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Correio Popular online

Mais que perfeito

Publicado em 02 abril 2006

Por Maristela Tesseroli

Pouco conhecida, mas imprescindível para o estudo das plantas, a arte dos ilustradores botânicos faz um passeio entre o rigor científico e a inspiração

Os traços são precisos. A técnica, apurada. O rigor científico, extremo. O resultado final, uma obra de arte. Com o lançamento oficial do projeto Flora brasiliensis on line, a importância do trabalho dos ilustradores botânicos é resgatada, suscitando indagações sobre esse profissional que transita com desenvoltura entre o rigor científico e a criação artística.
Profissão que se mantém há pelo menos cinco séculos, os ilustradores botânicos são, paradoxalmente, ainda pouco conhecidos do grande público, talvez pela própria natureza de seu trabalho, quase sempre, introspectiva.
"A profissão exige bastante concentração para que nenhuma das características da planta se perca. Forma, tamanho, tonalidade, pilosidade, textura, disposição das folhas e dos ramos, enfim, nada pode passar despercebido porque são essas as características que o pesquisador espera encontrar em um desenho para ajudá-lo na descrição e catalogação das espécies", explica Esmeralda Zanchetta Borghi que, durante 28 anos, trabalhou como ilustradora no Departamento de Botânica do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Hoje aposentada, Esmeralda — ou simplesmente Esmê, como ficou conhecida entre seus colegas — é uma veterana do ofício na cidade de Campinas.
"Sempre adorei as artes e, por isso, freqüentava cursos de pintura e desenho arquitetônico. Entretanto, sequer conhecia a profissão de ilustrador botânico", relembra. "Comecei a aprender o ofício depois que o professor Hermógenes (de Freitas Leitão Filho, botânico e docente da Universidade, falecido em 1996) me selecionou, entre outras candidatas, para ilustrar um livro que ele escrevia à época. Alguns anos depois, prestei concurso para atuar como ilustradora do Departamento de Botânica e lá permaneci por quase 30 anos".

Paixão e técnica
Numa concorrida sala do Depar-tamento de Botânica, já que ela era a única profissional da universidade que se dedicava a esse tipo de trabalho, Esmê passava cerca de oito horas diárias debruçada sobre suas pranchas, reproduzindo as características formais das plantas que lhe eram passadas pelos pesquisadores. "Como qualquer outro ofício, o bom desempenho de um ilustrador botânico depende de dois fatores básicos", ensina. "O primeiro é a paixão pelo que se faz. O segundo é o aprimoramento constante. E isso, só a prática diária nos traz".
Da mesma geração de Esmeralda Borghi, a ilustradora do Instituto de Botânica de São Paulo, Maria Cecília Tomasi, também descobriu a profissão meio acidentalmente. Formada em Educação Artística, com licenciatura em Desenho, Maria Cecília decidiu prestar concurso público por não sentir afinidade com o Magistério. "Ao ser admitida no Instituto, recebi treinamento e logo me encantei pela área", recorda-se.
Anos depois, ela conseguiria uma bolsa de estudos para um curso de especialização em ilustração botânica em aquarela. Durante seis meses, Cecília freqüentou as aulas ministradas no Royal Botanic Gardens, em Kew, na Inglaterra. A bolsa é concedida anualmente a ilustradores talentosos pela Fundação Botânica Margaret Mee, uma das mais famosas ilustradoras botânicas do mundo, falecida em 1988, que desempenhou papel importantíssimo na difusão da ilustração botânica em cores para os brasileiros.
Apesar de o curso feito por ela no Exterior voltar-se à técnica de aquarela, Cecília afirma que, nas instituições de pesquisa e nas universidades, a técnica predominante ainda é o bico-de-pena, já que a maioria das revistas científicas só aceita pranchas em preto e branco pelo custo mais baixo da impressão.
"Para o ilustrador, entretanto, tanto os desenhos em preto e branco quanto aqueles em cores são interessantes. O estímulo por um ou outro pode variar pela finalidade da ilustração ou pela beleza da planta. Em alguns casos, os desenhos coloridos são mais ilustrativos, sem finalidade científica. Mas, nem por isso, o rigor nas formas e cores está dispensado", reitera a ilustradora.

