meio cultural, pois ninguém gosta de lixo próximo de casa. Teoricamente a medida mais certa seria o aterro, pois é mais barata. Mas o custo ambiental-social é alto, informa. O aterro sanitário provoca forte odor, queima de gases e vazamento de chorume que contamina o lençol freático. Além do mais. é uma tecnologia da década de 30, lembra o engenheiro. Há experiências, hoje, que otimizam processos que ocorrem no biodigestor. Ali o lixo é separado, triturado e, a cada camada, são inoculados microorganismos. Primeiro é expelido o gás, em seguida o chorume, restando, ao final, um sólido pastoso. O material vai sendo digerido, diminuído e adensado: o sólido é prensado, secado, moído e ensacado. O produto que sai do biodigestor - garante o engenheiro - serve como ração animal. Na pré-seleção do lixo, se houver frutas, legumes, verduras, cascas de cereais, será possível obter a ração diretamente, reforça. Este é o lixo ao qual todos querem dar fim. O líquido que sai do lixo (chorume) pode servir de inseticida. Experiências nesse sentido foram feitas pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), para combater a lagarta do milho, enquanto outras estão em curso para combater a mosca branca. Estão sendo pesquisadas formas de combater o nanismo - deficiência hormonal tanto genética como adquirida - através do hormônio do crescimento, por especialistas da USP. A empresa Hormogen Biotecnologia está hospedada no Cietec para pesquisar o assunto. O objetivo é colocar no mercado o equivalente a 500 mil doses por ano de hormônio do crescimento. As pesquisas vão cumprir duas etapas: a planta piloto deverá atingir 30 mil doses/ano, segundo o gerente administrativo da empresa. Eduardo Nicodemu. A segunda fase envolve a parceria com empresas cuja estrutura possa permitir o aumento da produção e a comercialização do produto. A primeira fase está andando, afirma Nicodemu. Já a segunda não tem prazo para ser concluída. Temos de importar equipamentos, que são operações imprevisíveis, acrescenta.