Melhor que fotografia
Ferramenta essencial e imprescindível de representação científica de espécies vegetais, a ilustração botânica permanece incólume a todos os avanços tecnológicos. Afinal, um ilustrador competente consegue dar vida ao desenho, característica essencial para os pesquisadores que, muitas vezes, só podem contar com plantas secas ou espécimes fragmentados.
Por meio de sua arte, o ilustrador "revive" o organismo desenhado. "Milagre" que nenhum equipamento fotográfico, por mais moderno que seja, poderia operar.
Além disso, os desenhos geralmente exigem alta fidelidade. Por isso, muitas vezes precisam ser feitos sob estereomicroscópio (lupa) acoplado a uma câmara clara — um acessório que projeta no papel o objeto que se pretende desenhar.
"Dessa forma, o desenho é feito de forma muito precisa e precisão é uma condição sine qua non para se obter resultados considerados válidos cientificamente", explica a doutora em Botânica, Sigrid Luiza Jung Mendaçolli, pesquisadora do Instituto Agronômico de Campinas (IAC). "Uma ilustração botânica bem feita não permite arroubos artísticos do desenhista, no sentido de enfeitar o que se vê".
A professora do Departamento de Botânica da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Luiza Sumiko Kinoshita concorda com Sigrid. "O bom ilustrador consegue delinear as estruturas e evidenciar aspectos importantes que uma foto não forneceria, principalmente se a coloração for uniforme", diz. "O desenho detalhado torna-se muito útil para a compreensão de determinadas estruturas tridimensionais. Uma foto colorida e um desenho em preto e branco podem até se complementar, mas ambos se prestam a fins diferentes".
A professora lembra ainda que, em trabalhos com descrições de várias espécies semelhantes de uma planta, as ilustrações contidas em uma prancha sintetizam as semelhanças e as diferenças, principalmente em relação à pilosidade, à textura e ao tamanho relativo. Nesse sentido, o desenho acaba tendo fundamental importância no desenvolvimento de um trabalho científico.

A flora de perto
Aos 35 anos, o biólogo Rogério Lupo talvez seja um dos melhores representantes da nova safra de ilustradores botânicos do País.
Afinal, enquanto seus pares começaram pelo desenho e, posteriormente, foram apresentados à botânica, Rogério Lupo começou como estagiário em um laboratório de pesquisa botânica para, somente alguns anos depois, colocar seu dom artístico a serviço da Ciência.
Graduado em Ciências Biológicas pela Universidade de São Paulo (USP) em 1997, Lupo envolveu-se, ainda durante o curso, em atividades de pesquisa em taxonomia vegetal — ciência que trata da classificação, da identificação e da nomenclatura das plantas.
Paralelamente, por hobby, começou a freqüentar a Escola Clássica de Arte, onde entrou em contato com as mais diversas técnicas artísticas. "De repente, percebi que a arte estava auxiliando-me nos trabalhos de pesquisa. Eu mesmo ilustrava meus trabalhos científicos e auxiliava também os colegas que me pediam para fazer isso".
Foi, então, que ele se deu conta deste filão interessante em sua área, em que poderia unir suas duas paixões: a arte e a Biologia. Lupo iniciou suas atividades profissionais como ilustrador no próprio Laboratório de Sistemática Vegetal, em que trabalhava, desenhando para dissertações e teses dos colegas.
O rigor científico que Lupo imprimia a seus trabalhos, entretanto, rapidamente começou a chamar a atenção não apenas dos professores da própria USP, mas também de pesquisadores de outras instituições.
Hoje, Lupo atua como free-lancer para várias universidades e instituições de pesquisa e trabalha incessantemente para dar conta de tantas encomendas. Mas encontra tempo para sonhar com a criação de um Centro de Pesquisa e Ensino em Ilustração Biológica, onde ele possa desenvolver pesquisas sobre novas técnicas para os desenhos e resgatar as antigas, adequando-as à atualidade.
"A maior parte das encomendas que recebo ainda é de ilustrações em nanquim na área de taxonomia vegetal", diz Lupo. "Entretanto, nos últimos anos, tenho diversificado meu trabalho, realizando desenhos também para as áreas zoológica e comportamental. Tenho tido ainda a preocupação de resgatar e adaptar antigas técnicas que haviam caído em desuso. Uma delas, em que já me aprimorei, é o tracejado, usado antigamente nas gravuras em madeira e metal. Hoje, eu a utilizo com o nanquim e o bico-de-pena, substituindo o tradicional pontilhado, largamente utilizado em ilustrações botânicas, pelo tracejado. Ganho tempo, embora a técnica exija grande habilidade para ser utilizada".
O talento do biólogo/ilustrador, que mora em Valinhos, começa a ganhar reconhecimento nacional. Em 1998, obteve menção honrosa pelo terceiro lugar no I Salão Nacional de Ilustração Botânica. Mais tarde, por dois anos consecutivos, em 2002 e 2003, Lupo foi o vencedor na categoria preto e branco do Concurso de Ilustração Botânica da Fundação Margaret Mee.
"Tenho paixão pelo que faço e sou muito, muito rigoroso ao reproduzir uma espécie. Talvez resida nessas duas características o segredo do sucesso para se dar bem nesta profissão".

Flora brasiliensis na internet
Considerado o mais completo e abrangente levantamento da flora nacional, o catálogo centenário de Flora brasiliensis sempre foi referência indispensável para biólogos.
Em seus 40 volumes, estão descritas 22.767 espécies, que representam o conjunto das plantas conhecidas até meados do século 19. A obra traz ainda 3.811 desenhos de plantas, flores, frutos e sementes.
Apesar de ter sido organizado e catalogado somente em 1840, o embrião do catálogo data de 1817, quando o médico e botânico alemão Carl Friedrich Philipp von Martius chegou ao Brasil como integrante de uma missão austríaca, formada por cientistas e artistas europeus interessados na rica e exuberante flora tropical. Em três anos, Martius e sua equipe percorreram 10 mil quilômetros pelo interior do Brasil antes de voltar à Alemanha.
Impressionado pela exuberância da flora brasileira, Martius passaria, nos anos seguintes, a se dedicar exaustivamente a estudá-la. A partir de 1840, iniciou o trabalho de organização das informações e de publicação de sua obra de maior fôlego, justamente o Flora brasiliensis. A publicação do último dos 40 volumes que compõem o catálogo, entretanto, só aconteceria em 1906.
Agora, exatos cem anos após a publicação, a obra se torna mais acessível aos cientistas e ao público em geral por meio da Internet, como resultado do projeto Flora brasiliensis on-Line, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), Natura Cosméticos e Vitae Apoio à Cultura, Educação e Promoção Social. O endereço na internet é http://florabrasiliensis.cria.org.br. Em alta resolução e com grande riqueza de detalhes, os desenhos poderão ser consultados pelo nome científico de cada espécie, pelo volume ou pela página da obra impressa.

Joa Pohl
Médico, mineralogista e botânico, o austro-húngaro Johann Emanuel Pohl, ou simplesmente Joa Pohl, como passaria à história, chegou ao Brasil como integrante da mesma missão austríaca que trouxe ao país o alemão Carl von Martius em 1817. Os membros da missão, entretanto, tomaram destinos diferentes. Pohl viajou sozinho pelo interior do Brasil, começando pelo Rio de Janeiro, depois passando por Minas Gerais e, finalmente, percorrendo Goiás em várias direções. O resultado de suas observações está na obra Viagem no Interior do Brasil, composta por dois volumes. A obra integra o acervo da Biblioteca do Instituto Agronômico de Campinas (IAC).

J. Barbosa Rodrigues
Imagens do catálogo Sertum palmarum brasiliensum, datado de 1903. A obra, em dois volumes editados em Bruxelas, é de autoria do botânico brasileiro Barbosa Rodrigues, que se notabilizou como diretor do Jardim Botânico do Rio de Janeiro a partir de 1890. O catálogo traz um estudo detalhado sobre palmeiras brasileiras e integra o acervo da Biblioteca do Instituto Agronômico de Campinas (IAC).

Maria de Lourdes Savóia
Nascida em Campinas, em 1923, Maria de Lourdes Savóia fez carreira como ilustradora botânica do Instituto Agronômico de Campinas. Admitida em 1945 no IAC, Maria de Lourdes aposentou-se como desenhista do Instituto e faleceu em 2000. Suas obras podem ser encontradas na Biblioteca do IAC.

Nossas fontes
Maria Cecília Tomasi, ilustradora do Instituto de Botânica de São Paulo, f. (11) 5073-6300
Rogério Lupo, ilustrador biológico, f. 3849-4224

Agradecimento
Luísa Helena Pompêo de Camargo Tisselli, diretora do Núcleo de Informação e Documentação, por ter acompanhado e permitido o acesso da equipe de reportagem ao acervo da Biblioteca do Instituto Agronômico de Campinas.